Com STF em crise, Lula diz que ninguém, em nome da democracia, 'pode usar o cargo que tem em benefício pessoal'
politica

Com STF em crise, Lula diz que ninguém, em nome da democracia, 'pode usar o cargo que tem em benefício pessoal'

Presidente também defendeu que seja feita, no próximo ano, uma discussão sobre mudanças no funcionamento do Judiciário

04/09/2026 11h52 Atualizado 04/09/2026 12h18

Em meio a uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF) e ao lado do chefe da Corte, Edson Fachin, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira que ninguém pode usar o cargo em benefício próprio. O petista também defendeu uma reforma do Judiciário e afirmou fazer um “esforço sobrenatural” para evitar que a sociedade brasileira perca a confiança nas instituições responsáveis pelo funcionamento da democracia.

— Ninguém, em nome da democracia, pode usar o cargo que tem em benefício pessoal — afirmou Lula durante cerimônia no Palácio do Planalto para a sanção de fundos destinados ao sistema de Justiça.

A declaração ocorre em um momento em que o Supremo Tribunal Federal enfrenta uma crise provocada pelas revelações de mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master. Lula não citou Moraes nominalmente durante sua fala.

Na véspera, o presidente já havia se pronunciado sobre o episódio e cobrado de Fachin e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, uma atuação para assegurar a integridade e a confiança nas investigações. Nesta sexta, voltou ao assunto diante dos dois.

— Ontem fiz uma fala sobre a crise que estamos vivendo. Tenho uma preocupação, como presidente, de tentar fazer um esforço sobrenatural para que a sociedade brasileira não perca a fé nas instituições responsáveis pelo funcionamento do sistema democrático brasileiro — disse.

Lula afirmou que a democracia depende de instituições sólidas e criticou movimentos que, segundo ele, buscam enfraquecê-las ou desmoralizá-las.

— Sem instituições sólidas, a democracia estará vulnerável. Tem algumas pessoas que tentam enfraquecer, desmoralizar, quando, no fundo, qualquer país de democracia forte tem instituições que garantem o funcionamento dela com muita competência — afirmou.

O presidente também defendeu que seja feita, no próximo ano, uma discussão sobre mudanças no funcionamento do Judiciário. Lula não detalhou quais alterações pretende discutir.

— Tenho certeza que faremos, para o próximo ano, uma discussão profunda sobre a reforma do Judiciário, para que o povo possa continuar acreditando na Justiça — disse.

Em outro momento, Lula dirigiu-se diretamente a Fachin e afirmou que caberá ao presidente do Supremo e a Gonet transmitir tranquilidade à sociedade diante da crise, sem ocultar informações.

— Está nas suas costas e nas do Gonet a responsabilidade de passar o mínimo de tranquilidade, sem tentar esconder absolutamente nada — afirmou.

A fala reforça a cobrança feita por Lula na noite de quinta-feira. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o presidente havia afirmado que o caso deveria ser investigado “sem blindagem de ninguém” e declarou que a população esperava que Fachin e a PGR liderassem um processo capaz de preservar a confiança nas apurações.

Nesta sexta, Lula também criticou o que chamou de ambiente de “denuncismo”, disseminação de notícias falsas e vazamentos de informações, que, segundo ele, prejudicam a democracia.

— Eu estou satisfeito com o dia de hoje e o de ontem e vou ficar muito mais satisfeito quando a gente tiver, nesse país, vivendo num clima de paz e tranquilidade. Estamos vivendo uma época muito perigosa. O denuncismo, a fake news, os vazamentos não contribuem com a democracia — afirmou.

No evento, Fachin também fez uma defesa do diálogo institucional. Ele reconheceu a gravidade dos fatos e disse que a resposta institucional será "firme e rigorosa", mas no "tempo e na forma que a ordem jurídica exige". Fachin ainda disse que "nenhuma autoridade está acima da Constituição" e que seguirá os procedimentos previstos na Constituição e na legislação.

Entenda crise no STF

A crise já sem precedentes no Supremo Tribunal Federal escalou na quinta-feira com um pedido apresentado por Moraes para que Mendonça seja investigado pelo que classificou como “indícios de crimes” cometidos pelo colega de Corte na condução de inquéritos sob sua relatoria, em especial o relativo ao escândalo do Master. O despacho surgiu dois dias após Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que revelou mensagens de Daniel Vorcaro, dono do banco, ao próprio Moraes.

É a primeira vez em que dois integrantes do STF trocam acusações abertamente, inclusive com decisões processuais que miram um ao outro. Diante da turbulência interna que amplia as pressões sobre si, o presidente da Corte, Edson Fachin, abriu um procedimento para tratar do caso e impôs um prazo de cinco dias para que os dois ministros se manifestem.

Em seu despacho, protocolado no âmbito do Inquérito das Fake News, do qual é relator desde 2019, Moraes enviou ao próprio Fachin relatórios de inteligência da PF apontando supostas irregularidades na atuação de Mendonça no escopo das operações Compliance Zero, que apura fraudes ao sistema financeiros, e Sem Desconto, sobre desvios ilegais de aposentadorias.

Na última terça-feira, uma decisão de Mendonça tornou público um relatório da PF que revelou mensagens de Vorcaro a Moraes. O conteúdo obtido pelos investigadores mostrou, por exemplo, que o banqueiro contatou o ministro dois dias antes de ser preso e chegou a consultá-lo sobre a possibilidade de deixar o país.

Como resposta, Moraes determinou, no mesmo dia, que o diretor-geral da PF encaminhasse relatórios de inteligência com citações a integrantes da Corte.

Em meio ao embate aberto entre membros do Supremo, Fachin abriu, minutos depois do despacho de Moraes, um procedimento para esclarecer pontos levantados pela PGR na condução da investigação envolvendo o caso Master. Ele deu prazo de cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o procurador Paulo Gonet e Andrei Rodrigues prestem as informações necessárias.

Na decisão, Fachin afirma que a medida é necessária para avaliar o pedido de Mendonça de submeter ao plenário a análise do relatório sobre as conversas entre Moraes e Vorcaro. A PGR, contudo, se manifestou pela nulidade das informações levantadas pela PF por, na visão do órgão, não ter sido seguido o rito previsto na legislação.

Um dos argumentos é que Mendonça não poderia, por iniciativa própria, ter determinado a produção do relatório. Além disso, a Procuradoria afirma que a investigação de um ministro da Corte precisaria de aval prévio do plenário, o que não ocorreu.

← Volver a noticias