O parasitismo das big techs
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O parasitismo das big techs

Cinco grandes empresas jornalísticas dos EUA deflagraram uma nova ofensiva judicial contra o Google, acusando a big tech de práticas “enganosas e manipuladoras” no mercado publicitário digital. Trata-se de mais um capítulo de uma disputa que, em essência, diz respeito à valorização do jornalismo profissional como o mediador fundamental na democracia. Se a base econômica do jornalismo profissional continuar a ser erodida pelo parasitismo das big techs, o debate público tende a empobrecer ainda mais, com graves consequências para as sociedades abertas.

Os processos movidos por The Atlantic, McClatchy, Vox Media, Condé Nast e Penske Media lançam luz sobre um problema que há anos se instalou na área de comunicação: a captura, por empresas de tecnologia (não de jornalismo), da maior parte das receitas publicitárias geradas pela circulação de conteúdo jornalístico profissional. A publicidade, historicamente um dos esteios do financiamento da imprensa independente, tem sido drenada para plataformas digitais orientadas por algoritmos que organizam a distribuição de informações segundo critérios de engajamento e rentabilidade, não de interesse público.

Esse deslocamento de recursos criou um círculo vicioso. Empresas jornalísticas mobilizam enormes esforços humanos e financeiros para produzir informação verificada e eticamente apurada. Esse conteúdo, essencial para a formação de cidadãos bem informados, circula amplamente nas plataformas digitais, garantindo às big techs audiência e faturamento publicitário. No entanto, a contrapartida financeira para quem produz a informação, quando há, é irrisória. Ou seja, o valor gerado pelo jornalismo profissional quase nunca retorna às empresas que o produziram na medida justa.

Quando a mediação profissional do debate público perde sua sustentação econômica, sobretudo por concorrência desleal, o jornalismo independente perde força. O resultado concreto disso é o enfraquecimento da fiscalização do poder, o que abre um abismo no qual vicejam mentiras, distorções da realidade factual e teorias conspiratórias.

Sociedades no mundo inteiro lidam com os efeitos deletérios dessa desordem informacional. Isso corrói a confiança entre cidadãos – e entre estes e as instituições –, impede a formação de consensos mínimos sobre o que é fato e, assim, oblitera as chances de haver um diálogo racional sobre questões de interesse comum. Com seus métodos rigorosos e imperativos éticos, o jornalismo profissional é a fonte de lucidez em meio a esse caos.

É verdade que parte significativa dos usuários das redes sociais se vale dessas plataformas para consumir ou disseminar conteúdos falsos ou abjetos. Mas também é inegável que milhões de pessoas, no Brasil e no mundo, utilizam as redes como porta de entrada para a informação jornalística confiável. As plataformas se beneficiam dessa função de “ponte”, digamos assim.

Como já defendemos nesta página, é imperativo que as big techs remunerem satisfatoriamente as empresas jornalísticas pelo uso de conteúdos que lhes geram vultosa receita. Não por benevolência, mas por se tratar de uma retribuição justa.