Crescimento dos protestos aumenta a pressão sobre o governo civil do Irã e seu líder supremo, o Aiatolá Ali Khamenei. Crédito: AFP TV/UGC/Unknown; Newsflare/StringersHub via APVideoHub
Em meio a um apagão de internet iniciado na quinta-feira, 8, o Irã enfrenta uma onda crescente de protestos em diversas cidades, nos quais manifestantes exigem a destituição do governo islâmico.
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O bloqueio da internet ocorreu um dia depois de os chefes do Judiciário e dos serviços de segurança iranianos afirmarem que adotariam medidas duras contra qualquer pessoa que participasse das manifestações. As ameaças, no entanto, não dissuadiram os manifestantes.
Em entrevistas por telefone, mais de uma dúzia de testemunhas relataram ter visto grandes multidões se formando na noite de quinta-feira em bairros de Teerãe em cidades como Mashhad, Bushehr, Shiraz e Isfahan. Segundo elas, os protestos reuniram homens e mulheres, jovens e idosos. As pessoas ouvidas pediram anonimato por medo de represálias.
Um morador de Teerã afirmou que as multidões gritavam “morte a Khamenei”, em referência ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e “liberdade, liberdade”. Os cânticos podiam ser ouvidos a vários quarteirões de distância no bairro nobre de Shahrak Gharb, em Teerã, que até então havia se mantido alheio aos protestos.
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Vídeos gravados na noite de quinta-feira mostraram prédios do governo em chamas em diferentes regiões do país, inclusive em Teerã, à medida que os protestos se intensificavam. Embora as manifestações tenham sido majoritariamente pacíficas no início da noite, a violência eclodiu mais tarde na capital, com manifestantes incendiando carros, prédios e objetos nas ruas. Um vídeo verificado pelo The New York Times mostra incêndios nas ruas da Praça Kaj, com milhares de manifestantes ocupando a área.
Em Karaj, subúrbio a oeste de Teerã, outro vídeo verificado pelo jornal mostrou manifestantes correndo após disparos. Não está claro, porém, se os tiros partiram das forças de segurança.
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À medida que os protestos cresciam, os dados de conectividade indicaram uma queda abrupta e quase total no acesso à internet no Irã na tarde de quinta-feira, segundo a plataforma de monitoramento de rede NetBlocks e o banco de dados de Detecção e Análise de Interrupções da Internet do Instituto de Tecnologia da Geórgia. As informações indicam que o país está quase completamente off-line.
Autoridades iranianas não responderam de imediato a perguntas sobre a causa do bloqueio. O governo, no entanto, já impôs restrições semelhantes em momentos de crise. Durante a guerra de 12 dias com Israel, em junho do ano passado, o Irã cortou o acesso à internet, alegando ser uma medida de segurança necessária para impedir a infiltração israelense. Essa ação também interrompeu o fluxo de informações para o exterior.
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“O governo iraniano usa bloqueios de internet como ferramenta de repressão”, afirmou Omid Memarian, especialista iraniano em direitos humanos e pesquisador sênior da DAWN, organização sediada em Washington com foco no Oriente Médio. “Sempre que os protestos atingem um ponto crítico, as autoridades cortam a conexão do país com a internet global para isolar os manifestantes e limitar sua comunicação com o mundo exterior.”
Protestos começaram há uma semana
Os iranianos protestam contra o regime autoritário dos clérigos islâmicos há décadas, em ondas sucessivas de manifestações repetidamente reprimidas.
A atual onda de protestos começou há uma semana. Diversos grupos de oposição, incluindo grupos políticos curdos, o Conselho de Coordenação dos Partidos do Azerbaijão e o filho do deposto xá do Irã, Reza Pahlavi, convocaram a população às ruas. Em uma mensagem em vídeo, Pahlavi pediu que os opositores se manifestassem às 20h (no horário local) de quinta-feira.
