Segundo Janaina Donas, com a demanda mundial de alumínio crescendo, países como a China estão ampliando capacidade de reciclagem e importando mais sucata do Brasil .
A reciclagem de alumínio é um caso de sucesso no Brasil, mas ainda há desafios importantes a superar. Segundo Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), a exportação de sucata é uma das principais preocupações, pois impede o país de atingir todo o seu potencial de reciclagem. Enquanto isso, países como a China utilizam em suas linhas de produção alumínio - ou restos dele - importados do Brasil.
“O Brasil possui capacidade instalada superior ao volume processado: em 2024, foram recicladas cerca de 645 mil toneladas, embora a capacidade ultrapasse 1 milhão. A disputa global por sucata é um dos principais entraves. Com a demanda mundial de alumínio crescendo rapidamente, países como a China estão ampliando suas capacidades de reciclagem e importando sucata para atender à demanda”, diz.
Para Janaina, a COP-30 em Belém será uma oportunidade para mostrar ao mundo que o Brasil tem um dos alumínios mais sustentáveis do mundo - com baixa pegada de carbono, alto índice de reciclagem e uma cadeia circular que gera benefícios ambientais e sociais. “O setor quer destacar que o alumínio é parte da solução para a descarbonização global e que o País pode se consolidar como potência em reciclagem e reindustrialização verde, com protagonismo na transição energética.” A seguir, os principais trechos da entrevista:
Apesar de o Brasil ter uma intensidade carbônica (a quantidade de gases emitida na atmosfera) 3,3 vezes menor que a média global, ainda há espaço para avanços. O principal desafio está na substituição de combustíveis fósseis nas refinarias, onde a biomassa, como cavaco de eucalipto e resíduos do açaí, já vem sendo usada para reduzir emissões. Há também desafios tecnológicos, como o uso de ânodos inertes, a captura de carbono e a melhoria da rastreabilidade do alumínio - fundamental para comprovar práticas sustentáveis e acessar mercados que pagam prêmio pelo “alumínio verde”. Outra frente essencial é a formalização e o financiamento da cadeia de reciclagem, garantindo escala e inclusão dos catadores. Além disso, é necessário ampliar a circularidade, com uso mais eficiente de recursos como água e energia.
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A rastreabilidade é um diferencial comercial, já que o alumínio com certificação de origem limpa recebe um prêmio de mercado no exterior. Para isso, é preciso comprovar a origem, o processo produtivo e o conteúdo reciclado do metal. O Brasil já avançou nesse sentido, mas ainda há lacunas, especialmente na gestão da sucata. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) iniciou um sistema pioneiro de rastreabilidade, inicialmente voltado ao plástico e agora expandido para o alumínio. Essa iniciativa é essencial para alinhar políticas públicas, como o programa Mover, que incentiva o uso de materiais reciclados na indústria automotiva. Ou seja, estamos no caminho certo, mas ainda é preciso integrar melhor os esforços.
O alumínio é fundamental em setores-chave para a descarbonização - embalagens, transportes, construção civil, bens de consumo, maquinário e eletricidade. Esses segmentos devem registrar aumento de demanda global entre 40% e 55% até 2030. O metal contribui diretamente para reduzir emissões: no transporte, garante leveza, durabilidade e resistência à corrosão, aumentando a eficiência energética; em painéis solares e cabos elétricos, amplia a infraestrutura de energia limpa. O alumínio brasileiro, produzido com 90% de energia renovável, tem uma das menores pegadas de carbono do mundo, resultado de decisões estratégicas e de uma matriz energética limpa. Assim, é essencial tanto para a descarbonização industrial quanto para o cumprimento das metas climáticas globais.
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Ainda há desafios relacionados à informalidade e à falta de instrumentos financeiros que permitam à cadeia de reciclagem ganhar escala. O País possui capacidade instalada superior ao volume processado: em 2024, foram recicladas cerca de 645 mil toneladas, embora a capacidade ultrapasse 1 milhão. A disputa global por sucata é um dos principais entraves. Com a demanda mundial de alumínio crescendo rapidamente, países como a China estão ampliando suas capacidades de reciclagem e importando sucata para atender à demanda. O risco é que o Brasil, recentemente autossuficiente, volte a perder competitividade se continuar exportando esse insumo estratégico.
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Porque o alumínio reciclado é a forma mais rápida e sustentável de aumentar a oferta global. A produção primária exige grandes investimentos, energia barata e matérias-primas como bauxita e alumina - nas quais o Brasil tem vantagem: é o quarto país em reservas de bauxita, o terceiro em produção de alumina e o nono em alumínio primário. No entanto, no curto prazo, há uma corrida mundial pela sucata. Países asiáticos, especialmente a China, estão restringindo a produção a carvão e importando sucata para acelerar sua transição energética. Essa corrida pode comprometer a autossuficiência brasileira se não houver uma política de retenção de material reciclável.
Há cerca de 20 anos, a China transformou a cadeia global do alumínio ao investir maciçamente na produção primária do metal. O excedente, exportado a preços abaixo do mercado, levou vários países - incluindo o Brasil - a adotar medidas de defesa comercial contra os subsídios chineses. Hoje, as barreiras comerciais se concentram nas questões ambientais, já que a produção chinesa é altamente dependente do carvão. Diante disso, a China passou a reduzir sua produção primária e investir fortemente em reciclagem, atingindo capacidade de cerca de 22 milhões de toneladas - muito acima da brasileira, de aproximadamente 1 milhão, embora o Brasil tenha índice de reciclagem mais eficiente. A estratégia chinesa inclui importar sucata e limitar exportações, buscando metas ambiciosas de reciclagem e eletrificação mais limpa. Organismos internacionais já alertam para um possível déficit global de alumínio a partir de 2026. Caso o Brasil continue exportando sucata, pode comprometer sua autossuficiência e os avanços em rastreabilidade e sustentabilidade - preocupação também de Estados Unidos e União Europeia.
Exatamente. Quem ganha são apenas os intermediários, enquanto o País perde sua vantagem competitiva de ter um alumínio verde, com alta taxa de reciclagem e baixa pegada de carbono. Exportar sucata é enviar embora um insumo estratégico essencial para a reindustrialização verde, que depois retorna como produto acabado competindo com a indústria nacional. Por isso, não se defende uma proibição total, mas uma política estratégica. Mais de 20 países já adotaram algum tipo de restrição à exportação de sucata - por proibição, sobretaxa ou prioridade à indústria local. O Brasil precisa discutir esse tema com urgência.
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A COP-30 é uma oportunidade para mostrar que o Brasil tem um dos alumínios mais sustentáveis do mundo - com baixa pegada de carbono, alto índice de reciclagem e uma cadeia circular que gera benefícios ambientais e sociais. O setor quer destacar que o alumínio é parte da solução para a descarbonização global e que o país pode se consolidar como potência em reciclagem e reindustrialização verde, com protagonismo na transição energética.