Entrevista | Presidente da FPF diz ter apoio massivo para ser reeleito e detalha redução de cotas no Paulistão
Há mais de uma década no comando do futebol de São Paulo, Reinaldo Carneiro Bastos está na disputa por um novo mandato, que seria o seu terceiro e último à frente daFederação Paulista de Futebol (FPF). Ele crê ser favorito para seguir no poder. “A chance de reeleição é alta”, diz o dirigente de 72 anos. A eleição está prevista para abril.
O cartola recebeu o Estadão em sua sala na FPF, onde acredita que vai permanecer por mais quatro anos e, assim, completar 14 anos no posto mais importante da principal federação estadual do País. O pensamento do dirigente é de que reúne apoio da maioria dos clubes, satisfeitos, ele entende, com as decisões da federação, como a de alterar o formato do Paulistão por causa das profundas mudanças de calendário promovidas pela CBF. “Óbvio que a gente precisa entender que o campeonato estadual mais atingido foi o Paulista, é o que mais sentiu. Mas se você analisar, tinha que ser feito. A Fifa está com uma ganância de datas, fazendo mais competições”.
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Reeleito ou não, o plano de Carneiro Bastos não é mais tentar, no futuro, a presidência da CBF, como pleiteou e fracassou em mais de uma oportunidade. A eleição à presidente na FPF, ele diz, será realizada em abril. O adversário no pleito deve ser o advogado Wilson Marqueti, que busca o apoio dos clubes para poder lançar sua candidatura - o atual presidente nunca teve concorrente. “Ele não vai ter apoio de clube algum. Nem de grande nem de médio nem pequeno”, afirma o atual presidente, que confirmou a redução do valor referente à cota de participação pago aos clubes.
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Reinaldo Carneiro Bastos crê que fórmula inspirada na Champions já é bem-sucedida. Crédito: Ricardo Magatti e Léo Souza/Estadão
Estou há muito tempo no futebol. São 10 anos de presidência, mas não são 10 anos de futebol. O futebol me ensinou muito nesse período inteiro, mais de 30 anos, tudo o que eu não deveria fazer. Vi exemplos em entidades e em clubes de várias atitudes que não deram certo. Quando assumi a presidência, fui muito criterioso e leal a quem estava na cadeira. Já tinha um leque de informações do que eu não deveria fazer e tinha convicção que eu precisava de um um grande número de profissionais para me ajudar a fazer melhor, fazer correto e fazer diferente. Isso foi o mais dolorido quando eu assumi a presidência, porque eu tive que agradecer a participação de muitos amigos que aqui estavam, que eram amigos, mas na minha visão não tinha qualificação para exercer as funções. Fui trocando o quadro por de amigos por profissionais. Os clubes têm estado muito próximos com a gente, e enviando seus profissionais para fazer o que a gente tem aqui. Mas é um caminho muito longo. O futebol vem há muito tempo com vícios, e a gente tem mostrado a clubes, tanto no estado de São Paulo, como no Brasil, que a Federação Paulista tem uma conduta correta e vencedora.
A gente tem um caminho enorme pela frente. Quero criar novos líderes para o futebol, paulista e brasileiro, tanto para entidades como para clube, em gestão. Seja presidente, diretor, executivo de futebol, profissional de marketing, profissional para o futebol feminino. A federação pode capacitar essas pessoas. Temos feito isso com a FPF Academia, mas precisamos fazer mais.
Esse foi o principal fator para que eu decidisse concorrer mais uma vez: o apoio esmagador dos clubes. Nesse último semestre de 2025, nós nos reunimos com os clubes aqui três vezes. Fizemos dois pré-conselhos e um conselho. O Mauro (Silva, vice-presidente) faz uma reunião com treinadores, e capitães, com executivos. A gente leva todas as pautas dessa área. A gente tem uma comissão jurídica de que os clubes participam. Em todas as áreas, a gente leva essas pautas para o conselho onde os presidentes definem o próximo campeonato. A relação que eu tenho com os clubes de São Paulo não foi construída nesses 10 anos. Foi construída nos 30 anos que eu aqui estou. É óbvio que há uma alternância no poder, tem presidentes que não estão. Não são os mesmos hoje. Mas eu tenho uma relação de lealdade e de verdade. O que eu digo a eles é simples: não posso fazer isso para você porque o que eu fizer para você tenho que fazer para todos os outros. A gente conversa muito, às vezes tem uma decisão que a federação toma baseada em seus regulamentos que o clube questiona. Se tá ruim, ele pode trazer essa pauta para o próximo conselho e a gente muda no campeonato do ano que vem. Então, sou candidato pela vontade da grande maioria dos clubes de futebol de São Paulo e pela relação próxima. Eles decidem. A porta está aberta para questionar, para aprovar, para não aprovar, para sugerir, para mudar. A Série A2 esse ano é um exemplo claro de como os clubes podem decidir. Não tínhamos pensado na proposta aprovada. Eles fizeram uma proposta ousada, diferente, num ano difícil, de menores recursos, já é um campeonato mais longo, mais ousado e mais justo tecnicamente. O clube decide, a federação é deles, eles resolvem.
