Uma sociedade violenta forma adolescentes violentos
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Uma sociedade violenta forma adolescentes violentos

Entre mídia sensacionalista, redes sociais e exposição ilegal de menores, cresce uma cultura de punição sem reflexão

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Entender não é justificar, proteger não é passar pano e pensar não é relativizar o sofrimento de ninguém. Mas punir sem compreender apenas reproduz a violência que dizemos combater.

Não tem mistério. Uma sociedade mergulhada na violência cotidiana não tem como não gerar adolescentes tão violentos quanto as atrocidades que adultos cometem. Diariamente, manchetes de jornais, portais de notícias e redes sociais exibem cenas de agressão, linchamentos, brigas de trânsito, ataques verbais e físicos. O aviso de "cuidado, cenas sensíveis" tornou-se rotina. O que antes causaria espanto hoje é consumido com naturalidade. A violência deixou de ser exceção e passou a ser paisagem.

Não costumo escrever sobre casos específicos que estão no centro da polêmica midiática. Há algo de profundamente problemático nesse lugar: ele costuma substituir reflexão por julgamento, análise por espetáculo, ética por engajamento. Mas o caso do cachorro Orelha tornou impossível o silêncio. Não pelo choque isolado do fato, mas porque ele expôs, de forma brutal, a engrenagem social que estamos alimentando -- e da qual participamos ativamente.

Este artigo não se preza a condenar ou não os meninos que praticaram a violência contra o cão Orelha. Não trabalho em nenhum órgão da Justiça, não sou promotora da Infância e Adolescência e nem delegada para acompanhar os fatos e as investigações do caso. Sou educadora e meu recorte é por essa lente. E tenho, assim como você leitor, as informações que estão na imprensa e na mídia. Informações estas cobertas por ódio, violência e "achismo". Afinal, quem é que não tem uma opinião para dar, não é? A necessidade contemporânea de julgar tudo e todos por uma tela. Que vergonha nos tornamos.

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Este texto não é um tribunal. Não é um manifesto para condenar quatro adolescentes, tampouco uma tentativa de absolvê-los. É uma tentativa de compreensão. E é preciso dizer isso de forma inequívoca: entender não é justificar. Mas também é verdade que punir sem compreender é apenas repetir a violência que dizemos combater.

Desde que o caso veio a público, assistimos ao roteiro já conhecido. Imagens repetidas à exaustão, vídeos recortados fora de contexto, manchetes apelativas, comentários exigindo punição imediata. Em paralelo, uma segunda violência se instala: o linchamento virtual de adolescentes. Rostos, nomes e histórias circulam livremente, ignorando o Estatuto da Criança e do Adolescente que existe justamente para proteger menores de idade da exposição pública e da condenação social sumária.

O ECA, Estatuto da Criança e Adolescente, não é um detalhe jurídico nem um obstáculo à justiça. Ele é um marco civilizatório. Reconhece que adolescentes estão em processo de desenvolvimento psíquico, emocional e neurológico e que os expor ao ódio coletivo não educa, não repara e não previne. Proteger não é passar pano. Preservar identidade não significa negar investigação ou responsabilização. Significa afirmar que a sociedade adulta tem deveres éticos que não podem ser suspensos pela fúria do momento.

O que torna esse caso ainda mais revelador é o contexto em que ele acontece. Vivemos em uma sociedade que responde a frustrações cotidianas com agressão. Adultos brigam no trânsito por fechadas banais. Discussões em filas, escolas, condomínios e redes sociais escalam rapidamente para violência verbal e física. Tudo é filmado, compartilhado, comentado. O algoritmo recompensa o conflito. O ódio gera engajamento. A agressividade vira linguagem corrente.

Essa lógica também se expressa no entretenimento. Programas de grande audiência, como o Big Brother Brasil, tornaram explícita a demanda social por brigas, humilhações e confrontos. Quando não há conflito, o público reclama: "está chato". Pessoas sendo xingadas, desestabilizadas emocionalmente ou expostas em situações-limite são consumidas como diversão. A violência simbólica -- verbal, psicológica, moral -- é normalizada como espetáculo.

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Essa cultura não surge do nada. Ela se retroalimenta. Crianças e adolescentes crescem imersos em um ambiente onde o conflito gera atenção, a agressividade gera visibilidade e a exposição gera recompensa. Não se trata apenas do que se vê, mas do que se aprende sobre como lidar com raiva, frustração e limites.

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A neurociência ajuda a entender por que esse cenário é especialmente delicado quando falamos de adolescentes. O cérebro adolescente ainda está em formação, sobretudo nas áreas responsáveis por controle de impulsos, empatia e tomada de decisão. Ao mesmo tempo, o sistema emocional é altamente sensível a estímulos intensos. A exposição constante a cenas de violência -- reais ou simbólicas -- provoca um processo de dessensibilização. O choque diminui, a empatia se embota, o cérebro se anestesia.

Isso não significa que adolescentes não saibam distinguir certo e errado, mas significa que o ambiente molda profundamente o repertório emocional e comportamental disponível. Um cérebro em desenvolvimento, exposto diariamente à violência como linguagem social, tende a reagir mais e refletir menos. A violência deixa de ser percebida como ruptura e passa a ser assimilada como possibilidade.

É fundamental afirmar: pensar não é relativizar o sofrimento do animal. O sofrimento existe, é real e exige resposta. Mas respostas que se limitam à exposição pública, à humilhação e à punição imediata não interrompem o ciclo da violência -- apenas o reproduzem em outra chave.

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O caso do cachorro Orelha nos convoca a algo mais difícil do que punir: pensar. Pensar que tipo de sociedade estamos construindo quando transformamos violência em entretenimento, indignação em engajamento e ódio em resposta padrão. Pensar que adultos estamos sendo enquanto exigimos civilidade de jovens formados em um ambiente agressivo, exposto e punitivo.

Punir pode aliviar momentaneamente a sensação de injustiça. Mas sem compreensão, sem responsabilidade coletiva e sem revisão profunda da cultura de violência que produzimos e consumimos diariamente, a punição se torna apenas mais um capítulo da mesma história. E talvez a maior violência seja justamente essa: insistir em não compreender.