Coletivos armados ampliam incertezas sobre a transição política na Venezuela após prisão de Maduro
politica

Coletivos armados ampliam incertezas sobre a transição política na Venezuela após prisão de Maduro

EUA anunciaram plano de transição em três fases para a Venezuela. Crédito: AP

Grupos armados ligados ao chavismo estão no centro das atenções na Venezuela, que passa por uma transição política após a prisão do ditadorNicolás Maduroem uma operação das tropas de elite americanas no fim de semana.

PUBLICIDADE

Nos últimos dias, homens armados à paisana foram vistos circulando pelas ruas de Caracas. Eles fazem parte de grupos conhecidos como “coletivos”, rótulo que pode abranger desde organizações sociais até grupos armados pró-Maduro.

A presença dos coletivos na capital venezuelana levantou dúvidas sobre como se dará sua atuação no período pós-Maduro, sob o governo interino da presidente Delcy Rodríguez. Desde o fim de semana, o governo americano diz que as decisões em Caracas são tomadas pela Casa Branca.

Parte dos especialistas ouvidos pelo Estadão avalia que a desmobilização desses grupos será um dos maiores desafios de uma eventual transição para a democracia. Segundo essa leitura, a atuação dos coletivos tem hoje como objetivo manter o medo e a ordem interna, dificultando a organização de protestos contra o regime. Outros analistas, porém, afirmam que não está claro qual é o real objetivo desses grupos.

Publicidade

O grupo mais numeroso entre os chamados coletivos, e aquele que concentra o poder real, é formado por policiais e militares que atuam à paisana, explica o professor Keymer Ávila, coordenador da especialização em Ciências Penais e Criminológicas da Universidade Central da Venezuela. Nos últimos anos, afirma, esses agentes têm executado o “trabalho sujo” do governo, liderando ações de repressão contra manifestantes contrários ao regime.

Segundo Ávila, esses grupos ganharam grande visibilidade durante o golpe de Estado de 11 de abril de 2002 contra Hugo Chávez e voltaram a ter protagonismo em momentos de crise e protestos urbanos contra o governo, como em 2007, 2014 e 2017.

O professor está entre os especialistas que veem na presença dos coletivos uma atuação articulada com as forças estatais regulares, voltada ao controle social e à manutenção da ordem interna. Brian Naranjo, ex-diplomata dos Estados Unidos que atuou em Caracas e foi expulso do país por Maduro, concorda com essa avaliação e vai além:

“Após a queda de Maduro, os coletivos estão sendo usados na Venezuela para manter o medo nas ruas”, disse Naranjo, em entrevista ao Estadão.

Publicidade

O ex-diplomata sustenta que esses homens atuam sob as ordens do ministro do Interior, Diosdado Cabello, e são uma das principais ferramentas do governo para manter as ruas sob controle. “Os coletivos já estão sendo mobilizados em grandes cidades de todo o país. O efeito disso é que, apesar de praticamente todos os venezuelanos estarem muito felizes com a saída de Maduro do poder, eles não podem expressar isso publicamente. Além disso, os coletivos estão ajudando o regime a ganhar tempo, para que Delcy Rodríguez e seu gabinete ganhem força, estabilidade e, com sorte, mantenham alguma unidade”, afirmou.

  • EUA anunciam plano de transição em três fases para a Venezuela

  • EUA anunciam plano de transição em três fases para a Venezuela

  • Trump quer EUA como ‘policial’ das Américas e tentará influir nas eleições do Brasil, diz analista

  • Trump quer EUA como ‘policial’ das Américas e tentará influir nas eleições do Brasil, diz analista

  • Delcy troca chefe de segurança e ministro da economia após Trump anunciar acordo por petróleo

  • Delcy troca chefe de segurança e ministro da economia após Trump anunciar acordo por petróleo

    Para Roberto Briceño-León, professor de sociologia na Universidade Central da Venezuela e fundador do Observatório Venezuelano da Violência, no entanto, ainda não há clareza sobre os objetivos dos coletivos neste momento.

    “Os coletivos são força de choque não policial, não oficial, que no passado foram utilizados contra manifestações da população. Mas, neste momento, não existe manifestação. Então, o que fazem esses grupos nas ruas? Que mensagem querem passar para os atores do governo, para a oposição?”, questiona o docente.

    Segundo Briceño-León, uma das principais questões para parte desses grupos é o fato de Delcy Rodríguez atuar em coordenação com os Estados Unidos, o que contraria o discurso anti-imperialista dos coletivos. Ele lembra que alguns desses grupos mantêm afinidade ideológica com o líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara e defendem a tomada do poder pela via armada, e não por meio de eleições.