Ativistas pró-democracia, como a vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Narges Mohammadi, atualmente presa, declararam, em comunicado conjunto com outros 17 dissidentes e cineastas renomados, divulgado na semana passada, que a demanda por democracia não poderia ser silenciada.
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Um morador da cidade de Bushehr, no sul do país, relatou que a multidão era tão grande que as forças de segurança recuaram. Em Isfahan, segundo outro morador, motoristas buzinavam e acenavam em apoio, enquanto pessoas em prédios próximos assobiavam em solidariedade aos manifestantes.
Em Sadeghiyeh, bairro de classe média de Teerã, um morador disse que a multidão crescia a cada hora. Ele afirmou que as forças de segurança dispararam tiros para o alto e lançaram gás lacrimogêneo, mas não conseguiram dispersar os manifestantes. Parte do grupo gritava “viva o xá”, em referência ao último monarca do Irã, deposto na Revolução de 1979.
O chefe da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento, Ebrahim Azizi, afirmou em uma publicação nas redes sociais que o “regime sionista” - em referência a Israel - estaria por trás dos protestos. “O quebra-cabeça da desestabilização foi acionado; um quebra-cabeça que a nação iraniana não permitirá que seja resolvido”, escreveu.
Um alto funcionário do governo, sob condição de anonimato, disse que muitos servidores públicos estavam se comunicando por telefone e mensagens de texto, sem saber como conter a avalanche de protestos. Segundo ele, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, normalmente responsável pela segurança das fronteiras, deve assumir o controle da situação.
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Os slogans entoados abrangiam uma ampla gama de visões políticas, mas com um objetivo em comum: o fim do regime islâmico.
O empresário Amir Ali contou que ele e amigos participavam dos protestos gritando: “Morte ao opressor, seja ele rei ou líder supremo” e “As ruas prevalecerão, o povo vencerá”.
Já Shima disse que saiu às ruas com o marido, os filhos adolescentes e os pais idosos pela primeira vez em família, entoando cânticos como “estamos juntos, não tenham medo” e “clérigos, sumam, o xá está voltando”.
Com a expansão dos protestos, o chefe do Judiciário do Irã, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i, declarou à mídia iraniana que as manifestações foram orquestrados por inimigos do país e que o governo não mostraria misericórdia. “Desta vez é diferente. Desta vez não há mais desculpas”, afirmou. “O inimigo anunciou oficialmente seu apoio. Digo ao povo e às famílias que desta vez ninguém será poupado.”
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A Anistia Internacional informou, em comunicado divulgado na quinta-feira, que documentou ao menos 28 manifestantes mortos nos últimos dias, incluindo crianças. Outras três organizações de direitos humanos - HRANA, Iran Human Rights e Hengaw - estimam que o número de mortos ultrapasse 40.
O influenciador e podcaster iraniano Amirparsa Neshat, apoiador dos protestos, foi preso após forças de segurança invadiram sua casa durante a madrugada, anunciou na quinta-feira Kaveh Rad, advogado e parente de Nesat, em publicação no Instagram.
Na quarta-feira, 7, centenas de homens invadiram um seminário xiita na cidade de Gonabad, saqueando o prédio e agredindo clérigos com “pedras e cassetetes”, segundo comunicado do diretor da instituição, Hujjat al-Islam Ismaeil Tavakoli. “Nós também estamos protestando contra os altos preços, mas protestos são diferentes de tumultos; as pessoas devem se separar dos arruaceiros”, afirmou.
Comerciantes e proprietários de lojas nos bazares tradicionais de cidades como Teerã, Tabriz, Isfahan, Mashhad e Kerman fecharam seus estabelecimentos em protesto contra a crise econômica e aforte desvalorização da moeda iraniana, segundo testemunhas e a mídia local. Esses mercados são o coração do comércio e da economia do país, e as paralisações prolongadas podem agravar ainda mais a situação econômica.
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