'Juntos para sempre': da 'blusinha' à 6x1, entenda o acordo entre Lula, Motta e Alcolumbre para avançar pauta eleitoral
Exclusivo para assinantes
Políticos demonstraram alinhamento e prometeram aprovar parte de um conjunto de iniciativas consideradas vitrines para o petista, que disputa a reeleição
27/08/2026 03h30 Atualizado 27/08/2026 03h30
Após encontro realizado na quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os chefes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciaram um acordo para avançar com projetos de interesse do Palácio do Planalto. Juntos, os três políticos demonstraram alinhamento e prometeram aprovar parte de um conjunto de iniciativas consideradas vitrines para o petista, que disputa a reeleição. A ideia é deliberar sobre esses temas já na próxima semana, no último esforço concentrado do Congresso antes do pleito.
- Renan Santos na TV Globo: Como o candidato se saiu na entrevista? Veja as notas e avaliações dos colunistas do GLOBO
- Entenda: Aliança entre PSB e PT leva disputa pelo governo de Rondônia à Justiça Eleitoral
Governistas apostam na sintonia entre os dois Poderes para sair das cordas em meio as revelações sobre a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, primogênito do presidente. Ele é investigado pela Polícia Federal (PF) por supostamente usar acesso privilegiado ao governo e tentar fechar contratos com a administração pública.
Andamentos definidos
Depois da reunião, Lula, Motta e Alcolumbre indicaram que a proposta que terá andamento mais rápido será a medida provisória (MP) que trata do fim da chamada “taxa das blusinhas”, que deve ser votada na próxima semana.
Já os textos do fim da escala 6x1 e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança serão analisados na Comissão e Constituição e Justiça (CCJ) do Senado também na semana que vem, embora não haja garantia de votação no plenário.
Antes de os três posarem para a foto juntos, Lula deu o tom da nova fase do relacionamento, que passou por momentos de turbulência nos últimos anos.
— Poderia dizer juntos para sempre — disse o petista.
Segundo o presidente do Senado, a comissão mista que trata do fim da taxa das blusinhas será instalada na terça-feira. Governistas alertavam para o risco de a MP perder a validade — ou “caducar”, no jargão legislativo, já que esse prazo se encerra no próximo dia 8.
— (A MP) precisa ser deliberada na comissão, no plenário da Câmara e do Senado. Eu faço o compromisso com o senhor e com o Brasil e brasileiros que precisam dessa matéria em vigência, que na semana que vem, no tempo curto de esforço concentrado, no meio do processo eleitoral, vamos deliberar para o senhor sancionar essa lei — disse Alcolumbre, ao lado de Lula e Motta: — Essa MP não vai caducar.
A maior parte da agenda travada do governo está no Senado. Mas Motta também será importante para o avança do fim da taxa das blusinhas. Isso porque o tema será analisado por uma comissão mista, de deputados e senadores, e depois encaminhado ao plenário das duas Casas.
Motta afirmou que a presidência da comissão será indicada pela Câmara e a relatoria, pelo Senado. Inicialmente, a previsão era que a instalação do colegiado tivesse ocorrido no começo do mês, mas não houve acordo justamente na escolha de quem ocuparia cada um desses postos-chave.
Adversários políticos de Lula falavam em deixar a medida perder a validade para impor uma derrota ao petista às vésperas do primeiro turno das eleições. A taxa das blusinhas dividiu o governo e depois foi revertida diante da avaliação que ela gerava prejuízos eleitorais a Lula.
— A finalidade é aproveitarmos a janela do esforço concentrado da próxima semana para votarmos no plenário da Câmara e em seguida no Senado — disse Motta.
Já em relação à PEC do fim da escala 6x1, aprovada pela Câmara e também parada no Senado, houve indicação de novo impulso com a promessa de deliberação pela CCJ. Segundo governistas e o relator da matéria, Omar Aziz (PSD-AM), o plenário deve analisar o texto logo após o colegiado.
— Alguém acha que a gente não tem voz para gritar lá e pedir para votar (em plenário)? Quero ver (alguém) dizer não; é se suicidar. Aquele que é candidato se suicida e aquele que apoia alguém. O cara vai fugir dele como o diabo foge da cruz, com medo. Quem vai ser contra isso? Todos os trabalhadores brasileiros estão esperando isso — disse Aziz.
O texto reduz de 44 para 40 horas a jornada máxima semanal, sem corte de salário, e prevê dois dias de descanso remunerado por semana. A redução seria feita de forma gradual.
A PEC da Segurança Pública é outra proposta que Lula quer ver avançar. Apresentado pelo governo e já aprovado pela Câmara, o texto busca ampliar a integração entre União, estados e municípios no combate ao crime e estabelece novas regras para o enfrentamento de organizações criminosas.
Na quarta-feira, Alcolumbre disse que a medida é importante para o país, e Lula afirmou mais uma vez que criará o Ministério da Segurança Pública caso a proposta seja promulgada.
Lula marcou o encontro para impulsionar projetos que serão explorados na campanha à reeleição. Além dos temas relacionados à jornada de trabalho, segurança e tributos, há projetos relativos a soberania nacional. A proposta sobre minerais críticos, por exemplo, já passou pela Câmara e foi colocada por Alcolumbre entre as prioridades do Senado após a conversa com Lula.
O presidente do Senado citou a importância da iniciativa e afirmou que, apesar de já tramitar no Senado um projeto diferente sobre o mesmo tema, a tendência é que os senadores discutam o texto aprovado pela Câmara, uma vez que foi elaborado pelo governo federal.
Alcolumbre também disse que avançará no Senado, na próxima semana, o projeto de lei que estabelece o Redata, com estímulo à instalação de data centers no Brasil. A matéria foi aprovada na Câmara, e estava parada no Senado.
Interesses locais
Lula e Davi Alcolumbre ficaram afastados mais de três meses, sem dialogar, após o Senado rejeitar em abril a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, para uma vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF). As duas autoridades retomaram o contato no começo de agosto, tendo como pano de fundo a votação dessa agenda de interesse de Lula no Congresso, apoios eleitorais no Amapá e a disputa pela recondução de Alcolumbre à presidência do Senado, em 2027.
Motta, por sua vez, aproveitou o vácuo deixado pela falta de contato entre Lula e Alcolumbre e se aproximou do petista, depois de uma relação marcada por altos e baixos. O interesse de Motta é, além de ter apoio do PT e do governo à sua recondução à presidência da Câmara, conseguir eleger o pai, Nabor Wanderley (Republicanos-PB), a uma vaga ao Senado neste ano.