Ministro da Fazenda conversa com jornalistas do Estadão e Broadcast; assista à íntegra. Crédito: Isabella Almada/Estadão
Martin Ravallion dizia que a economia é essencialmente o estudo da pobreza.
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Poderíamos extrapolar para concluir que a política econômica é essencialmente a política de combate à pobreza. Nessa lógica, o ministro da Fazenda que sai, Fernando Haddad, é nosso melhor ministro da Fazenda em décadas.
Ravallion foi influente na consolidação das linhas de pobreza do Banco Mundial.
Vamos usá-las para comparar o desempenho de diferentes ministros. No período que coincide com Haddad no ministério, a taxa de pobreza terá caído 30% e a taxa de extrema pobreza 50%.
São nossos melhores números desde os anos 80, início da série. Aqui consideramos a média anual de redução da pobreza, já que neste exercício estamos comparando ministros que ficaram por durações diferentes no cargo. Especificamente para a extrema pobreza, o período Haddad teve desempenho duas vezes melhor que o do segundo colocado: o período Palocci. Depois deles, o melhor ministro foi Guedes.
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As limitações da provocação são óbvias. O desempenho de um ministro depende muito da herança deixada a ele e da conjuntura internacional. Mas um olhar benevolente daria mérito a Haddad por conseguir colocar dentro de alguma regra fiscal o aumento das transferências de renda, e tomando espaço de outras despesas.
O governo Lula III manteve duas estruturas que permitiram maior espaço para gastos com os mais pobres nos últimos anos: i) a reforma da Previdência; ii) a reforma administrativa “invisível”. Falo da compressão do gasto com funcionalismo, que em 2024 chegou ao mínimo de 3,1% do PIB e em 2025 ficou em 3,2%.
Fizemos uma revolução antirracista no orçamento público: a taxa de extrema pobreza entre negros já alcançou a taxa que existia entre brancos antes da pandemia.
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O período Haddad entregou a reforma tributária do Bernard Appy e a isenção do IR. O governo foi pragmático em pautas que eram sensíveis à esquerda: o acordo com a UE, a reforma trabalhista dos apps (com livre negociação e sem vínculo CLT!), o novo licenciamento ambiental, as privatizações em infra, o Pé de Meia, limites para o salário mínimo. Foram mantidas a reforma trabalhista do Temer e a autonomia do Bacen.
Há, claro, os juros altos e a necessidade de um novo arcabouço fiscal em 2027, herança que vai afetar o desempenho de seu sucessor em análises como essa. Não é um detalhe. Os ganhos do período Haddad são sustentáveis? Ou os juros vão logo machucar o mercado de trabalho? Haverá espaço no fiscal para preservar o Bolsa Família? O gasto cresceu: nosso desafio será conservar a parte que está dando certo.
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