Não. A federação já teve ao longo dos anos problemas com São Paulo, Palmeiras e com outros clubes do interior. Isso já aconteceu e eu respeito o direito dos clubes de optarem por aquilo que eles quiserem. Se algum dos clubes, seja grande, médio ou pequeno, quiser caminhar com outra opção, terá o meu respeito e depois qualquer que seja o resultado aqui, terá que continuar tendo o mesmo tratamento que teve dentro dessa decisão.
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É uma fórmula difícil, arriscada, emocionante, tudo pode acontecer. A gente precisa consolidar isso. Os resultados até agora são muito promissores. Na primeira rodada, a CazéTV teve um aumento de 43% na audiência. Óbvio que a gente precisa entender que o campeonato estadual mais atingido foi o Paulista, é o que mais sentiu. Mas se você analisar, tinha que ser feito. A Fifa está com uma ganância de datas, fazendo mais competições. A Conmebol já tem Libertadores, Recopa e Supercopa, que ocupam datas distintas. O Brasileiro tem 38 datas, com 20 clubes que ocupam 38 datas. Então, alguma coisa tinha que ser feita. Somos um país continental. Nós precisamos valorizar a base da pirâmide, todos os estaduais do Brasil.
O valor em dinheiro diminuiu, sim, mas por jogo aumentou. Aumentou 17% por jogo.
R$ 34 milhões. Eles estão jogando menos. São quatro datas a menos (Houve redução de 12 para 8 jogos na fase de grupos). Quatro datas a menos valem dinheiro, diminui. Proporcionalmente, o valor por jogo é 17% maior neste ano.
Reinaldo Carneiro Bastos fala em necessidade de árbitros serem 'treinados e cuidados'. Crédito: Ricardo Magatti e Léo Souza/Estadão
Normalmente, essa é uma crítica que nasce de quem quer estar no cargo e não consegue estar. O que a federação e os clubes fizeram foi aprovar por unanimidade uma alteração estatutária, para se adequar ao estatuto da Fifa, da Conmebol. A situação estatutária é diferente da de antigamente. Os clubes recebem com antecedência todo o estatuto com o prazo para opinar e para sugerir. Eles não vêm aqui, sentam e aprovam o que está lá. Todos eles recebem uma cópia da proposta, têm prazo para opinar e aí sim tem assembleia para aprovar ou não. Se eleito for, eu encerro a minha atividade no futebol como presidente no fim do próximo mandato.
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Isso não é verdadeiro, ele desconhece a Federação porque ele nunca conviveu na Federação.
Sim, ficou seis meses num cargo de representação. Ele nunca veio aqui para fazer uma proposição, uma ideia, nunca. Não frequentava a sede. Pedi a ele para representar na Câmara Municipal, num evento. Internamente, nunca esteve aqui. E a maior forma de você entender claramente que isso é falso é conversar com os clubes. Veja com os clubes como são as coisas na Federação em todos os setores. A gente trabalha com os clubes diuturnamente.
Até agora ele não tem nenhum apoio e não vai ter. Não vai ter apoio nem de clube grande nem de médio nem pequeno.
Pode aparecer outro candidato, outra pessoa. Ele (Marqueti) nunca frequentou a Federação e não conhece os presidentes dos clubes.
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É alta. É um trabalho muito consistente, um trabalho muito diferente, reconhecido. Quando você começa a ter mais clubes disputando competições nacionais, eles começam a conviver com clubes de outros estados, o futebol São Paulo é muito diferente, graças aos clubes. Eles acreditaram. Nós somos bons de enfrentar desafios. No primeiro ano, nós rebaixamos seis clubes do Paulistão. No ano seguinte, rebaixamos de novo mais seis clubes da A2, seis clubes da A3, depois no terceiro ano mais seis clubes até todo mundo ficar com seis clubes. Você não imagina a força do futebol de São Paulo para que faça competições melhores e mais rentáveis, de cortar na própria carne. Eles foram guerreiros, apoiaram, incentivaram e caminharam junto numa decisão muito difícil. Como foi a decisão agora de fazer esse Paulistão ousado, inspirado na Champions League, que está sendo um sucesso. Mas é diferente, né? A gente nunca tinha feito.
Devo, em breve, no conselho de administração aprovar os nomes da comissão eleitoral. E aí deve ser em abril. Porque, diferentemente de antigamente, agora tem um rito, tem que indicar, a comissão tem 30 dias para publicar as normas e depois mais 30 dias para chamar a eleição.
