Contrato, intervenção junto à PF, viagem de filho: entenda como novas revelações ligam Moraes e Gonet a Vorcaro
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Relatório foi tornado público nesta terça-feira por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF
02/09/2026 03h30 Atualizado 02/09/2026 03h30
Relatório da Polícia Federal mostra que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, enviou pelo menos 28 mensagens ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), às vésperas de sua primeira prisão, no ano passado. Segundo dados extraídos do celular do banqueiro, ele pediu a Moraes orientações e que intercedesse junto aos investigadores, e chegou a consultá-lo se devia deixar o Brasil. O relatório foi tornado público nesta terça-feira por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF.
As mensagens mostram indícios de que houve encontros presenciais entre Vorcaro e Moraes naqueles dias. A série de mensagens instaurou um clima de tensão no STF, com direito a discussão entre ministros e pressões às vésperas da derrubada de sigilo por Mendonça.
Em 15 de novembro do ano passado, dois dias antes de ser preso, Vorcaro pergunta a Moraes se não é possível reverter o avanço das investigações contra ele junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. E questiona as posições do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do juiz de primeira instância do Distrito Federal Ricardo Soares Leite, que acabaria assinando o mandado de prisão contra ele. Na ocasião, queria saber se tinha que deixar o país. “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?”, diz ele, e completa: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”.
Gratidão ao ministro
Um dia antes, Vorcaro destaca sua gratidão a Moraes. “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nos tem uma dívida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser”, diz em mensagem extraída pela PF.
Em um período de 13 dias, Vorcaro fez apelos para “sensibilizar” autoridades e perguntou sobre como deveria proceder para “desarmar” e “reverter” a situação. As informações foram antecipadas pelo jornal O Estado de S. Paulo.
O relatório da PF, de 218 páginas, mostra que Vorcaro pediu ajuda a Moraes para intervir junto ao diretor-geral da PF e a Gonet. Ainda de acordo com as mensagens, Gonet teria manifestado o desejo, em março de 2025, de fazer degustação de charutos e uísque em Londres ao confirmar presença em evento jurídico patrocinado pelo Master, que acabou cancelado. Vorcaro ainda bancaria a viagem do filho de Gonet.
Antes de derrubar o sigilo do relatório da PF, Mendonça pediu manifestação da PGR sobre a possibilidade de abertura de investigação sobre o caso. Na noite de ontem, Gonet defendeu que o relatório é nulo.
Mendonça deve liberar na próxima semana ao presidente do STF, Edson Fachin, o relatório da PF. Caberá a Fachin decidir quando levará o caso ao plenário. Mendonça afirmou, em despacho, que pretende que a análise seja feita em sessão presencial, pública e transparente.
Conforme o relatório da PF, Vorcaro enviou, em 17 de novembro de 2025, mensagem a Moraes perguntando se havia “alguma novidade”. “Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Ele foi preso horas depois no Aeroporto de Guarulhos durante a Operação Compliance Zero. Os agentes o interceptaram quando se preparava para embarcar em um jato particular para Dubai.
Segundo as apurações, Vorcaro escrevia em um bloco de notas, fazia o print e o enviava a Moraes em captura de tela de visualização única.
Na véspera da prisão, a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes foi intensa. O banqueiro pediu que Moraes tentasse “sensibilizar” o diretor-geral da PF. “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, diz ele.
Na ocasião, Vorcaro aparenta ter informações privilegiadas sobre as apurações. O banqueiro tentava ganhar tempo para conseguir vender os ativos do Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira com fundos dos Emirados Árabes. O negócio não prosperou.
Ainda no dia 16, Vorcaro pede a “leitura” de Moraes sobre a situação que o Master estava enfrentando. “Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual a sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei da pra segurar”, diz o texto.
Vorcaro também pediu ajuda para marcar encontro com Galípolo. O banqueiro tinha receio de que o Master fosse liquidado extrajudicialmente pelo BC, o que aconteceu dois dias depois. A medida tirou o banco das mãos de Vorcaro e causou um rombo bilionário ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
“E o Galipolo quem esta pressionando isso pra fazer intervenção?”, diz Vorcaro, que acrescenta: “Tentar que o galipolo me receba e eu apresente o que vamos protocolar essa semana. Vamos resolver tudo. Não podem estourar uma bomba atômica na hora da solução, não faz sentido pra ninguém. Nem pra ele, nem pro governo, pra economia e nem para o Brasil”.
Contrato editado
Metadados do arquivo do contrato do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, enviado por WhatsApp a Vorcaro, mostram que o documento foi editado por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
Viviane afirmou que o marido foi consultado sobre o contrato, que previa o pagamento de R$ 131 milhões em três anos. Em nota, disse que “solicitou informações” por meio da área de compliance do seu escritório a Moraes sobre “eventuais impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual”.