Opinião | O eco da inflação e os juros altos
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Opinião | O eco da inflação e os juros altos

Ano novo, vida velha. No começo de 2025, sobrava pessimismo. Matéria do jornal Valor Econômico, de 27/12/2024, registrava que a previsão média de 75 instituições financeiras para a taxa de câmbio no final do ano era de R$ 6,00. Houve quem falasse em R$ 6,80. Os maus augúrios no câmbio transbordavam para a previsão da inflação. Em fevereiro, a previsão para o IPCA do ano já era de 5,60%. Bem, deu xabu. O dólar fechou a R$ 5,50 (que era, vejam só, a previsão do Banco Master), com recuo de 11%, o que aliviou também a inflação, que ficou em 4,3%, muito inferior à profecia peçonhenta do mercado.

Pouco da queda do dólar pode ser atribuído à elevação dos juros. O fato é que a inflação brasileira é extremamente vulnerável ao preço das commodities. O Banco Central calcula o IPCA de produtos comercializáveis, cujo comportamento depende de condições internacionais. Para uma série temporal desde janeiro de 2000, cerca de 78% da variação anual do IPCA pode ser explicada pela oscilação dos produtos comercializáveis. Nossa inflação não depende apenas de nós, o que tira eficácia da política monetária e exige juros altíssimos, principalmente no contexto de uma política fiscal e creditícia expansionistas.

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Em 2025, tivemos mais sorte do que juízo. É urgente debater formas de aumentar a eficácia dos juros altos, a começar, claro, por uma regra fiscal crível. Mas a desindexação também deve ser item dessa pauta. Décadas após o sucesso do Plano Real, ainda vivemos numa economia indexada. Nessas condições, um choque de preços provocado pelos preços das commodities ou pelo dólar tende a reverberar por mais tempo, exigindo mais juros. A variação mensal do IPCA guarda uma correlação de 28,6% com a inflação registrada três meses antes. Nos EUA, essa correlação é de -0,05%, ou seja, não é significativamente diferente de zero.

O mesmo acontece no Reino Unido (com -0,04%) e na Alemanha (-0,0003%). A indexação também pode ser aferida pela baixa volatilidade mensal da inflação brasileira (isso porque a variação de preços de um mês ecoa na inflação dos meses anteriores, tornando o IPCA mais “pegajoso”). O coeficiente de variação - medida estatística tradicional para medir volatilidade - do nosso IPCA foi de 79% nesse século, ante 177% no IPC dos EUA, 242% na Alemanha e 166% no Reino Unido.

Por mais que seja politicamente inconveniente a discussão da desindexação de salários, contratos e ativos financeiros, ela é necessária para abrir espaço para juros mais baixos. Isso não tira, claro, a urgência de termos uma política fiscal mais responsável e prudente. Uma tarefa para a qual o atual governo não tem hoje os instrumentos - mas, principalmente, nem sequer a vontade.

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