E se a inflação dos Estados Unidos (2,7% no acumulado em 12 meses em dezembro, no índice de preços ao consumidor, CPI na sigla em inglês), em vez de rumar para a meta de 2% ao longo de 2026, subir para 4%?
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Os economistas Peter Orszag (da Lazard, gestora internacional) e Adam S. Pozen (do Instituto Peterson para Economia Internacional, PIIE na sigla em inglês, sediado em Washington) acabam de publicar um artigo no site do PIIE em que dizem considerar provável que a inflação americana supere 4% ao final deste ano.
Orszag e Pozen citam cinco razões para apostarem que haverá uma surpresa altista na inflação dos Estados Unidos em 2026.
O primeiro deles é o impacto inflacionário dos aumentos de tarifas de Donald Trump. Eles alegam que esse efeito não se dá de imediato, e tende a ser gradativo. Uma das razões é que os importadores nos Estados Unidos tendem a trabalhar com o custo do estoque, e estocaram bastante antes do tarifaço. Quando esses estoques se consumirem e novas importações forem sendo feitas a um preço maior (por causa das tarifas), o repasse deve ocorrer. Mas de forma gradual, porque as empresas não gostam de assustar o consumidor. E esses efeitos seriam sentidos em 2026.
A segunda razão é o impacto sobre o mercado de trabalho da radical política anti-imigratória de Trump. Com isso, nas contas dos economistas, a criação mensal de empregos que mantém a taxa de desemprego estável caiu de 150 mil no início de 2024 para 90 mil em meados de 2025. Eles preveem que haverá escassez de mão de obra em setores dependentes da mão de obra imigrante.
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O terceiro e o quarto fatores são a política fiscal e as condições monetárias, ambas mais frouxas e expansionistas do que parece, para os dois economistas. Finalmente, eles mencionam as expectativas inflacionárias dos consumidores, que estão desancoradas.
José Júlio Senna, especialista em política monetária do FGV-IBRE, diz que não tem elementos para corroborar inflação americana de 4% em 2026, mas que concorda, sim, com as preocupações de Orszag e Pozen em relação a pressões inflacionárias nos Estados Unidos.
De maneira geral, Senna dá um pouco menos de importância à questão das tarifas do que as outras mencionadas, pelo fato de que a inflação de bens norte-americana está no momento abaixo da meta.
E o economista do IBRE considera particularmente relevante a preocupação com as condições financeiras frouxas, o que está sinalizado em três indicadores deste tipo, um da Bloomberg e dois do próprio Federal Reserve (Fed, BC dos EUA).
Senna aponta que o crescimento real da chamada absorção doméstica (consumo privado, consumo do governo e investimentos) dos Estados Unidos está em torno de 3% ao longo de 11 trimestres, comparado a um produto potencial de aproximadamente 1,8%. Ele nota que o Fed - acertadamente, a seu ver - considera a absorção doméstica um indicador mais relevante até que o PIB para a condução da política monetária.
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O economista acrescenta que os ataques de Trump à independência do Fed, mesmo que não deem em nada, também afetam as expectativas inflacionárias de longo prazo (os agentes econômicos podem raciocinar que o presidente americano não conseguiu agora, mas pode tentar novamente no futuro).
Para Senna, todos esses riscos inflacionários podem fazer com que o BC americano mantenha a taxa básica, os Fed Funds, estável no nível atual de 3,5-3,75% por um bom tempo, não fazendo cortes nem na reunião deste mês nem na de março.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/1/2026, sexta-feira.