O mês de abril do ano passado - quando a partir de 2/4, o chamado "Liberation Day", o presidente Donald Trump começou a fazer grandes anúncios de aumentos de tarifas de importação - pode no futuro ser estudado não apenas pela perspectiva do comércio internacional, mas também pela perspectiva financeira.
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É que, em diversos dias de abril de 2025, ocorreu uma espécie de quebra de paradigma, com simultaneidade de quedas - e, algumas vezes, simultaneidade de altas - expressivas nas bolsas e no valor dos títulos do Tesouro americano (quando o valor cai, a rentabilidade aumenta, e vice-versa).
O índice S&P do mercado acionário despencou mais de 11% em cerca de uma semana de abril, e a rentabilidade dos títulos longos do Tesouro americano (inversa ao preço) disparou, com o de 30 anos alcançando 5,2% no final de maio.
A quebra de paradigma está em que, normalmente, em momentos de forte estresse nos mercados, com consequentes quedas das bolsas, os Treasuries sobem de preço (e sua rentabilidade cai). A razão é que os títulos do tesouro norte-americano tradicionalmente são considerados o principal "porto seguro" global para os capitais em momentos de turbulência internacional.
Na crise de 2008 e na pandemia de 2020, esse padrão histórico foi observado, com fechamento da curva de juros norte-americana nos momentos de maior estresse. Mas em abril de 2025, o padrão tradicional se inverteu. Em diversos dias de abril em que houve anúncios de imposição de tarifas por Trump, tanto as ações como os Treasuries perderam valor. Em 23 de abril, por exemplo, a queda simultânea de ações e títulos do Tesouro americano configurou uma correlação que se enquadra entre a 0,25% mais rara de todo o período desde 2005.
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Essas informações e análises constam de um artigo recente dos economistas Viral Acharya e Toomas Laarits, da NYU Stern School of Business, publicado no site econômico europeu VoxEU-CEPR.
Eles apontam que, em termos históricos, o status de porto seguro reduziu em média o custo da dívida mobiliária dos Estados Unidos em 0,7 ponto porcentual (pp) ao longo de 100 anos, de acordo com a literatura econômica. Já em termos do título referencial de dez anos, o ganho é de 0,24pp.
Essa vantagem é chamada de "rentabilidade da conveniência", em alusão à segurança, liquidez e possibilidade de uso como colateral dos Treasuries. Outro trabalho dos autores indica que a rentabilidade de conveniência tende a ser maior em grandes quedas do mercado acionário.
Mas em abril do ano passado essa tendência histórica se inverteu, e a rentabilidade de conveniência do título de dez anos caiu em quase 0,1pp (isto é, a rentabilidade aumentou). Isso indica maior ceticismo do mercado em relação à proteção de longo prazo conferida pelos papéis do Tesouro dos Estados Unidos.
Por outro lado, a alta da rentabilidade dos Treasuries poderia ser também o temor de mais inflação (o que o aumento de tarifas ajuda). Acharya e Laarits investigam as causas do fenômeno e chegam à conclusão de que, apesar de leve alta das expectativas inflacionárias, a inflação não foi a "culpada".
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O trabalho dos dois economistas encontra que a fuga para o ouro e a falta de compradores para os Treasuries foram as causas principais para a queda do preço dos títulos, e consequente aumento da rentabilidade.
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Em abril, ocorreu uma saída líquida de US$ 47 bilhões no mercado de Treasuries de longo prazo, para a qual contribuíram vendas líquidas ou neutras de investidores na Ásia, zona do euro e no Canadá. Esses países e regiões tendem normalmente a serem compradores líquidos de títulos da dívida pública dos Estados Unidos.
O ouro, em particular, parece ter assumido parte do papel dos Treasuries como porto seguro: o metal subiu 90% em aproximadamente um ano (30% entre abril e outubro do ano passado). Segundo o artigo dos economistas, a análise intraday confirmou que, nos dias em que os títulos americanos perdiam seu valor de proteção, o ouro subia, consolidando-se como o novo porto seguro preferencial durante o conflito comercial.
"O ouro atraiu fluxos que historicamente iam para os Treasuries" escrevem os autores.
Se de fato essa for uma mudança duradoura de paradigma nas finanças globais, o mundo adentra uma nova configuração financeira ainda desconhecida em todos os seus desdobramentos. Até agora, com a queda internacional do dólar, os efeitos foram muito benéficos para o Brasil e outros países emergentes. Mas é bom colocar as barbas de molho.
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Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/1/2026, sexta-feira.