O ano mal começou (por Mirian Guaraciaba)
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O ano mal começou (por Mirian Guaraciaba)

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STM julga Bolsonaro, assassinatos nos EUA, sequestro de Maduro, Trump envolvido em mensagens repugnantes de Epstein, e o mundo sob a ameaça do ditador americano. Rolo do Master. Eleições no Brasil.

Nessa terça, o Ministério Público Militar enviou ao Superior Tribunal Militar pedido de expulsão das Forças Armadas de Bolsonaro e outros cinco militares de alta patente. Mais um capítulo da tentativa frustrada de golpe de estado, em 2022/23.

As sanções imputadas pelo STF não serão revistas. Podem ser acrescidas: condenados a penas consideráveis, os réus estão sujeitos a perder postos, patentes, e soldos, se o STM considerá-los indignos para a carreira militar. Será mais uma lição exemplar para a história.

A esta altura, o ex-presidente já nem conta mais com apoios que jurava eternos. Donald Trump tem problemas mais graves para administrar. Nos últimos dias, mais de 300 manifestações populares tomaram conta de dezenas de cidades norte-americanas, e pelo mundo, contra a violência das milícias de Trump. Uma dona de casa e um enfermeiro, cidadãos americanos, foram assassinados pela força policial anti-imigração dos EUA.

Trump vem acumulando críticas entre seus eleitores. Pesquisa Reuters/Ipsos, de 26 de janeiro, mostra que a repressão aos imigrantes “foi longe demais” para 58% dos americanos. Apenas 39% aprovam seu combate à imigração, o que significa queda em relação aos 41% registrados em dezembro. Mais da metade de seu eleitorado considera que seu primeiro ano de governo foi um fracasso.

Denúncias envolvendo Trump e o pedófilo Jefrey Epstein, “suicidado” na prisão em 2019, ecoam não só entre Democratas. Republicanos tem repudiado publicamente as histórias reveladas. Na última acusação contra Trump no caso Epstein consta o estupro de duas meninas, uma de 12 e outra de 14 anos. A garotinha foi assassinada algum tempo depois.

O que mais assusta é a aparente anestesia do povo americano. Embrutecimento da sociedade. Não é do nosso cotidiano conviver com um presidente acusado de pedofilia. No Brasil, pedofilia é crime hediondo, lei sancionada pela Presidente Dilma, em 2014. Nos Estados Unidos, na maioria dos estados, pedofilia tem penas rigorosas. Nove estados aplicam a castração química.

Trump segue livre, ameaçando o mundo, declarando guerra ao Irã, onde já morreram mais de 500 ativistas, à Groenlândia, à América Latina. Em janeiro, mandou sequestrar o presidente da Venezuela, e sua esposa, ferindo todas as normas do direito internacional. Não foi um ato isolado. Trump se considera dono do mundo. “Esse é o nosso hemisfério”, disse após a prisão midiática de Maduro.

Ontem, Trump decretou emergência contra Cuba, asfixiando ainda mais o país que luta contra o bloqueio americano desde 1960. A perseguição americana a Cuba é doentia, com Trump atinge outro nível de maldade.

Lula não terá um ano fácil. Eleições em outubro mexem todos os tabuleiros. A oposição arma ciladas, dissemina mentiras, tenta enfraquecer o candidato que, hoje, está em primeiro lugar nas pesquisas de opinião. Governo Lula tem sido bem avaliado, preparando terreno para um possível quarto mandato.

Não será sem surpresas. Afora a oposição esfaimada – e quase sempre inconsequente, um imbróglio em particular pode ameaçar a paz de muitos personagens nesse ano eleitoral: Banco Master. Mega escândalo que intimida figuras importantes da cena política, começou assombrando Ibaneis Rocha. Haverá outros nomes de Brasilia, de governos estaduais, da Faria Lima. Muita pedra para rolar. Depoimento de Daniel Vorcaro na CPI do INSS foi agendado para depois do carnaval.

Isso tudo obrigará Lula a usar toda sua sensatez política, em 2026. Não há céu de brigadeiro. Qualquer solavanco poderá tumultuar o processo de reeleição. A suspeição que pesa contra políticos e alguns ministros do STF no caso Master torna a sociedade vulnerável. Depositamos no Supremo Tribunal Federal nossa esperança de fortalecimento da democracia. E assim foi feito: os que atentaram contra o estado de direito estão atrás das grades. Nesse momento, o STF precisa cuidar do seu próprio umbigo.

Viva o cinema brasileiro – Pelo segundo ano consecutivo, o cinema brasileiro desfilará pelo tapete vermelho do Teatro Dolby, em Los Angeles. Em 2025, Walter Salles levou o Oscar de Melhor Filme Internacional, pelo “Ainda estou aqui”. Em 2026, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça e Wagner Moura, que já coleciona 56 troféus em 36 premiações pelo Brasil e pelo mundo, também poderá ganhar a estatueta do Oscar. São quatro indicações. Algumas, ou todas, vamos levar.

Viva a Lei Rouanet – Depois de quatro anos de negacionismo cultural, o Brasil está, de novo, desde janeiro de 2023, comprometido com a cultura, apoiando obras de todos os setores, e fazendo brilhar o cinema brasileiro. Mas, como diria Wagner Moura, “não dá para explicar a Lei Rouanet para quem não assimilou a Lei Aurea”.

Mirian Guaraciaba é jornalista