DAVOS - O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, está em Davos, na Suíça, para a nova edição do Fórum Econômico Mundial, que começa nesta segunda-feira, 18, e tem como estrela maior a presença do presidente americano Donald Trump.
Antes de participar de uma série de reuniões e encontros, o executivo falou com o Estadão/Broadcast sobre o que esperar para 2026. Entre as ponderações, a percepção de que o mercado de crédito deve mostrar desaceleração, na pessoa física e na jurídica, e a avaliação de que as captações das empresas no mercado de capitais também podem ser menores, caindo entre 10% e 20% por causa das eleições, que deixam a iniciativa privada na defensiva.
Noronha também engrossa o coro dos que defendem o papel técnico do Banco Central no caso da liquidação do Banco Master. Na política fiscal, o presidente do Bradesco argumenta que, independente de quem ganhar nas urnas este ano, o País tem um problema estrutural que terá de ser enfrentado, e Brasília precisa ao menos tentar estabilizar a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB). Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
Acho que o tema mais relevante é o aspecto da geopolítica mundial. Em segundo, é o tema da inteligência artificial e da produtividade nas economias.
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Em 2025, o PIBmundial deve ter crescido ao redor de 3,3%. A perspectiva para 2026 é muito parecida, de 3,2%. O impacto das tarifas não foi tão relevante assim, a economia mundial conseguiu absorver. A China está exportando deflação para o mundo, porque tem uma capacidade produtiva brutal. Então, muita coisa foi atenuada e o mundo vai crescer acima do Brasil.
Um crescimento ao redor de 1,5% em 2026, mesmo com um nível de desemprego bem baixo, na casa dos 5,5%. O que é surpreendente nesses últimos anos e vai continuar sendo é o mercado do trabalho e a massa salarial. A massa de renda também tem crescimento em 2026, porque o consumo das famílias ainda está sendo segurado por esse crescimento de renda que veio principalmente pelo salário.
Os investimentos vão ser um pouco mais amassados e compactados, crescendo pouco em 2026, ao redor de 0,5%. Essa expansão vem principalmente do setor público, de alguns municípios e Estados que estão muito capitalizados. A inflação deve ter encerrado o ano convergindo para a meta e para 2026 estamos trabalhando com 3,8% de IPCA. A Selic deve cair para algo como 12%, mesmo assim ainda um nível alto, com uma taxa de juros real na casa dos 9%. Vamos lembrar que tem eleição e o mercado costuma ficar um pouco mais volátil. Isso também pode ser um inibidor temporário do investimento na iniciativa privada.
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Em 2025, olhando até novembro, houve um crescimento ao redor de 6% nas captações no mercado de capitais. Com o fechamento de dezembro, a expectativa do nosso time de mercado de capitais é que o ano feche com um patamar acima de R$ 700 bilhões, volume muito expressivo, similar ao de 2024. Para 2026, pode haver uma queda de 10% a 20% desse volume global, porque você fica mais travado durante o período eleitoral. Então tem mais instabilidade.
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Vêm. Fizemos a primeira emissão do mercado de 2026, de US$ 750 milhões, e com um nível de taxa super convidativo. Havia até a expectativa de a taxa ficar um pouco mais alta. Foram bons compradores, com o livro cheio. E vêm mais coisas, está convidativa a demanda. A América Latina toda emitiu bem. Há previsão de corte de juros nos Estados Unidos e isso facilita também. Em 2025, foram captados no mercado US$ 36 bilhões, volume mais de 50% superior a 2024. Agora, espera-se uma queda também do volume, podendo ficar entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões em 2026, pelo ano eleitoral.
A expectativa é que haja desaceleração, considerando as previsões dos economistas para o mercado como um todo. Em 2026, a expansão deve ficar em 4,8%, comparado com alta de 8% em 2025
Na pessoa física, devemos sair de um crescimento de 10%, 10,5% em 2025 para ao redor de 9% este ano.
Exatamente, você tem inibição de investimentos. E o próprio apetite a risco, porque você tem riscos em certos públicos.
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Fora do Brasil, deve ter sim. Tem demanda para isso. No Brasil, para IPO ainda não estamos vendo essas janelas. O primeiro botão que você aperta para isso é a queda da taxa de juros. É a primeira variável que tem de estar na mesa. Com a queda de taxa de juros, isso vai ficar mais palatável. Mas quem sabe, mais no fim do ano pode haver algum IPO. Para follow-on (ofertas de empresas já listadas), achamos que há mercado. Por enquanto, o cenário é follow-on aqui, muito mais do que a IPO.
Estamos trabalhando com um cenário muito estável. Não vejo nenhuma explosão de inadimplência no Brasil. Há, sim, menos apetite a risco no mercado, de uma forma geral, por conta do próprio nível e comportamento da renda familiar, e obviamente, para as empresas que são menos capitalizadas, estão mais alavancadas. Então, o apetite a risco é menor nesses casos. E isso explica um pouco aquela desaceleração que a gente falou no crédito na pessoa física e jurídica.
Se você pegar as empresas em RJ, no ano passado, elas não estiveram fora de um patamar histórico. A segunda maneira de olhar é que tivemos uma concentração de RJ no agronegócio, em certas regiões e em certas lavouras. Houve uma certa indústria de RJ para tentar resolver alguns casos, que eventualmente até nem precisavam entrar em RJ. Então, eu não vejo nenhum tipo de espasmo aqui. É óbvio que uma taxa de juros real desse patamar atrapalha muito a empresa que tem uma margem mais comprimida e já tem algum grau de alavancagem, com dificuldade em pagar os encargos da dívida.
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Prefiro não fazer comentários aqui que não sejam institucionais, a Febraban nos representa. Vamos acompanhar o desfecho, né?
A defesa é uma defesa óbvia, a do papel do Banco Central. Você liquida banco aqui, nos Estados Unidos e em qualquer lugar. Eles têm de levar em consideração aspectos técnicos. Então, você pode ter certos debates, mas respeitando o caráter da Justiça.
O Brasil tem um desafio institucional grande na política fiscal. Ele se reflete no nível de dívida pública, que já supera 80% (na relação dívida/PIB). E o desafio para os próximos anos é ver essa dívida se estabilizar. E, do outro lado, a taxa de juros menor, porque os juros são um outro ofensor para o endividamento. Então, se você tiver uma combinação razoável aqui e conseguir estabilizar essa dívida, você controla bem. Mas é claro que tem de mexer com certas linhas do gasto público. É um desafio estrutural do Brasil, e vale para o ano de 2026 e para o próximo presidente. O ideal seria ver essa dívida pública caindo, mas pelo menos estabilizar a dívida é importante. O que não podemos ter é uma dívida que continua andando, porque se continuar, é o câmbio andando, com efeitos colaterais, como na inflação, você perde o valor dos seus ativos. O Brasil precisava estar crescendo a 3% ao ano para estabilizar a dívida e a taxa de juros tem de estar em 3%.