Entrevista | Trump quer EUA como ‘policial’ das Américas e tentará influir nas eleições do Brasil, diz analista
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Entrevista | Trump quer EUA como ‘policial’ das Américas e tentará influir nas eleições do Brasil, diz analista

Para o brasilianista e editor da revista Americas Quartely, EUA devem intervir em eleições na América Latina, como na Colômbia e no Brasil.

Para o brasilianista Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quartely, a invasão dos Estados Unidos à Venezuela representa um retorno à doutrina de “policiar” a América Latina, região compreendida pelos americanos como sua esfera de influência.

Embora a captura de Nicolás Maduro seja um marco histórico, não se trata, propriamente, de uma inflexão: segundo o analista, os últimos 35 anos sem intervenções no continente são uma exceção. Antes da ofensiva contra Maduro, a última operação militar dos Estados Unidos em um país latino ocorreu em 1989, com a abdução do ditador panamenho Manuel Noriega.

Segundo Winter, apesar do intento de “policiar” a América Latina, a capacidade de influir na região é incerta. Do ponto de vista tático, a operação contra Maduro foi um sucesso do qual Donald Trump colhe frutos. Porém, no médio prazo, quanto mais a intervenção na Venezuela se assemelhar a uma ocupação do país, mais presentes serão os “fantasmas” de Iraque e Afeganistão. Por essa razão, o brasilianista não acredita em uma era de grandes invasões e ocupações americanas.

Em contrapartida, se o governo Trump pretende influir em Caracas à distância, não está claro se poderá contar com a presidente interina Delcy Rodríguez. Nesse quesito, a liderança de María Corina Machado, atual Nobel da Paz, não deve ser descartada em definitivo.

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Para o especialista, mesmo com uma capacidade de influência incerta na América Latina, o presidente americano tentará intervir nas eleições da região, como a do Brasil neste ano. Segundo Winter, a frustração com o tarifaço levará Trump a não entrar “fortemente” no pleito brasileiro, mas é “claro” que o americano apoiará um opositor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A seguir, os principais trechos da entrevista:

Está claro que estamos voltando para o passado. Não é exatamente a mesma política que os EUA tiveram nos séculos 19 e 20, mas é parecida. Fala-se muito em Doutrina ‘Donroe’, uma modificação trumpista da Doutrina Monroe. Mas ao olhar para a história, o mais parecido é o Corolário Roosevelt, que basicamente deu aos Estados Unidos o direito de servir como “policial” na América Latina, para garantir a estabilidade no hemisfério e a segurança nacional dos EUA. A linguagem que Trump vem usando nos últimos dias é muito parecida com os argumentos que Theodore Roosevelt usava naquela época. Não acho que estamos voltando para uma época de grandes invasões e ocupações dos Estados Unidos. Isso é praticamente impossível pela opinião pública nos Estados Unidos, mas o entendimento dos EUA como o grande poder, o grande xerife, capaz de impor sua vontade no hemisfério, é muito parecido.

De fato, vamos olhar os últimos 35 anos como exceção, que se explica por vários fatores. Esse período começa com o fim da Guerra Fria. Não é coincidência. A partir daí, o mundo mudou. Não existia mais a ameaça de um poder externo, no caso, a União Soviética, no hemisfério ocidental. Então, os Estados Unidos passaram a tratar os países da América Latina como mais iguais. Não foi o único momento. Se você olhar para a política do good neighbor, o bom vizinho, nos anos 1930, a ideia dos EUA como parceiro de países da região também era presente. Novamente, foi uma exceção.

A década de 1990 é o período do consenso de Washington, onde a maioria dos países da América Latina estavam alinhados com os EUA. Depois, veio o 11 de setembro, e Washington começou a se preocupar menos com a América Latina e mais com o Oriente Médio. Em anos posteriores, houve mais preocupação com a China e a Ásia, e a América Latina seguiu relativamente ausente (das preocupações dos EUA), ou quase irrelevante. Isso claramente mudou.

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Fontes do governo Trump explicam o foco na América Latina como algo totalmente racional, que tem a ver, principalmente, com o fluxo de imigrantes e de drogas para os EUA, que aumentou muito durante os quatro anos do governo Biden, o que é um fato. Trump também vê o aumento da influência chinesa em uma região que se entende como parte da esfera de influência dos Estados Unidos. Às vezes, se pensa na “Doutrina Trump” como uma volta para o imperialismo, e talvez haja elementos disso, mas também há fundamentos relativos à segurança nacional dos EUA que não são novidades.

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    Não há dúvida de que o petróleo tenha sido um dos principais fatores dessa ação militar, mas duvido que seja o único. Presidentes americanos já agiram por vários motivos. O Woodrow Wilson agia por querer ensinar a América Latina sobre democracia. Outras intervenções aconteceram por interesses de empresas americanas. Acho que Trump está pensando não em valores, mas no que ele percebe como interesses nacionais dos Estados Unidos. É um erro falar em um motivo só. Vários fatores explicam essa intervenção e essa política mais altiva e agressiva na América Latina.

    É uma das grandes perguntas do momento. O Trump vai mesmo conseguir influir em um governo que, fora seu presidente, não mudou? Como ele vai coagir a Delcy Rodríguez e os outros funcionários venezuelanos a agir pela vontade dos Estados Unidos? Será que esse regime, que ainda é chavista, mudará seu comportamento? Se não mudar, quais são as opções para os Estados Unidos? Não está claro.

