Opinião | Aposta política do terceiro mandato de Lula deu certo?
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Opinião | Aposta política do terceiro mandato de Lula deu certo?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai encerrando o terceiro ano do seu terceiro mandato com boas chances de se reeleger para um quarto. Nesse sentido, mais uma vez ele demonstrou ser um político de muito faro e sorte.

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Lula iniciou seu terceiro período no governo federal com forte expansão do gasto público, no que foi visto por alguns analistas como uma arriscada inversão do chamado "ciclo político". Esse ciclo, considerado a trilha mais habitual dos governos, prevê uma freada de arrumação no início do mandato, e pé no acelerador no final, para que a próxima eleição presidencial coincida com um momento de economia pujante.

Lula não ignorou o ciclo político por capricho. Na verdade, com o País fortemente polarizado entre a esquerda liderada pelo PT e a extrema direita e direita lideradas por Bolsonaro, o presidente considerou mais prudente priorizar a política no início do seu mandato.

Além disso, era arriscado fazer um ajuste que freasse a economia depois de uma eleição em que Lula venceu por pequena margem, deixando a extrema-direita plenamente viva no cenário político brasileiro. Lula provavelmente temeu a perspectiva de iniciar o seu governo já nas cordas da popularidade muito baixa, contra um adversário violento como o bolsonarismo.

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Evidentemente, essa escolha política no início do mandato representou acentuado risco econômico, do qual o governo teve amostra de amargo sabor em dezembro de 2024. A época sazonal de desvalorização cambial combinou-se com um pico de desconfiança fiscal para produzir um cenário de descontrole dos mercados, com o câmbio atingindo quase R$ 6,3. O pânico exigiu a intervenção do BC, com variação líquida negativa da posição cambial da autoridade monetária de US$ 33 bilhões (incluindo US$ 20 bilhões de venda de reservas) em dezembro do ano passado.

Mas 2025 reservaria apenas boas notícias econômicas para Lula. A turbulência foi pacificada nos meses seguintes, e o câmbio recuou para a faixa de R$ 5,3-5,6 a partir de meados do ano. O PIB desacelerou de 3,4% em 2024 para uma projeção de algo em torno de 2,2-2,3% este ano, mas o desemprego bateu recorde de baixa e a renda do salário o recorde de alta.

Melhor ainda, o IPCA deve fechar 2025 abaixo do teto do intervalo de tolerância da meta de inflação, de 4,5%, o que não ocorreu nem em 2023 nem em 2024, os dois primeiros anos deste mandato, quando ainda prevalecia, para efeitos de cumprimento, a meta no ano calendário (a partir de 2025 a meta é contínua).

A volta do IPCA para o intervalo de tolerância deveu-se à firmeza e competência do Banco Central presidido por Gabriel Galípolo, mas também à valorização do câmbio e ao forte recuo da inflação de alimentos.

Todos esses bons resultados tiveram como pano de fundo, e como uma das causas, um cenário internacional favorável aos emergentes. E esse cenário, por sua vez, de forma irônica, é parcialmente devido ao "trumponomics", a política econômica extravagante de Donald Trump, que enfraqueceu o dólar globalmente. Já o duro pacote de tarifas aplicado pelo presidente americano ao Brasil teve efeito bem mais modesto do que o inicialmente previsto, em parte pelos recuos do próprio Trump na lista de produtos atingidos.

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Neste final de 2025 Lula emplacou também o projeto mais vistoso eleitoralmente do seu terceiro mandato: a isenção de IR até R$ 5 mil e redução até R$ 7.350. Junto com a economia favorável e várias outras benesses, a isenção compõe a munição do governo para a eleição do próximo ano.

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Mas é na economia que ainda há espaço para surpresas. O BC pilota no momento um pouso suave do PIB e deve começar a reduzir a elevadíssima taxa de juros em janeiro ou março. Ainda assim, o juro real extremamente alto por todo o terceiro mandato insuflou a dívida pública, que deve subir mais de 10 pontos porcentuais do PIB no período 2023-2026.

Do ponto de vista econômico, os riscos eleitorais de Lula para 2026 são uma combinação de eventual piora do cenário externo com o persistente temor fiscal - possivelmente amplificado por gastos eleitoreiros -, que poderia trazer de volta turbulência aguda como a do fim de 2024; ou uma freada mais brusca na atividade na esteira dos efeitos defasados da política monetária contracionista.

Nenhum dos dois riscos parece muito alarmante na fotografia de hoje. Em particular, estímulos em ano eleitoral como a isenção do IR podem contribuir para manter o gás na economia (mas se muito exagerados podem, por outro lado, reativar a inflação e também alimentar o temor fiscal que deságua em turbulência e disparada do câmbio; neste caso, poderiam atrapalhar o ciclo de corte da Selic).

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A cabeça de Lula não parece em consonância com essa visão sobre o seu eventual quarto mandato. A ver se, caso seja reeleito mais uma vez, o atual presidente vai provar, de novo, que é mais esperto que os economistas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

O colunista vai tirar a semana do Ano Novo de folga, e volta a escrever a coluna na terça-feira, 6/1/2026.