Crédito: Larissa Burchard e Beatriz Souza/Estadão
BRASÍLIA E SÃO PAULO — A teia de empresas relacionadas ao empresário Daniel Vorcaro e aos demais executivos do Banco Master, do qual ele é controlador, tem mais de 2,5 mil CNPJs. Um levantamento realizado pelo Estadão com base em dados da Receita Federal mapeou a extensão dos negócios do grupo, levando em consideração aqueles em que os membros do banco e seus sócios mantêm participação ou atuam como administradores.
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Eles estão espalhados por diversos setores da economia, mas o principal é o segmento imobiliário. No total, há 1.246 negócios nesse segmento, que é caracterizado por utilizar CNPJs diferentes para cada empreendimento imobiliário.
A amostra abrange todas as empresas que têm relação direta com sócios, ex-sócios e administradores do Master. Depois, foram incluídos também os negócios dos sócios deles em outros empreendimentos.
Portanto, os pontos de partida foram, além de Daniel Vorcaro, outros executivos e empresários, como Luiz Antônio Bull e Augusto Ferreira Lima, membros do grupo Master e alvos da Operação Compliance Zero, que investiga crimes contra o sistema financeiro e supostas fraudes na emissão de R$ 12 bilhões em títulos falsos.
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Procurados, Bull e Ferreira Lima não se manifestaram até a publicação desta reportagem. A defesa de Daniel Vorcaro, por sua vez, reiterou que ele “tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes” (leia a íntegra abaixo).
Vorcaro é sócio de 23 empresas de forma direta ou por meio de outras personalidades jurídicas. Algumas delas são braços do conglomerado Master, como o banco em si e três holdings usadas para controlar ativos. Mas ele também é sócio, por exemplo da Hedgedog Trading Techonology, de informática, e a Vinc Consultoria e Investimentos, sediada em Belo Horizonte.
Seus empreendimentos incluem ainda uma distribuidora de grãos, da qual é sócio por meio do Banco Voiter, e uma gravadora com sede em Belo Horizonte, a Star Music.
Ele também mantém participação indireta em outros negócios. O Banco Voiter é um dos proprietários de um empreendimento de comércio de cereais. Também mantém participação em holdings na área da saúde.
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Sócio e representante legal do Master, Luiz Antônio Bull é diretor da SC Empreendimentos e Participações SPE, uma incorporadora situada em Osasco, na Grande São Paulo.
Já Augusto Ferreira Lima atua também na área de tecnologia da informação, com a ACB Processamento de Dados.
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Segundo advogados especializados em direito empresarial ouvidos pelo Estadão, o número de milhares de empresas para um grupo reduzido de empresários chama a atenção, apesar de não configurar em si uma ilegalidade.
Uma malha tão grande de CNPJs pode ajudar a esconder o percurso do dinheiro entre empresas e indivíduos, ainda mais se envolver também fundos de investimentos. A prática também não é comum mesmo para empresas de porte muito grande, não constituindo uma boa prática de governança corporativa, segundo especialistas. Tudo isso também tornará o trabalho dos investigadores do caso mais complexo.
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“O número chama a atenção. Especialmente, sobre como fazer para poucos indivíduos administrarem tudo isso”, diz a advogada Ivana Cota, coordenadora da área consultiva empresarial do escritório Ciari Moreira Advogados. “Mas não significa uma ilegalidade. O importante é saber se existe transparência e qual a estratégia de negócios para tantas empresas, se são para fins operacionais, para segregar ativos, ou dar maior eficiência fiscal.”
Em algumas áreas, é mais usual a montagem de diversas empresas. “A depender da área de atuação, do ponto vista jurídico, não é incomum o uso de muitos CNPJs. Especificamente em infraestrutura, no setor imobiliário e financeiro, se estabelece uma empresa para cada investimento”, diz Cota.
É o caso, por exemplo, de sociedades de propósito específico (SPE) criadas para empreendimentos imobiliários. “Para cada empreendimento que vai ser lançado é interessante ter um CNPJ diferente, para fins fiscais, por que delimita as responsabilidades fiscais. É a regra do mercado”, diz a advogada.
Suspeitas
Em manifestação apresentada para embasar a segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada última quarta-feira, 14, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, citou que o Master usou uma “rede de entidades conectadas entre si” para executar operações suspeitas de crimes de gestão fraudulenta.
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A instituição teria usado as “vulnerabilidades” do mercado de capitais para realizar operações financeiras com o objetivo de desviar dinheiro para o patrimônio pessoal do dono do banco, Daniel Vorcaro, e de seus familiares. Esses desvios totalizaram R$ 5,7 bilhões, de acordo com a investigação.
Uma das estratégias envolveu, por exemplo, a emissão de CDBs no mercado. Segundo a Polícia Federal, o Banco Master captava recursos no mercado via CDBs e os direcionava a fundos de investimento (FIDCs) onde o próprio banco era o único cotista. Esses fundos, por sua vez, compravam Notas Comerciais de empresas de fachada ligadas aos sócios do banco.
Foram pelo menos R$ 3,5 bilhões investidos pelo Master em fundos dos quais era cotista único e R$ 1,8 bilhão destinado à aquisição de notas comerciais emitidas por empresas que tinham vínculos com Vorcaro ou pessoas relacionadas a ele. No total, a PF identificou suspeitas de desvio de R$ 5,7 bilhões de recursos do sistema financeiro para o patrimônio pessoal do banqueiro ou de familiares.
Ao rastrear uma das operações suspeitas, a PF acabou descobrindo, por exemplo, que um desses fundos de investimento acabou resultando na transferência de R$ 9 milhões para Henrique Vorcaro, pai do dono do Master. A defesa dele disse que Henrique Vorcaro não tem envolvimento em operações irregulares e afirmou não ter conhecimento sobre os fatos mencionados na investigação (leia mais abaixo).
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Outro investimento considerado fraudulento foram os R$ 361 milhões destinados a uma pequena clínica médica na região metropolitana de Belo Horizonte, caso revelado pelo Estadão. A PF identificou que vínculos societários da clínica acabavam vinculando a operação financeira à irmã do banqueiro, Natália Vorcaro. Por causa disso, tanto o pai como a irmã também foram alvos da operação.
Com a palavra, a defesa de Daniel Vorcaro
A defesa de Daniel Vorcaro reafirma que o Sr. Vorcaro tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes. Todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência.
O Sr. Vorcaro permanece à disposição para prestar esclarecimentos sempre que solicitado, reforçando seu interesse no esclarecimento completo dos fatos e no encerramento célere do inquérito. A defesa reitera confiança no devido processo legal e seguirá atuando nos autos para que as informações sejam tratadas de forma objetiva e dentro dos limites constitucionais.
Com a palavra, a defesa de Henrique Vorcaro
O empresário Henrique Vorcaro não tem envolvimento em operações ilícitas ou irregulares. O grupo liderado por Henrique, que mantém negócios sérios e possui boa reputação há mais de 40 anos, tem sido mencionado em reportagens sobre supostos fatos dos quais não tem conhecimento. O empresário tampouco teve acesso aos respectivos autos citados nas reportagens. É preciso destacar que o empresário está à disposição para esclarecer o que for necessário às autoridades.
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