    Publicidade

    Peso dos coletivos na transição divide especialistas

    CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

    Naranjo afirma que seria muito difícil para qualquer pessoa, exceto o próprio Diosdado Cabello, desarmar esses grupos e diz ter sérias dúvidas de que eles aceitem um processo de transição.

    “Trata-se de uma estrutura muito frouxa, fortemente movida por ideologia. Eles estão armados e enfrentá-los poderia ser bastante complicado. Seria também um alvo extremamente difícil até mesmo para as Forças Armadas dos Estados Unidos, exatamente pelas mesmas razões. Não são pessoas que aparecem prontas para enfrentar forças militares organizadas. Eles se misturam facilmente aos bairros populares e operários de qualquer cidade venezuelana”, disse o ex-diplomata.

    Ávila, por sua vez, avalia que os coletivos têm sido superestimados tanto política quanto militarmente. Segundo ele, a amplificação do papel desses grupos armados não estatais acaba sendo funcional para diferentes atores, inclusive setores mais radicais da oposição, o governo venezuelano e até o governo norte-americano.

    Para a oposição, afirma, essa leitura justifica a inação política ao reforçar a ideia de que enfrentaria um bloco criminoso, e não adversários políticos que detêm o poder governamental, contra os quais só caberia uma ação militar estrangeira. Para o governo, o discurso ajuda a intimidar protestos e legitimar o uso excessivo da força, além de infundir medo em quem aspire governar em um cenário pós-chavista.

    Publicidade

    “Esse discurso também serviria para justificar o uso excessivo e arbitrário da força pelo governo, que pode se apresentar, conforme a conveniência, como vítima desses grupos, alegando estar apenas se defendendo e restaurando a ordem e a legalidade contra bandos ou grupos criminosos, legitimando, assim, qualquer intervenção estatal. Por fim, como ocorre na conjuntura atual, o governo norte-americano justifica suas ações com base em uma simbólica luta contra o narcotráfico e contra o Tren de Aragua, outro grupo amplamente divulgado de civis armados — neste caso, uma organização criminosa.”

    A origem dos coletivos

    Roberto Briceño-León define os coletivos como grupos privados que se apresentam como organizações sociais. Parte deles, no entanto, também atua como grupo paramilitar armado, com conexões políticas com o governo e afinidade ideológica com o líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara.

    Os coletivos, como são conhecidos hoje, passaram por mudanças ao longo do tempo. Segundo o professor, seu surgimento remonta às décadas de 1980 e 1990, antes da chegada de Hugo Chávez ao poder na Venezuela, a partir de dissidências da guerrilha venezuelana, sobretudo de militantes que haviam atuado nos anos 1960. Em outras palavras, são pessoas que abandonaram a luta armada, aderiram ao processo de pacificação e optaram por uma forma distinta de atuação política urbana. Eram, em geral, jovens de classe média-baixa ou de setores populares, com influência e apoio de Cuba.

    Briceño-Leon explica que Chávez, por ser militar e ter chegado ao poder pelo voto, inicialmente não contava com a simpatia dos coletivos. “Chávez foi um político muito hábil e promoveu a cooptação política e econômica dos coletivos. Ele financiou esses grupos e destinou recursos para a criação de companhias, rádio e até circuito fechado de televisão.”

    Publicidade

    Se, na origem, os coletivos eram formados por civis, muitos deles jovens politizados, com a evolução do governo Chávez e, posteriormente, durante o governo de Nicolás Maduro, estabeleceu-se uma relação entre esses grupos e as forças policiais, conta o professor. Integrantes dos coletivos passaram a atuar como policiais, enquanto agentes de segurança passaram a trabalhar em conjunto com os coletivos.

    No primeiro ano do governo Maduro, Briceño-León disse que houve um fortalecimento dos coletivos. Na ocasião, os militares reivindicaram o monopólio estatal do armamento no país — isto é, que apenas a Força Armada tivesse direito ao porte de armas —, mas acabaram derrotados após os coletivos irem às ruas de Caracas em grandes protestos. O episódio culminou na queda do então ministro do Interior, Rodríguez Torres.

    “Com o passar dos anos e as crises econômicas do país, o governo não teve mais possibilidade de dar dinheiro para os coletivos e eles migraram para outras atividades, alguns se transformaram em grupos criminosos, outros se dissolveram e parte permaneceu apenas como pequenas organizações sociais, sem atuação violenta”, diz Briceño-León.