Da ordem de Fachin ao fim do sigilo do caso Master, linha do tempo detalha as 24 horas da guerra de despachos no Supremo
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Decisão foi precedida por novos capítulos do embate que levou a Corte a uma crise sem precedentes
12/09/2026 03h30 Atualizado 12/09/2026 03h30
O ministro André Mendonça tornou públicos na sexta-feira todos os processos do Supremo Tribunal Federal (STF) relacionados às fraudes do Banco Master. A decisão veio no fim de um dia que opôs novamente os grupos de Mendonça e do ministro Alexandre de Moraes, desta vez sobre o grau de sigilo do caso e a respeito do rito do julgamento que vai analisar na terça-feira as mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro a Moraes.
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O despacho ocorreu na sequência de uma manifestação em que Moraes acusou o colega de proteger de forma “ostensiva” um determinado “grupo político” ao manter o sigilo de parte dos inquéritos. Entre o início da madrugada de sexta-feira ao início da noite, 54 procedimentos de investigação vieram à tona.
A primeira leva de procedimentos que vieram a público abarcava o inquérito da Compliance Zero, principal operação que mira os negócios do banqueiro e que deu origem a outras frentes de apuração. Já a segunda decisão de Mendonça alcança, entre outras, as apurações sobre o financiamento do filme “Dark horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, que tem como um dos alvos o candidato Flávio Bolsonaro (PL).
Também estão as apurações sobre o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) e as supostas fraudes nos aportes do Rioprevidência no Master; a respeito do senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro de Bolsonaro; e a que mira o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo Lula na Casa. Os documentos começaram a entrar no sistema do Supremo na sexta-feira à noite.
De acordo com a ordem do presidente da Corte, Edson Fachin, Mendonça deve ressalvar, ou seja, manter em sigilo o que avaliar que a publicidade pode prejudicar o andamento das investigações.
Série de cobranças
A decisão de Mendonça foi precedida por novos capítulos do embate que levou a Corte a uma crise sem precedentes. Moraes enviou um ofício a Fachin no início da tarde afirmando que os caso dele e de Mendonça deveriam ser analisados em conjunto. Está marcada para terça julgamento das mensagens de Vorcaro a Moraes pedindo orientações às vésperas de ser preso pela primeira vez, em novembro do ano passado. Esse relatório da PF teve origem em uma determinação de Mendonça.
Em resposta, dois dias depois, Moraes acusou o colega de possíveis crimes de responsabilidade, improbidade administrativa e abuso de autoridade na função de relator do caso Master e das fraudes do INSS e pediu que ele fosse investigado. Fachin determinou que Mendonça se manifestasse, e o prazo ainda está em aberto. Moraes também disse que o colega manteve em sigilo parte do caso Master por ser “parte interessada” e suprimiu 180 documentos dos inquéritos que se tornaram públicos.
“Além disso, ao cumprir parcialmente a decisão de Vossa Excelência, o ministro André Mendonça, diretamente interessado no julgamento de ambas as PETs 16.704 e 16.662, selecionou subjetivamente o levantamento do sigilo, tornando público somente o que entendeu conveniente”, escreveu Moraes na sexta-feira.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) concordou com o magistrado e pediu a Fachin a extensão da publicidade. O presidente da Corte endossou o posicionamento e determinou a Mendonça, no início da noite de sexta-feira, que todos os casos fossem abertos, menos os documentos cujo acesso público poderia colocar em risco investigações em andamento da PF e da própria PGR.
Horas depois, Mendonça rebateu a tese de Moraes. O relator do caso Master assegurou em despacho que deu publicidade a todo o conteúdo possível e afirmou que a menção do colega sobre 180 documentos suprimidos não é verdade e diz respeito a uma questão técnica.
“A partir de uma análise prudente e responsável, considerando a existência de investigações em andamento e a necessidade de zelar pela preservação de dados pessoais das pessoas investigadas (...) Jamais se poderia publicizar a ‘totalidade dos procedimentos contidos ou relacionados à PET 15.556’ (...) Os procedimentos ‘contidos’ ou ‘relacionados’ à PET nº 15.556, que têm relação com o julgamento pautado para a próxima terça-feira, já tiveram seus sigilos levantados e estão integralmente disponibilizados aos gabinetes dos eminentes ministros deste Tribunal”, disse Mendonça.
A resposta veio com um novo ofício em que Moraes subiu o tom e afirmou que Mendonça quer blindar determinados políticos.
“O levantamento seletivo e direcionado do sigilo realizado pelo ministro André Mendonça, na proteção ostensiva de determinado grupo político, repete a ilegal conduta de direcionamento dos acordos de colaboração premiada e de determinações de diligências de investigação de ofício contra alvos predeterminados”, escreveu Moraes. Na sequência, Mendonça publicou um despacho liberando acesso a outros 39 procedimentos.
Disputa entre alas
A disputa entre as alas do Supremo tem como um dos panos de fundo a íntegra do conteúdo do celular de Vorcaro, já que até o momento apenas uma parte das mensagens trocadas por ele foram reveladas. O grupo próximo a Moraes questiona o motivo de a identificação demandada por Mendonça ter alcançado inicialmente apenas o contato do banqueiro com o magistrado. Na sexta-feira, o ministro Cristiano Zanin solicitou a Fachin que determinasse a Mendonça que os ministros tivessem acesso a todo o material extraído do aparelho por meio do qual o banqueiro falou com Moraes, que também cobrou o direito de analisar o conteúdo.
Mendonça, por sua vez, afirmou que o celular do banqueiro está com a PF e que tem em seu gabinete “em envelope lacrado, cópia de segurança dos dados” do telefone do banqueiro. Moraes reagiu dizendo que o fato de estar lacrado não impede o compartilhamento com os demais gabinetes.
Em outra frente, o ministro Gilmar Mendes, do grupo próximo a Moraes, pediu a Fachin que assuma a condução dos casos envolvendo Moraes e Mendonça e defendeu, na prática, que o julgamento marcado para terça seja adiado.
Gilmar argumenta que há “sérias dúvidas” de que o caso das mensagens a Moraes esteja em condições de ser julgado. Para o decano, não há definição sobre quem ocupa a posição de investigado, o objeto da apuração e qual o rito a ser adotado na sessão.
Segundo ele, não é possível definir com segurança se o que está sendo tratado é um pedido de investigação, um procedimento para análise de medidas cautelares ou um expediente voltado à proteção das prerrogativas institucionais do STF.
O formato da sessão ainda não foi comunicado por Fachin. A ala próxima a Moraes defendeu ao presidente do STF que o encontro seja realizado a portas fechadas. Apesar da pressão, interlocutores afirmam que Fachin considera que o julgamento deve ser público
Fachin passou os últimos dias ouvindo os colegas justamente sobre o rito e a condução da sessão extraordinária. Na quinta-feira, estiveram com o presidente Moraes, Mendonça, Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e Zanin. Fachin também conversou com Cármen Lúcia e recebeu o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Nessas conversas, Fachin adotou uma postura de escuta e evitou antecipar suas decisões aos interlocutores. Ao tornar público o relatório da PF envolvendo Moraes, Mendonça defendeu que a análise ocorresse em uma sessão “pública, transparente e presencial”.
Também está em discussão quem poderá acompanhar presencialmente o julgamento. Há a possibilidade de ministros aposentados do Supremo e representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acompanharem a sessão no tribunal, em um movimento para conferir caráter institucional à resposta da Corte à crise. A participação, porém, ainda depende da definição do rito e das regras de acesso ao plenário.