As advertências a povos insensatos, que destroem suas florestas e mergulham na desgraça, partiram de vozes qualificadas. Mas elas se perderam no deserto, porque a surdez ecológica impede se vislumbrem as consequências da devastação.
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Em pleno 1812, José Bonifácio de Andrada e Silva, o santista que conquistou Portugal e toda a Europa com sua erudição e incessante estudo, alertou a Metrópole sobre o perigo de extinguir suas florestas.
No afã de evidenciar os proveitos do reflorestamento, salientava que eles são de dúplice ordem: naturais e cósmicos, ou políticos. “Os naturais são o melhoramento total do terrão e clima atual de Portugal, que tem progressivamente piorado. Todos os que conhecem por estudo a grande influência dos bosques e arvoredos na Economia Geral da Natureza, sabem que os países que perderam suas matas, estão quase todos estéreis e sem gente. Assim sucedeu à Síria, Fenícia, Palestina, Chipre e outras terras e vai sucedendo ao nosso Portugal”.
Quando se elimina a cobertura vegetal, o que surge em seu lugar: “Areais imensos, pauis e brejos cobrem sua superfície. Que lástima não é, que um tão belo país, por desmazelo emperrado de muitos de seus filhos, se vá reduzindo a um esqueleto de charnecas descarnadas, e de cabeços escalvados, quando, pela temperatura do seu clima e pelas desigualdades de sua superfície, podia ter quase todas as árvores próprias dos climas, tanto quentes, como frios, do nosso Globo?”.
José Bonifácio já sabia sensibilizar os políticos lusos invocando o interesse econômico na restauração das áreas degradadas. No linguajar de dois séculos, procurava motivá-los a encararem o reflorestamento com a importância que ele teria para incrementar a vida financeira da metrópole: “Quais outras produções da Mãe Natureza devem merecer maior atenção ao filósofo e ao estadista, do que as matas e arvoredos? Árvores, lenhas, madeiras: estas sós palavras, bem meditadas e entendidas, bastam para despertar a nossa estudiosa atenção e para interessar vivamente a nossa sensibilidade”.
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Veja-se que muito antes do advento da urgência ecológica, o Patriarca da Independência já fazia referência à “Mãe Natureza”, ideia que o dendroclasta sequer tem alcance para assimilar. Sua postura ecoava o que já afirmara, nos séculos 12 e 13, aquele jovem que faleceu aos 44 anos, mas foi considerado o “Homem do Milênio”, Francisco de Assis. Que chamava de irmã a Terra, a natureza, a lua e de irmão o sol, o céu e o mar.
O “Pai” de nossa libertação do jugo português faz sentir aos contemporâneos que ninguém é o autor das matas, das florestas, dos bosques. Eles são dons da Providência, que ele chama de Divindade. “...eram então imensas as matas: mas com o andar dos séculos esses ricos tesouros com que nos tinha dotado a mão liberal da Natureza foram diminuindo e acabando pelo aumento da povoação e agricultura. E muito mais pela indolência, egoísmo e luxo desenfreado de precisões fictícias, que destruíam em um dia a obra de muitos séculos”.
É o que ocorre ainda hoje. A motosserra destrói em minutos aquilo que a Natureza levou séculos para entregar para a nossa fruição. Quem é que sabe “fazer” uma árvore? Quanto tempo se leva nessa empreitada? Entretanto, o som maldito da motosserra ou, pior ainda, o uso perverso das correntes puxadas por dois tratores, constituem o testemunho mais explícito do retrocesso ético da humanidade.
Como foi que o ser humano, o único a se considerar racional e primícia dentre as demais criaturas, foi se pervertendo a ponto de hostilizar a árvore, sua melhor amiga? Será que ele não percebe o que significa viver numa área árida, desprovida de árvores? Não sente a diferença de temperatura, não tem ideia de que as ondas de calor matam mais do que as ondas de frio?
Só uma feroz ignorância permite à humanidade menosprezar a árvore, não cuidar dela, não plantá-la onde ainda existe espaço, não reconhecer os serviços ecossistêmicos que ela nos presta? Isso era claro na visão privilegiada de José Bonifácio de Andrada e Silva. Lamentável que ele hoje não seja lido, cultuado e seguido como mereceria o fosse.
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