O comércio internacional é uma das mais poderosas alavancas de crescimento econômico. Ao permitir que países se especializem de acordo com suas vantagens comparativas, o livre comércio amplia a produtividade, reduz custos e eleva o bem-estar agregado.
Seus benefícios, porém, vão além de preços mais baixos: a maior concorrência estimula a inovação, facilita a difusão tecnológica e integra economias a cadeias globais de valor, com efeitos dinâmicos sobre o crescimento de longo prazo.
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Apesar dessas virtudes amplamente reconhecidas pela teoria econômica, o mundo real impõe restrições significativas à abertura comercial. Os ganhos do livre comércio tendem a ser difusos, enquanto as perdas concentram-se em setores específicos, politicamente organizados. Essa assimetria alimenta pressões protecionistas recorrentes.
Nos últimos anos, a essas forças domésticas se somaram preocupações geopolíticas e de segurança nacional, transformando o comércio em instrumento explícito de disputa estratégica.
Tarifas, subsídios e barreiras não tarifárias voltaram ao centro das políticas econômicas, frequentemente sob o argumento de proteção ao emprego ou à soberania produtiva.
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Esse movimento ganhou força com a adoção de políticas protecionistas pelas principais economias, em especial nos Estados Unidos, onde tarifas passaram a ser usadas como mecanismo de barganha política.
O resultado tem sido a fragmentação do comércio global, o enfraquecimento das regras multilaterais e a elevação da incerteza quanto a investimentos e decisões produtivas.
Paradoxalmente, ao tentar proteger setores específicos, o protecionismo acaba reduzindo a eficiência econômica e o crescimento potencial, inclusive nos países que o adotam. Artigo recente da revista The Economist mostra que as tarifas impostas por Donald Trump prejudicaram até mesmo setores industriais que se pretendia favorecer.
É nesse contexto adverso que o acordo entre o Mercosul e a União Europeia deve ser avaliado. Longe de ser um acordo ideal, ele carrega excessos de salvaguardas, longos períodos de transição e concessões assimétricas, sobretudo na área agrícola.
Ainda assim, do ponto de vista econômico, o acordo cria uma âncora institucional relevante, reduz incertezas regulatórias e amplia o acesso a um mercado que reúne mais de 700 milhões de consumidores, estimulando investimentos e maior integração produtiva.
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Sob a ótica geopolítica, num cenário de erosão da cooperação internacional e do multilateralismo, o significado do acordo é ainda maior. Ele contribui para diversificar os parceiros comerciais do Brasil e reduz o risco de o País ficar preso à armadilha de ter que escolher um lado na crescente rivalidade comercial entre Estados Unidos e China.