Objetivo é testar o impacto de mudanças de mix, layout, preços, por exemplo, no consumo. Crédito: Taba Benedicto/Estadão
Alguns dos sobrenomes mais conhecidos do varejo e comércio brasileiro não aparecem mais no topo dos organogramas e nos blocos de controle das mais tradicionais empresas do setor. São nomes como Klein, Diniz e Hering, que não comandam mais as organizações que desenvolveram e que também fizeram as suas famílias serem reconhecidas além dos meios empresariais. Durante 2025, diversos acontecimentos afastaram grandes empresas de seus clãs fundadores.
Apesar de Michael Klein ainda ser um acionista relevante da Casas Bahia e de ter declarado interesse em comprar mais ações da rede fundada por seu pai, Samuel Klein (1923-2014), foi a gestora de recursos Mapa Capital quem assumiu o controle da empresa no ano passado, com apoio dos bancos credores de sua recuperação extrajudicial.
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Já a família de Abilio Diniz (1936-2024) sacramentou a sua saída do setor varejista com a venda, em 2025, de suas ações na varejista francesa Carrefour, do qual era o maior investidor individual. Em abril, negociou as ações no Carrefour Brasil e, em novembro, foi a vez de se desfazer da participação no Carrefour global.
O fim da trajetória do clã de Valentim Diniz, pai de Abilio, no setor se deu em duas etapas, sendo que a primeira remonta à década passada. Abilio chegou a comprar, em 2009, o controle da própria Casas Bahia, de Saul e Michael, para integrar ao seu Grupo Pão de Açúcar (GPA), que depois acabou sendo absorvido pelo francês Casino, em troca de empréstimos feitos anteriormente.
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Na tentativa de manter o controle do negócio criado por seu pai, Abilio tentou fundir o grupo ao Carrefour, empresa na qual havia passado a investir alguns anos antes. Ao não ter sucesso no movimento, ampliou a sua presença no Carrefour, da qual seus herdeiros se desfizeram agora.
O futuro do Pão de Açúcar já está em outras mãos. Em 2024, o Casino deixou o comando do negócio, promovendo um aumento de capital, e o controle acabou sendo adquirido em 2025 por outra família Diniz. No caso, os mineiros da Coelho Diniz, dona da rede Coelho Diniz Supermercados. Não há nenhuma relação entre as duas famílias homônimas.
Isso chegou ao fim também em 2025, quando Thiago Hering, da sexta geração da família na empresa, deixou o posto de CEO da divisão chamada de basic do grupo Azzas 2154, resultante da fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma.
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A Hering havia sido vendida ao Soma em 2021, ainda na gestão de Fabio Hering, pai de Thiago, mas a família ainda se mantinha próxima do negócio até setembro do ano passado.
Outro caso recente envolveu a família Dubrule, que chegou a anunciar e depois cancelar, entre abril e maio de 2025, uma oferta de recompra do controle da Tok & Stok, a qual fundou e depois vendeu ao fundo americano Carlyle. A tentativa não prosperou e o grupo Toky, dono da Tok & Stok e também da Mobly, depois teve o seu controle vendido para outros donos, um grupo de gestoras de investimentos liderado pela GTF Capital, de Rafael Ferri.
O ano de 2025 quase teve ainda a saída da família gaúcha Sonda do negócio de supermercados que leva o seu sobrenome. Ela manteve negociações com a gestora americana Advent, que foram interrompidas no fim do ano. A venda serviria como uma solução para os desafios de sucessão da rede.
Tantas movimentações que mudam a história de grupos famosos podem espelhar grandes tendências que vão além das fronteiras brasileiras. Segundo Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral e fundador da Gouvêa Ecosystem, grupo de consultorias especializadas em varejo, há em curso “um processo evolutivo dominado e profundamente impactado pela tecnologia, pelo mundo digital e, mais recentemente, pela inteligência artificial (IA)”.
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Tudo isso fez emergir uma reconfiguração global das corporações a partir de uma nova demanda de capital, para investimentos tecnológicos e para a remontagem dos negócios, que provocam mudanças até no controle das grandes redes. “São, pelo menos, dois vetores para esse processo: a despersonalização da atividade de varejo, em que os controladores originais, no extremo, até se afastam das companhias, enquanto elas continuam, e também a desmaterialização do varejo”, analisa Gouvêa.
O afastamento dos fundadores de seus negócios, diz o especialista, aconteceu, de forma ampla, nos EUA, Europa, China, e, em menor medida, na Coreia do Sul, mas também de alguma maneira na África do Sul e na Austrália.
Digitalização, desmaterialização e financeirização
Esse processo esteve muito ligado à revolução digital, que tem relação com a chamada desmaterialização do varejo, explica Gouvêa. O conceito trata de uma desvinculação da demanda de concentrar as compras nas lojas físicas e em produtos finais. Gouvêa cita que, antes da pandemia, os serviços de alimentação representavam, historicamente, em torno de 48% de todo o dispêndio de alimentos e bebidas nos EUA. Agora, ele chega a 59%. “As pessoas estão comprando menos o produto em si, e mais o produto integrado com o serviço”, diz Gouvêa. “E isso acontece não apenas no varejo, mas também em outros setores.”
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Um exemplo pioneiro aconteceu com a Nestlé vendendo as cápsulas de café Nespresso, para serem operadas em máquinas especiais, criando uma solução de entrega de café pronto. Mas também ocorre quando a Unilever opera uma rede de lavanderias que utiliza o seu sabão em pó Omo, quando a Sherwin Williams passa a administrar lojas de tintas que vendem latas do produto e também oferecem serviços de pintura e quando a Baterias Moura oferece entrega e instalação de baterias automotivas, serviço pedido por meio de aplicativo.
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Empresas familiares
O foco nas ofertas digitais e nas operações financeiras acabam estimulando a renovação nos quadros de comando executivos das empresas varejistas, que passam a exigir um perfil diferente de profissional além do tradicional dono que ficava, como se costuma dizer no jargão do setor, “com a barriga no balcão” e com “o pulso do varejo”, lançando quase que intuitivamente ofertas irresistíveis e fazendo compras de produtos com altas doses de eficiência. A necessidade de familiaridade com canais digitais e produtos financeiros pode levar à busca por executivos no mercado, e sem parentesco com os fundadores.
Mas, se fundos, gestoras de recursos e executivos de mercado podem estar ganhando relevância em diversos grandes grupos do setor em relação a famílias tradicionais, isso não significa necessariamente que as empresas com donos conhecidos sumirão do varejo brasileiro. Ou que fundos, controle pulverizado e executivos profissionais vão sempre garantir maior sucesso nos novos tempos.
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“Está cheio de empresas familiares prósperas e sólidas no Brasil, com novas gerações entrando e inovando na gestão”, afirma Serrentino. “Algumas das empresas, como Pão de Açúcar e Tok & Stok, foram vendidas em momento que estavam bem, e tiveram problemas depois que os donos originais se afastaram da gestão.”
Em contraponto, não são poucos os casos de grupos e fundos internacionais que tentaram conquistar o varejo brasileiro e deixaram o mercado local após terem pouco sucesso, como Walmart, Casino, Fnac, Dia, Castorama, Ahold, Jeronimo Martins, Sonae, CVS, TopShop, Forever 21 e Gap.