Especialistas apontam que ataque a casamento no sul do Irã foi provocado por disparo direto de munição dos EUA
Vice-presidente americano afirma que os EUA investigam o caso, enquanto moradores de Kuhestak dizem que suas comunidades estão sendo colocadas na rota do conflito
Por O GLOBO, com agências internacionais — Kuhestak
04/09/2026 12h19 Atualizado 04/09/2026 12h19
A explosão que atingiu uma cerimônia de casamento na cidade de Kuhestak, no sul do Irã, na última terça-feira, provavelmente partiu de um impacto direto de uma munição americana — e não de estilhaços desviados de outro alvo —, segundo especialistas em armamentos consultados pela agência Reuters, que analisaram fotos e vídeos do local. O ataque, que deixou quatro mortos e 68 feridos, reabre o debate sobre o custo civil da guerra dos Estados Unidos contra o Irã e é considerado o mais grave desde que um míssil atingiu uma escola primária iraniana em fevereiro, matando dezenas de crianças e professores.
Moradores da região, em sua maioria da etnia balúchi, dizem sentir que as mortes de civis em sua comunidade recebem menos atenção e que ela está sendo colocada na rota do conflito.
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O Comando Central dos EUA confirmou ter realizado, em 1º de setembro, uma série de ataques no sul do país mirando instalações de defesa aérea, radares e sistemas de comunicação da Guarda Revolucionária Islâmica, como resposta a ofensivas iranianas anteriores contra posições americanas no Golfo.
Segundo dois oficiais americanos ouvidos pela Reuters sob condição de anonimato, um desses ataques teve como alvo específico a torre de telecomunicações de Kuhestak, que, conforme imagens de satélite, está a cerca de 135 metros de onde acontecia o casamento.
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Ao ser perguntado sobre o caso na quinta-feira, o vice-presidente americano, JD Vance, garantiu que os EUA não têm como prática atingir civis em combate, mas ponderou que "às vezes as coisas acontecem". Ele também questionou a veracidade dos relatos divulgados pelo Irã e evitou reconhecer que as mortes já haviam sido confirmadas por entidades humanitárias reconhecidas internacionalmente.
— Estamos investigando porque, obviamente, nos importamos. Queremos saber — disse Vance durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca.
Especialistas descartam ricochete
A Reuters submeteu o material de vídeo e fotografia a quatro especialistas em munições. Todos concluíram que os danos eram próprios de uma explosão por impacto direto, e não de fragmentos resultantes de um ataque em outro ponto. Eles avaliaram que o artefato provavelmente era de origem americana, descartando a possibilidade de ter sido um míssil antiaéreo iraniano disparado por erro.
Trevor Ball, ex-técnico de desativação de explosivos do Exército americano e hoje analista da Armament Research Services, foi um dos consultados.
— Os danos observados parecem ter sido causados por uma munição [americana] que detonou ao entrar em contato com o telhado. Os danos visíveis causados pela explosão não poderiam ter sido resultado de fragmentos do impacto próximo à torre de comunicações atingindo a área — explicou.
Gareth Collett, brigadeiro aposentado do Exército britânico e especialista em desativação de explosivos, chegou à mesma conclusão e ponderou que pode simplesmente ter havido um erro de pontaria.
— Considerando o número de bombas que foram lançadas, isso acontece de vez em quando, mesmo com os sistemas de orientação mais sofisticados — afirmou Collet.
Sebastian Schutte, pesquisador do Instituto de Pesquisa da Paz de Oslo, também revisou as imagens e concordou que a abertura no telhado não é compatível com um ricochete vindo da torre de telecomunicações.
Para os peritos, é pouco provável que a destruição tenha sido causada por um míssil iraniano desviado. Schutte apontou que o ângulo do impacto destoa do padrão de um míssil antiaéreo, enquanto Collett notou a ausência de fragmentação típica de uma ogiva de defesa.
'Não foi só uma casa'
Segundo a mídia estatal iraniana e relatos colhidos pelo jornal britânico Guardian, o imóvel destruído pertencia ao pescador Ali Mallahi, que celebrava o casamento da filha. Em vídeo divulgado pela televisão estatal, Mallahi apareceu entre os escombros da própria casa, dizendo estar abalado com o ataque, mas grato por o saldo de vítimas não ter sido maior.
Um barbeiro, que testemunhou o momento seguinte ao ataque, descreveu ao Guardian o impacto na vizinhança.
— Não tenho palavras. Nossa cidade é pequena, todos nos conhecemos e somos como irmãos. Estamos todos de luto. Visitei a casa, e a mídia não vai noticiar, mas não foi só uma casa. Muitas casas ao redor do local foram danificadas e os vizinhos foram atingidos diretamente por objetos cortantes quando as explosões aconteceram — disse o homem. — Não estamos carregando caixões nos ombros, estamos carregando o futuro sombrio que nos aguarda no sul.
O pescador Chakar Baloch, de 35 anos, disse que o ataque reforçou o sentimento entre os moradores locais de que os civis que vivem ao longo da costa de Makran estão sendo colocados no caminho de conflitos.
— Minha opinião é que nós somos as vítimas. Somos as pessoas que vivem ao longo da costa de Makran e, durante anos, fomos para o mar, lutamos para ganhar o pão de cada dia e só queríamos sobreviver — disse ele em entrevista ao Guardian.
Nas redes sociais, moradores publicaram vídeos sobre as consequências do ataque. Em uma das publicações, Yaqoob Mallahi, parente da noiva, mostrou o filho de sete anos, Sepehr, internado com a cabeça enfaixada. Arjomand afirmou que ao menos seis feridos seguiam em estado grave na UTI de um hospital em Minab, cidade a cerca de 30 km de Kuhestak.
Farzin Kadkhodaei, um ativista de direitos humanos do Baluchistão, disse que as circunstâncias das mortes tornaram a perda particularmente dolorosa.
— O custo humano é devastador. Eram civis balúchis reunidos para um casamento, e perder suas vidas no meio do que deveria ter sido uma ocasião alegre é de partir o coração — disse ele. — Suas famílias agora enfrentam uma dor inimaginável, enquanto os feridos têm que conviver com as consequências físicas e emocionais.