Opinião | Há futuro para as divas do rebolado? Por ora, carreiras passeiam pelo grotesco mundo dos escândalos
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Opinião | Há futuro para as divas do rebolado? Por ora, carreiras passeiam pelo grotesco mundo dos escândalos

Quatro anos atrás, acompanhei um evento no qual o encerramento se deu ao som de Chega de Saudade. A clássica canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes foi interpretada por Os Bossa Nova (coletivo formado por Roberto Menescal, João Donato, Marcos Valle e Carlos Lyra) e Leila Pinheiro. Foi quando Daniel Carlomagno, um dos diretores da Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes), entidade responsável pela festa, chamou a minha atenção para um fato importante. A canção, que estava sendo interpretada em uníssono pelo teatro inteiro, havia sido escrita 64 anos atrás. “O que será que estarão entoando daqui a seis décadas? Será que algum sucesso atual irá perdurar também?”, perguntou.

Aquele momento tão especial, que de tempos em tempos frequenta as rodas de conversa do público presente ao evento – ainda mais porque João Donato e Carlos Lyra nos deixaram em 2023 –, me vem à memória quando me deparo com os resmungos de uma popstar de plástico, que recentemente usou suas redes sociais para insultar aqueles que, segundo ela, tiveram o desplante de criticá-la. Em seu rosário de lamúrias, disse que ficaria de “cabeça para baixo” numa coreografia, embora estivesse no hospital porque não se sentia bem; que usa “looks caríssimos” e irá gastar uma quantia vultosa para cantar no Coachella, festival que, em seus melhores dias, foi termômetro do sucesso no showbiz americano.

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    O desafogo da cantora foi precedido pelos dengos de outra popstar do remelexo, que acusa as plataformas de streaming de boicote. Isso porque seu último single, BOTA, desapareceu de seu perfil. A música seria uma aposta para o carnaval de 2026. O estado democrático no qual vivemos permite que todo ser humano externe suas frustrações pelo meio que desejar – embora eu pense nos lamentos de operários da construção civil que, a exemplo da rebolativa diva pop, também ficam “de cabeça para baixo”. A minha questão, entretanto, é mais focada em critérios artísticos: quando foi a última (em alguns casos, até a primeira vez) que essas prima-donas do bamboleio foram notícia mais pelos seus méritos musicais do que pela capacidade de criar escândalos ou de virar notícia em sites de celebridades? Quando uma composição lançada por essas deusas do requebro mostram qualidades para durar senão seis décadas, mas pelo menos seis dias?

    Creio que todo mundo sabe a resposta. O desafio é tentar entender como chegamos a esse ponto. Comentei em colunas anteriores sobre como o mercado demanda por introduções curtas, que cheguem rapidamente aos refrãos. Estes, por sua vez, têm de ser entregues logo nos momentos iniciais para grudar no cerebelo do público, de preferência no batidão da moda – no caso, o trap, o funk eletrônico, o reggaeton e o pagodão baiano. E tome versos como “Vou te chupar/ Chupar o teu pescoço/ Te chupar todinho/ Chupar, chupar, chupar com gosto”, presentes em Vampirinha, de uma veterana do axé; ou “Bota, bota, bota, bota, bota, bota, bota, bota, bota, bota, bota, bota/ Pó botar tudão, com vontade, na minha ****”, verso principal de BOTA, o single supostamente boicotado de uma das musas do mexe mexe. Outra: “Vai sen/ vai sen/ Vai sentar gostoso na garupa do papai”, professa a moça que poderia estar no hospital, mas atuou como “mulher morcego” num festival no sul do país. A faixa se chama Motinha 2.0 (Mete Marcha).

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    Uma carreira artística requer mais do que projetos de samba e/ou bossa nova na busca por aprovação da crítica e de cardeais da MPB. Exige uma compilação de obras consistentes e interpretações nas quais o cantor saiba exatamente o significado do que a mensagem contida na letra quer dizer – e nos últimos tempos, as popstars do mexe mexe têm se perdido em desnecessários floreios vocais ou um canto suave sem alma. Quem se aventura por uma trajetória na música tem de enfrentar desafios maiores do que ficar de cabeça para baixo – e daí se explica o sucesso de uma Elis Regina, de uma Clara Nunes e uma Marisa Monte ou, mais recentemente, de Roberta Sá e Teresa Cristina. O artista, creio eu, deveria saber falar “não” quando alguém quer colocar seus interesses comerciais acima do critério artístico.

    Mônica Salmaso, a maior intérprete de MPB da atualidade, certa vez foi aconselhada por um lorde do showbiz – que tinha interesse em contratá-la – para que mudasse o visual e adotasse um repertório mais moderno. Ela se recusou e hoje possui uma obra consistente e tem admiradores entre compositores e intérpretes de todas gerações (eu perguntei a esse empresário se a história era verdadeira: ele não apenas confirmou sua veracidade como elogiou a coragem de Mônica). Em seus primeiros anos de carreira, Fafá de Belém recebeu a proposta de fazer um disco “de sucesso”. Quando falou do convite para seu produtor, Roberto Sant’Ana, ouviu deste que ela teria de escolher entre aquilo ou ter uma carreira da qual poderia se orgulhar. Fafá, claro, escolheu a segunda opção.

    Minha compilação de queixumes pode dar a impressão de que não tenho apreço pelas novas gerações da música pop brasileira. O que não é verdade. Sou fã das melodias sofisticadas de Silva, do canto elegante de Zé Ibarra. Admiro a delicadeza soul de Liniker e Glória Groove e a atitude rock’n’roll de Catto, bem como do brega chique de Johnny Hooker. Amo as misturas sonoras do BaianaSystem, o axé redivivo de Emanuelle Araújo e o arrocha bagaceiro de Pablo. Recentemente, me encantei por um artista independente chamado David Mour (um pop de primeira qualidade), da qualidade das canções e da interpretação de Dora Morelenbaum e coloquei os discos de Zeca Veloso e Chico Chico em alta rotação nas minhas plataformas de streaming. Há muitos outros, claro, mas prefiro destacar esses nomes a transformar essa coluna em algo parecido a lista de chamada de escola. Há futuro para as divas do rebolado? Com certeza. Por enquanto, suas carreiras passeiam mais pelo grotesco mundo dos escândalos do que pela excelência musical. Mas, quem sabe, daqui a algumas décadas possamos cantar em uníssono alguma boa criação delas.