Nos últimos meses, a política latino-americana tem presenciado uma expressiva guinada à direita. No Chile e em Honduras, os conservadores José Antonio Kast e Nasry Asfura, respectivamente, venceram as eleições presidenciais. Na Argentina, Javier Milei se viu fortalecido após obter um bom resultado nas eleições legislativas, e a Bolívia encerrou quase 20 anos de governo socialista com a eleição de um presidente centrista.
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São mais quatro casos de ascensão da direita que se juntam a líderes já consolidados como Daniel Noboa no Equador, Santiago Peña no Paraguai e Nayib Bukele em El Salvador.
A explosão do crime organizado colocou a segurança pública no topo da agenda em vários países: como lembra Brian Winter, editor da revista Americas Quarterly, a produção de cocaína triplicou em dez anos, fortalecendo cartéis e elevando homicídios em uma região com cerca de 8% da população mundial, mas perto de 30% dos assassinatos.
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Não surpreende que propostas de “mão de ferro” rendam votos, como mostram as medidas de Bukele, que seguem populares apesar da clara escalada autoritária. Ao mesmo tempo, a expansão do cristianismo evangélico deslocou o debate para pautas morais conservadoras, reforçando a base eleitoral da direita em vários países.
Soma-se a isso o desgaste de regimes autoritários de esquerda na Venezuela e Cuba — e o efeito político de migração, que geram reações em países receptores como Chile, Colômbia e Peru. Por fim, a visibilidade internacional de Milei e Bukele alimenta a percepção, dentro e fora da região, de que líderes de direita “estão vencendo”.
Nesse contexto, analistas como Winter argumentam que a guinada atual não é um mero pêndulo eleitoral, mas sim de uma mudança de longo prazo, como foi o caso da “onda rosa” esquerdista dos anos 2000.
Porém, apesar de todos os sinais de ascensão conservadora, há razões sólidas para crer que se trata, em boa medida, de mais um ciclo político passageiro, ditado por circunstâncias econômicas e pelo humor volátil do eleitorado, e não de uma mudança ideológica duradoura.
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Observando as últimas duas décadas, fica evidente que o desempenho econômico é fator-chave na longevidade de qualquer “onda” política na região. A primeira onda progressista dos anos 2000 – a chamada “onda rosa” liderada por Chávez, Lula, Morales, Kirchner e outros – perdurou por vários ciclos em parte graças ao boom de commodities.
O forte crescimento econômico daquele período reduziu a pobreza, permitiu generosos programas sociais e garantiu a reeleição ou sucessão continuísta de diversos líderes de esquerda. Em contraste, as ondas posteriores foram bem mais curtas.
A guinada à direita em meados da década de 2010 (que levou ao poder líderes como Macrina Argentina, Kuczynski no Peru e Bolsonaro no Brasil) rapidamente perdeu fôlego quando esses governos enfrentaram recessões ou escândalos.
Da mesma forma, a “segunda onda rosa” do início dos anos 2020 – com Pedro Castillo no Peru, Gabriel Boric no Chile e Alberto Fernández na Argentina – acabou perdendo fôlego em um contexto de baixo crescimento econômico, levando a derrotas eleitorais da esquerda em 2023-2025.
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Em suma, sem crescimento e melhora tangível na vida da população, eleitores latino-americanos tendem a punir quem estiver no poder, seja de direita ou esquerda. Ou seja, a atual preferência por oposicionistas de direita pode refletir mais a fadiga com os governos de turno do que um endosso profundo a um projeto conservador.
Primeiros sinais disso já estão perceptíveis em países como Equador, onde o jovem presidente conservador Daniel Noboa viu os eleitores rejeitarem em referendo uma de suas propostas centrais (permitir bases militares estrangeiras), ilustrando que há limites claros ao mandato dado pela população mesmo a novos líderes de direita.
Há ainda o fator externo: o retorno de Trump intensificou a pressão dos EUA sobre a região; em alguns casos, isso ajuda aliados, mas em outros provoca nacionalismo e reação adversa, como mostrou a tensão em torno de tarifas e do caso Bolsonaro no Brasil.
Por fim, a mensagem da esquerda ainda encontra terreno fértil na região mais desigual do mundo. A indignação com a desigualdade e a defesa de programas sociais robustos continuam mobilizando milhões de eleitores – e, pelo menos por enquanto, é plausível acreditar que lideranças de esquerda continuem governando no Brasil e no México, as duas maiores economias da região.
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