Entregador diz que deu quatro chutes em ciclista, pensou em ajudar, mas teve medo de segurança: ''parecia endemoniado'
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Entregador diz que deu quatro chutes em ciclista, pensou em ajudar, mas teve medo de segurança: ''parecia endemoniado'

Em depoimento, Felipe Eduardo dos Santos Silva afirmou que participou das agressões contra Cláudio Rafael Landeiro após acreditar que ele havia roubado uma bicicleta; entregador disse ter deixado o local ao perceber que segurança poderia matar a vítima

22/08/2026 12h05 Atualizado 22/08/2026 12h06

O entregador Felipe Eduardo dos Santos Silva, de 23 anos, afirmou à Polícia Civil que pensou em ajudar o ciclista Cláudio Rafael Landeiro durante o espancamento em Copacabana, mas desistiu porque o segurança que aplicava golpes contra a vítima parecia “endemoniado”. Felipe foi um dos quatro homens indiciados pela morte do ciclista de 37 anos, que foi espancado após ser confundido com um ladrão de bicicletas. O veículo, no entanto, pertencia à irmã da vítima. Segundo a Polícia Civil, as agressões duraram quase nove minutos. Felipe, no entanto, admitiu ter participado das agressões: segundo seu depoimento, ele segurou Cláudio para impedir que fugisse, ajudou a derrubá-lo e deu quatro chutes em suas costas. Felipe também declarou que revistou os bolsos de Cláudio, encontrou uma carteira e a jogou fora depois de deixar o local.

Felipe, o segurança Davi Santos Machado, o outro segurança Jorge Luiz Ricardo Dias e o entregador Ailton José da Silva foram indiciados por homicídio triplamente qualificado, por meio cruel, motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima. A investigação também busca identificar outras pessoas que possam ter participado das agressões.

Segundo o depoimento, Felipe decidiu se apresentar à polícia depois de saber, no dia 21, que havia sido expedido um mandado de prisão contra ele. Ele se entregou aos agentes da 12ª DP, na Tijuca, acompanhado da advogada.

Versão do entregador

Na versão apresentada por Felipe, ele trabalhava como entregador por aplicativo de comida em Copacabana na noite de 11 de agosto. Pouco antes da meia-noite, aguardava uma nova entrega na Rua Viveiros de Castro, junto com outros dois entregadores, quando um quarto homem, também entregador e de bicicleta, apareceu dizendo que um segurança de lojas estava tentando pegar um “ladrão de bicicleta” na Rua Barata Ribeiro.

Felipe afirmou que ele e outro entregador seguiram até o local sem nem mesmo descer das bicicletas, com a intenção, segundo ele, de recuperar o veículo supostamente roubado.

Na Rua Barata Ribeiro, na altura da Rua Belford Roxo, eles encontraram um segurança que caminhava empunhando um taco de madeira. De acordo com Felipe, o homem afirmou:

“O cara estava roubando bicicleta. Foi na direção da Princesa Isabel", diz o relato feito à polícia.

Felipe disse que, naquele momento, não ficou claro a quem pertencia a bicicleta supostamente roubada. Mesmo assim, ele e o outro entregador seguiram na direção indicada. Na Rua Felipe de Oliveira, encontraram Cláudio caminhando pela calçada. Felipe afirmou que perguntou onde estava a bicicleta e por que ele a teria roubado. Segundo o entregador, Cláudio não respondeu e caminhou alguns metros antes de se sentar nos degraus da entrada de um edifício.

Felipe disse que continuou fazendo perguntas e que Cláudio permaneceu em silêncio. O entregador afirmou que mandou a vítima ir embora, mas que ela continuou sentada. De acordo com Felipe, embora não dissesse nada, Cláudio parecia nervoso. O entregador afirmou acreditar que a vítima já havia sido agredida momentos antes pelo segurança e conseguido fugir.

Foi nesse momento que Felipe afirmou ter feito um vídeo de Cláudio. Segundo o depoimento, esta foi a única gravação produzida por ele durante toda a ocorrência. No vídeo, de acordo com Felipe, ele diz:

“Aí, tropa, atividade, hein! Oh! Marreco aí, oh! Oh!”.

O outro entregador, ainda segundo o relato, é ouvido dizendo:

“Ladrão aí, oh! Pegar, amassa! Aí, ele aí".

No fim da gravação, o segurança aparece e confirma que Cláudio seria a pessoa procurada. Felipe atribui ao homem a frase: “Aí, é ele mesmo!”.

Agressões

Agressões

Segundo a versão do entregador, depois de confirmar a identidade de Cláudio, o segurança deu o primeiro golpe. A vítima tentou correr. Felipe admite, então, que segurou Cláudio para impedir que ele fugisse e passou a atuar para derrubá-lo no chão. Segundo ele, depois que conseguiram colocar a vítima no solo, desferiu quatro chutes seguidos, todos nas costas.

O entregador insistiu que nenhum dos golpes atingiu a cabeça de Cláudio.

Felipe disse que, depois dos chutes, passou a procurar objetos nos bolsos da vítima. Segundo ele, encontrou apenas uma carteira, que continha “uns papéis velhos”. O entregador afirmou que levou a carteira e a descartou depois de sair do local.

Segurança parecia 'endemoniado'

Felipe afirma que deixou o local porque passou a temer que o segurança acabasse matando Cláudio. Segundo ele, o homem desferia diversos golpes de taco de madeira contra a cabeça da vítima e parecia estar “endemoniado”. O entregador afirmou que chegou a pensar em ajudar Cláudio, mas teve medo de intervir fisicamente porque o segurança estaria transtornado. Ao deixar o local, segundo ele, ainda viu o segurança usando o telefone para acionar a polícia.

Felipe afirmou que, depois de ir embora, voltou a trabalhar normalmente e permaneceu fazendo entregas até cerca das 3h. Disse ter realizado pelo menos mais três entregas naquela madrugada.

A versão de Felipe é que não teve intenção de matar Cláudio nem de segurá-lo para que outras pessoas aplicassem golpes mortais. Segundo ele, segurou a vítima apenas para impedir que ela fugisse porque acreditava na informação fornecida pelo segurança de que se tratava de um ladrão.

Felipe afirmou que já teve uma bicicleta furtada anteriormente e que, por isso, foi levado a acreditar no relato do segurança.

'No calor da emoção'

Durante o depoimento, o entregador Felipe disse que "no calor da emoção", acreditou ter certeza de que Cláudio era um ladrão. Felipe declarou que, depois de participar da agressão, percebeu que a situação havia “fugido do controle”. Disse que os golpes desferidos pelo segurança eram muito fortes e atingiam principalmente a cabeça de Cláudio.

O laudo de necropsia do Instituto Médico-Legal concluiu que Cláudio morreu em decorrência de hemorragia interna, traumatismo cranioencefálico e lesões no baço e no rim esquerdo provocadas por ação contundente. O exame identificou, entre outras lesões, fraturas no crânio, hemorragias cerebrais e lacerações no baço.

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