Abgail teve muito mais sorte que o Orelha, o cão comunitário cruelmente espancado e que uniu o Brasil na mesma indignação
atualizado
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Foi depois de um chuvaréu no final do ano passado que ela apareceu e se enroscou na calçada. Alguns dizem que o velho tutor morreu e ela saiu a esmo procurando um canto pra se consolar.
Deram-lhe o nome de Abgail (foto em destaque), mas há quem a chame de Princesa. É uma vira-lata de pelo em tons de cinza e caramelo. É robusta, como quem nunca passou fome ou se passou faz tempo. O rabo curto já quase não balança. Tem o olhar baixo e choroso, como quem pede carinho. E anda vagarosamente, como quem já sente o peso da idade.
Abgail é a cadela comunitária da minha quebrada. Em menos de dois meses, já tomou posse das calçadas: vai da loja de material de construção para o mercadinho, dele para a padaria, daí para a papelaria, depois pra loja de bolo, salta um degrau e chega na barbearia e finalmente alcança a outra esquina, a de outra loja de material de construção e de uma elétrica. É uma calçada caótica, desnivelada, como boa parte das calçadas de Brasília, onde todos se conhecem e todos conhecem a Abgail.
Logo cedo ela vai pra porta da padaria, mas, segundo dizem, não gosta de qualquer coisa. Pão, de jeito nenhum. Quando o sol esquenta, entra na loja de material de construção – a maior das duas, com três corredores largos, e dorme perto das latas de tinta. Não lhe falta o de comer: já tem quem lhe dê ração diariamente. Contam que ela já foi levada ao veterinário e ao banho e tosa.
Abgail teve muito mais sorte que o Orelha, o cão comunitário cruelmente espancado e que uniu o Brasil na mesma indignação. Abgail teve mais sorte, é até mais sortuda que Baleia, a personagem literária canina mais importante do Brasil. A Baleia de Graciliano Ramos tinha “costelas à mostra”, passava muita fome, tal qual sua família humana, Fabiano, sinhá Vitória e os dois filhos. No começo de Vidas Secas, tinha um papagaio acabou transformado em comida pela fome extrema da família flagelada.
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Baleia é a personagem mais importante entre os viventes do romance de Graciliano. É a caçadora que traz entre os dentes a carne fresca dos poucos bichos miúdos que ainda vagavam pelo sertão de juazeiros, mandacarus e xiquexiques. Baleia é o movimento e afeto para os quais pai, mãe e os dois filhos convergem. É ela quem não os faz perder a humanidade. Apesar de ser de outra espécie, e talvez por isso mesmo, ela consegue reacender o humano naqueles que estão bem perto da desumanização, tão extremas as condições de vida.
Os dois filhos de Fabiano e sinhá Vitória não têm nomes, é o Filho Mais Novo e o Filho Mais Velho. Baleia é a única pequena nominada. Naquela família de poucas palavras, Baleia é quem mais expressa sentimentos, é um termômetro dos acontecimentos daquela vida de meu Deus.
Quando um dos meninos leva um cascudo da mãe, e chorando vai se esconder à sombra das catingueiras, Baleia salta em torno dele, balançando a cauda, tentando minorar a mágoa do garoto. “Todos os abandonavam, a cadelinha era o único ser vivente que lhe mostrava simpatia”.
Tão extremo é o viver que os personagens humanos de Vidas Secas quase não conversam entre si, é Baleia quem lhes devolve a palavra em modo canino. Como nesse trecho: “O pequeno [o filho mais novo] sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morreu no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender”.
Nessas condições desumanas de vida, é Baleia quem os traz de volta a consciência de que estar vivo pode não ser tão ruim – ela está o tempo todo expressando sentimentos, prenunciando perigos que os humanos não conseguem perceber, fugindo da irritação e dos chutes dos humanos, balançando o rabo por qualquer pequena alegria, latindo pra qualquer passarinho.
Ela é quase a narradora do romance: “O dia todo espiava os movimentos das pessoas, tentando adivinhar coisas incompreensíveis. Agora precisava dormir, livrar-se das pulgas e daquela vigilância a que a tinham habituado. Varrido o chão com vassourinha, escorregaria entre as pedras, enroscar-se-ia, adormeceria no calor, sentindo o cheiro das cabras molhadas e ouvindo rumores desconhecidos, o tique-taque das pingueiras, a cantiga dos sapos, o sopro do rio cheio. Bichos miúdos e sem dono iriam visitá-la”.
Baleia, Abgail, Orelha, até nos nomes são vira-latas muito brasileiros, três vira-latas que vivo, morto ou personagem literário tentam nos salvar de nossa própria desumanidade. Precisamos demais deles, agora mais do que nunca.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
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