    Por um lado, acho que o Trump saiu fortalecido dessa operação. Pode-se discordar da missão, mas foi um megassucesso tático. Uma das operações mais bem-sucedidas das Forças Armadas dos EUA em muitos anos. Já começamos a ver pesquisas nos Estados Unidos que mostram um grande apoio dos republicanos para essas políticas. Esse apoio não seria automático. Em caso de mortes de soldados americanos, a operação poderia ter sido um fracasso humilhante a Trump. Também era possível a não captura do Nicolás Maduro. Ele está coletando os frutos do sucesso da operação, mas não está claro se terá condições de fazê-la uma segunda vez. É de se esperar que o regime chavista saiba, agora, que não se trata de blefe, e tenha reforçado sua segurança.

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    Também sabemos que os chavistas não se importam com o sofrimento do povo venezuelano. Marco Rubio falou muito nos últimos dias sobre um bloqueio naval às exportações de petróleo da Venezuela. Ao cortar essa fonte de ingressos, a economia venezuelana sofreria. Não seria a primeira vez. A capacidade do governo venezuelano de deixar seu povo sofrer é enorme. É um grupo com toda a vontade de sacrificar tudo, menos seu próprio poder. Não sei se o governo Trump influenciará tanto o comportamento da Delcy Rodríguez quanto parece achar.

    É muito cedo. O caso Zelenski nos mostra que Trump sempre pode mudar de opinião. Ele pode te insultar hoje e dar um abraço em você amanhã.

    Está claro que, por um lado, o Brasil conseguiu manter uma relação estável com o presidente Trump após dificuldades enormes. (A diplomacia brasileira) Chegou com muita habilidade e profissionalismo a um entendimento com o governo Trump, o qual acho que pode durar no curto e médio prazo. Por outro lado, está claro que o Brasil e muitos países da América Latina estão procurando diversificar suas relações comerciais e estratégicas para depender menos dos Estados Unidos. Não é uma ruptura, porque há grandes laços culturais e comerciais entre americanos e os povos latinos. A relação é profunda demais para isso, mas todos têm a mesma ideia, o mesmo instinto no curto e médio prazo, com a exceção dos países que estão totalmente alinhados com os Estados Unidos, como os casos de Argentina e El Salvador.

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    Marco Rubio falou muito sobre um bloqueio naval às exportações de petróleo da Venezuela. Ao cortar essa fonte de ingressos, a economia venezuelana sofreria. Não seria a primeira vez. A capacidade do governo venezuelano de deixar seu povo sofrer é enorme. (Os chavistas) têm toda a vontade de sacrificar tudo, menos seu próprio poder.

    Brian Winter, brasilianista e editor da Americas Quartely

    Está claro que os Estados Unidos têm uma política para a América Latina que é distinta à sua política para outras regiões do mundo. Isso repete em muito a experiência dos séculos 19 e 20 e passa pelo que Washington vê como interesses estratégicos, mas também pelo que é capaz de fazer, de se impor.

    Um dos principais fatores da política americana nos últimos anos tem sido a rejeição de qualquer intervenção militar semelhante às guerras do Iraque e do Afeganistão. Por vários motivos, o público americano parece encarar a América Latina de forma diferente. Ao mesmo tempo, não é uma carta branca, e acho que em algum momento toda essa iniciativa do governo Trump na Venezuela começa a se parecer cada vez mais com uma invasão. Nesse caso, a opinião pública americana rapidamente se oporia às ações, pois os fantasmas do Iraque e Afeganistão ainda estão muito fortes no imaginário popular.

    Há grandes possibilidades de Trump tentar intervir em eleições na América Latina neste ano. Ele vai estar encorajado pelo que entende como seus sucessos em 2025. Ele “conseguiu” influir em eleições em dois dos três casos que tentou. Ele fracassou no Brasil, pelo menos por enquanto, mas teve “sucesso” em Honduras e na Argentina.

    Acho que ele tentará influir na eleição da Colômbia. Duvido que ele entre fortemente na eleição brasileira, mas está claro que apoiará o candidato bolsonarista, seja Flávio Bolsonaro ou outra figura, mas não com o mesmo peso. Minha impressão é que ele se cansou do Brasil e passou a acreditar menos na força da família Bolsonaro. Às vezes, parece que só há uma coisa que o presidente Trump respeita, que é a força, e ao ver o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, e o senador Flávio numa posição desfavorável nas pesquisas, perdendo para Lula, Trump provavelmente ficou com dúvidas em usar seu poder para tentar ajudá-los.

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    Minha impressão é que ele (Trump) se cansou do Brasil e passou a acreditar menos na força da família Bolsonaro.

    Brian Winter, brasilianista e editor da Americas Quartely

    No curto prazo, a impressão que se cria é de fraqueza. A perda do líder máximo num espaço de três horas, sem causar nem sequer uma baixa americana, pareceu minar os argumentos que ouvimos durante anos sobre a relativa força do Exército da Venezuela. Essa avaliação pode mudar nas próximas semanas e meses. Está claro que os militares venezuelanos ainda mantêm o poder. Eles são o eixo central do país, têm controle não só sobre a segurança, mas sobre grande parte da economia e dos serviços básicos. Por isso, em parte, eles continuam governando.