Moraes cobrou julgamento de Mendonça, mas caso só será analisado pelo STF na semana que vem; entenda o embate
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Moraes cobrou julgamento de Mendonça, mas caso só será analisado pelo STF na semana que vem; entenda o embate

STF se reúne nesta terça-feira para analisar relatório da PF sobre Moraes, mas crise terá novo capítulo no dia 23, quando plenário discutirá acusações contra Mendonça

15/09/2026 04h00 Atualizado 15/09/2026 04h00

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) participam nesta terça-feira de uma sessão plenária presencial para analisar o relatório da Polícia Federal (PF) que identificou Alexandre de Moraes como interlocutor de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mas, independentemente do desfecho da sessão, a crise que colocou os dois ministros em lados opostos ainda terá novos capítulos. Isso porque já está marcada para o próximo dia 23 uma sessão para analisar as acusações feitas por Moraes contra André Mendonça, ministro que determinou a elaboração do relatório sobre as mensagens do banqueiro que deu origem à crise interna na Corte.

Moraes chegou a pedir que os dois casos fossem analisados conjuntamente nesta terça-feira. O ministro argumentou que não seria possível discutir sua situação sem examinar também a conduta de Mendonça na requisição do relatório da PF que identificou as mensagens entre ele e Vorcaro. O presidente do STF, Edson Fachin, porém, rejeitou o pedido e decidiu manter os procedimentos separados.

Cinco pontos que explicam o julgamento sobre a relação entre Moraes e Vorcaro

Segundo Fachin, os casos “possuem contornos e objetos bem delineados” e assim são preservados "os limites" do que será submetido ao plenário na próxima semana.

A decisão criou uma espécie de calendário para a crise. Primeiro, o plenário discutirá o caso que envolve Moraes e as mensagens trocadas com Vorcaro. Uma semana depois, os ministros voltarão ao tema para analisar o procedimento que reúne acusações contra Mendonça. Em ambos os episódios, o pano de fundo é a investigação sobre as fraudes do Banco Master e a disputa sobre os limites da atuação de ministros do Supremo na condução de apurações que podem atingir outro integrante da Corte.

O que pesa contra Moraes

O caso que será analisado nesta terça-feira começou depois que Mendonça determinou que a PF identificasse o interlocutor de Vorcaro em mensagens enviadas às vésperas da prisão do banqueiro. Os investigadores chegaram ao nome de Moraes.

As mensagens mostram Vorcaro pedindo orientações ao ministro às vésperas de ser preso. A partir da divulgação do relatório, passou a existir dentro do STF a discussão se o material poderia embasar a abertura de uma investigação envolvendo Moraes.

A ala ligada ao ministro questiona a forma como o relatório foi produzido. O argumento é que uma investigação envolvendo um integrante do STF precisa ser previamente autorizada pelo colegiado. Como Mendonça determinou sozinho a elaboração do documento, aliados de Moraes sustentam que o material deveria ser considerado inválido.

A Procuradoria-Geral da República também se manifestou pela anulação do relatório, embora o próprio procurador, Paulo Gonet, também seja citado no documento. Para ele, Mendonça não poderia ter determinado sozinho a elaboração do documento.

Do outro lado, interlocutores de Mendonça sustentam que não houve uma investigação direcionada a Moraes. Segundo essa versão, a PF apenas identificou quem era o destinatário de mensagens que já haviam sido encontradas no celular de Vorcaro. O material teria sido então encaminhado à PGR e ao plenário para a análise cabível.

É essa controvérsia que estará no centro da sessão desta terça-feira. Antes de discutir o conteúdo das mensagens, os ministros também poderão se debruçar sobre a validade do procedimento que levou à identificação de Moraes.

O que pesa contra Mendonça

A situação de Mendonça será analisada em 23 de setembro, a partir de acusações apresentadas por Moraes durante a escalada da crise.

Depois de tomar conhecimento do relatório da PF, Moraes passou a questionar a condução das investigações do Banco Master e também dos casos relacionados às fraudes no INSS por Mendonça. Em manifestações encaminhadas a Fachin, acusou o colega de possíveis crimes de responsabilidade, improbidade administrativa e abuso de autoridade.

Moraes também afirmou que Mendonça teria protegido de forma “ostensiva” determinado “grupo político” ao manter parte dos procedimentos do caso Master sob sigilo. O ministro questionou ainda a forma como o colega liberou documentos relacionados às investigações e afirmou que 180 documentos haviam sido suprimidos.

Mendonça rebateu as acusações pouco depois. Segundo ele, o levantamento do sigilo seguiu critérios técnicos e levou em consideração a existência de investigações ainda em andamento e a necessidade de preservar dados pessoais dos investigados. Após novas cobranças de Moraes e manifestação da PGR, o ministro liberou outros 39 procedimentos.

É esse conjunto de acusações que será analisado pelo plenário no dia 23. Fachin negou a tentativa de Moraes de antecipar a análise para esta terça-feira justamente porque, segundo ele, a instrução do procedimento contra Mendonça ainda não estava concluída. O presidente do STF ainda aguardava manifestações da PGR e do próprio ministro.

A disputa pelo celular de Vorcaro

A troca de acusações entre Moraes e Mendonça ganhou uma nova frente na disputa pelo conteúdo integral do celular de Vorcaro, apreendido na primeira fase da Operação Compliance Zero.

Até agora, apenas parte das mensagens extraídas do aparelho foi tornada pública. Ministros ligados a Moraes passaram a cobrar acesso ao conteúdo completo, enquanto Mendonça se posicionou contra o compartilhamento amplo às vésperas da sessão.

Cristiano Zanin determinou que a PF encaminhasse ao seu gabinete uma cópia integral dos dados. Gilmar Mendes fez o mesmo. Zanin afirmou que precisava conhecer o material para “formar convicção” antes do julgamento, enquanto Gilmar determinou que os dados permanecessem sob regime restrito de acesso. O conteúdo foi entregue na segunda-feira aos gabinetes de Moraes, Zanin e Gilmar.

Mendonça argumentou que a medida poderia “tumultuar” o julgamento desta terça-feira e prejudicar o “êxito” das investigações sobre as fraudes do Master.

Por que Fachin separou os casos

Ao rejeitar o pedido de Moraes, Fachin afirmou que a manutenção em pauta apenas do procedimento que contém o relatório sobre Moraes permite delimitar com precisão o que será submetido ao plenário.

Nesta terça-feira, portanto, o STF terá de decidir o que fazer diante do relatório da PF sobre as mensagens entre Moraes e Vorcaro. A expectativa, contudo, é de que algum dos ministros alinhados a Moraes usem do artifício do pedido de vista (mais tempo para análise da matéria) para adiar a decisão. Caso isso aconteça, há um prazo de 90 dias para a devolução do processo.

Na semana seguinte, os ministros voltarão ao mesmo cenário para analisar as acusações de Moraes contra Mendonça - e mais um embate deve acontecer entre os 10 integrantes da Corte.

No intervalo entre as duas sessões, a Corte seguirá tendo de administrar a disputa sobre o sigilo das investigações, o acesso ao conteúdo do celular de Vorcaro e os limites da atuação de seus próprios ministros.

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