Quando comecei no futebol, não imaginava que estaria sentado nessa cadeira. Comecei herdando a presidência do Esporte Clube Taubaté. Deixei o clube numa situação bem confortável. Nunca imaginava que no meio do caminho passaria a frequentar a Federação. Passei a ter relação, a ser ouvido no interior, e fui indo. Setor administrativo, depois vice-presidente administrativo, depois financeiro, depois vice-presidente eleito, até chegar à presidência. Em 2027 devo completar 40 anos de Federação. A idade chega e o vigor diminui. Estarei sempre à disposição no futebol para colaborar, opinar, não para disputar eleição, seja aqui, seja em qualquer lugar.
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O que existe é o meu irrestrito apoio a eles para fazerem melhor, fazerem diferença. Acho que estão fazendo um bom trabalho. Estou surpreso e feliz com a postura dessa nova CBF. É uma CBF descentralizada. Está mudando, você enxerga melhor o caminho que eles estão seguindo.
Corriqueiramente. A gente tem muita demanda, somos a maior federação, praticamente somos 45% do futebol brasileiro. Então temos muita demanda. Eles foram muito atenciosos, o departamento de competições, para conseguir equilibrar as datas e fazermos as duas finais do Paulistão. Uma final única poderia impactar os detentores de direito.
O atleta passa a semana inteira sendo cuidado, olhado, treinado, medicado. O árbitro faz dois testes e treina sozinho. É uma relação desigual. É óbvio que o futebol está cada vez mais dinâmico, cada vez mais competente, com mais interesses financeiros envolvidos. E o árbitro continua com a mesma estrutura. A profissionalização, dar uma carteira assinada para o árbitro, na minha opinião, não resolve. Ele precisa de um estafe, de estrutura. No “Jovens Árbitros” (programa da FPF), tinha gente do estado inteiro, o que fizemos? Pagamos um valor para os árbitros e eles tinham que morar em São Paulo. Todos juntos, é possível treiná-los. Se eu fosse fazer algo nesse sentido, faria a profissionalização, mas pagaria um valor e todos teriam que morar na mesma cidade para serem treinados e cuidados. Vai melhorar.
A Federação não tem nenhuma dívida fiscal. Está tudo quitado. (Dívida) Trabalhista sempre há um outro um questionamento que está sendo ainda ainda cuidado. A Federação tem uma situação financeira confortável e nós vamos diminuir as despesas, como um todo, por volta de 15 a 20%.
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A receita diminuiu. Diminuiu por um motivo principal: o pay-per-view. Em 2025 o pay-per-view foi avaliado em R$ 60 milhões. O que que a gente fez? Demos 16 jogos em 12 datas para todos eles (emissoras e plataformas que transmitem o campeonato). O que sobrou foram poucos jogos, não tinha mais jogos dos grandes, só de times de menor arrecadação. A gente redistribuiu, acabou o pacote do pay-per-view. Só aí são R$ 60 milhões.
No todo, diminuiu porque o acordo com a Sicred era para o Paulistão e todas as competições da Federação. Então o dinheiro era muito maior. Era um acordo para tudo. O contrato com a Casas Bahia é só para o Paulistão. Então o dinheiro é menor.
Sim. É um dinheiro importante para o futebol, como um todo. Elas estão nas entidades estaduais, nas entidades nacionais, sul-americanas, na Fifa, nos clubes.
O futebol, como um todo, precisa de credibilidade. Não dá mais para fazer futebol com aventureiro ou com aventureiro. Quando eu vi as SAFs, enxerguei só como uma forma de salvar Botafogo, Cruzeiro, Vasco. Mas a gente teve uma surpresa muito agradável. Quem bancava e apoiava os times do interior? Eram o comércio local, os médicos, advogados. O que aconteceu com a passagem do tempo e com a gestão com a gestão dos clubes piorando? Você patrocinava o Taubaté e a pessoa começa a escutar a rádio local que os jogadores entravam em greve porque o salário estava atrasado. Isso afastou essas pessoas que bancavam os clubes. Com a SAF, essas mesmas pessoas, comércio local, se uniram e passaram a administrar o dinheiro que eles põem. É assim com o Noroeste de Bauru, o Capivariano e o Primavera de Indaiatuba. A SAF fez com que o processo de gestão nos clubes fosse mais transparente e mais profissional. Porque se você vai fazer uma aventura é com o seu próprio dinheiro. Então, você se organiza para fazer uma gestão melhor. Foi muito bom para o futebol de São Paulo a SAF.
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Não. Não cabe. Não tem e não vai chegar. O clube não deixa chegar. Os próprios clubes rejeitam aventuras. Aliás, vamos ser justos: nos dias de hoje não cabe aventura em nenhuma atividade.
O que mais me toca é melhorar as pessoas. Gostaria muito que a gente tivesse uma quantidade muito maior de meninos e meninas praticando futebol sob olhares de gente treinada e capacitada. Gostaria muito que meninas e meninos tivessem essa oportunidade, que a gente pudesse espalhar isso pelo Estado de São Paulo, que a gente pudesse educar profissionais para isso.