Trump diz que petroleiras americanas vão operar na Venezuela 'Nossas grandes petrolíferas vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura quebrada e começar a fazer dinheiro para o país', disse Trump. Crédito: The White House O fim do governo de Nicolás Maduro , após 12 anos no comando da Venezuela , traz novos contornos geopolíticos e econômicos. O país é uma potência petrolífera e, como ficou evidente nas afirmações do governo americano, o principal alvo é o controle da fonte de produção e venda do petróleo extraído do subsolo venezuelano . Um dos alvos do presidente americano, Donald Trump , parece ser o controle do fluxo de receita gerada pela venda de 70% da produção à China . Trump estaria buscando cortar essa influência chinesa, disse ao Estadão David Zylbersztajn , ex-secretário de Energia no governo de Mário Covas, em São Paulo, ex-diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e atualmente professor no Departamento de Energia da PUC-Rio. Com a potencial retomada gradual do setor na Venezuela, diante de uma enxurrada de petrolíferas americanas desembarcando no país, levando ao aumento da oferta mundial, Zylbersztajn observa que surge uma notícia nada boa para a transição energética mundial. “Isso, certamente, vai retardar os avanços das fontes alternativas de energia”, afirmou. Veja abaixo os principais trechos da entrevista: Publicidade Durante a entrevista que concedeu neste sábado, Donald Trump deixou escancarada a questão do interesse pelas reservas de petróleo da Venezuela, que são as maiores do mundo. Falou várias vezes. Até alguns dias atrás, o ponto principal do presidente americano era o narcotráfico, que atribuía a Maduro. Isso parece ter mudado dentro da agenda de Trump, ou não era explicitado. Não vejo como razão a garantia de suprimento do consumo do país. É mais uma agenda estratégica, geopolítica e econômica. Os EUA já são os maiores produtores do mundo, à frente de Arábia Saudita e da Rússia. E também os maiores consumidores, e não precisam do produto para seu consumo interno. O petróleo da Venezuela é ajustável aos padrões de refino das companhias que atuam no Golfo das Américas (antigo Golfo do México) . É um tipo de petróleo, mais pesado, que seria usado no Brasil na refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, mas nunca chegou aqui. Leia mais Infiltrado da CIA, captura adiada, abrigo frustrado: como EUA agiram na Venezuela e prenderam Maduro Infiltrado da CIA, captura adiada, abrigo frustrado: como EUA agiram na Venezuela e prenderam Maduro Trump diz que EUA governarão a Venezuela e vão ‘controlar reservas de petróleo’ Trump diz que EUA governarão a Venezuela e vão ‘controlar reservas de petróleo’ ‘Brasil poderia ter ajudado Venezuela na transição à democracia, mas nunca fez isso’, diz Tarcísio ‘Brasil poderia ter ajudado Venezuela na transição à democracia, mas nunca fez isso’, diz Tarcísio Sim, vão chegar pesadamente. Por duas razões principais. Primeiro, a econômica: vão chegar a um lugar com reservas abundantes de petróleo. São as maiores do mundo, com mais de 300 bilhões de barris. E com a vantagem de encontrarem as áreas todas mapeadas. O tempo para iniciar produção será bem mais curto, menos de cinco anos, ante oito a dez se tivessem de iniciar do zero. Em segundo lugar, vão junto com o governo americano. Há uma relação umbilical entre o governo dos EUA com as empresas petrolíferas locais. Atualmente, 70% da produção da Venezuela é exportada para a China. Esse fluxo é o grande gerador de divisas para o país. Cerca de 70% do orçamento do país é atrelado à extração de petróleo. É a maior reserva conhecida do mundo. Só tem o trabalho de chegar lá e tirar do subsolo. Com isso, passa a ter um controle de mercado, e geopolítico, reduzindo a dependência do Oriente Médio. O mercado passa a ter outras alternativas de suprimento. Publicidade Num primeiro momento, o preço do barril, que está cotado pouco acima de US$ 60, pode ter movimentos de alta por causa da instabilidade na Venezuela. Mas, no longo prazo, com aumento da oferta, viria a ter uma queda acentuada. Os EUA ganham mais diversidade, maior segurança energética e cortam o fluxo de divisas vindo da China. Além disso, quebraria a influencia russa, que é sabido, está vinculada à receita do petróleo em troca da venda de armamentos e equipamentos militares, e também segurança. Terá impactos geoeconômico e geopolíticos. A indústria do país perdeu vigor, perdeu capacidade de produção à medida que a estatal, PDVSA, foi sendo inchada de funcionários com o apadrinhamento político. Muitos profissionais altamente técnicos foram expatriados, se tornando imigrantes a contragosto. A empresa inchou quatro vezes e a produção caiu quase na mesma proporção, de quase 4 milhões de barris para menos de 1 milhão de barris ao dia, atualmente. Ele se refere ao não reembolso por parte do governo venezuelano, que perdeu uma demanda de arbitragem realizada em Londres. As empresas não foram reembolsadas pelos ativos expropriados e Trump qualifica isso como roubo de petróleo dos EUA. Atualmente, somente atua no país a Chevron, com licença especial do governo americano. Ela não paga royalties e o petróleo extraído só pode ser exportado para os EUA. Publicidade PUBLICIDADE Em um primeiro momento, o País pode ser favorecido se a China tiver as vendas da Venezuela cortadas. Terá de buscar alternativas de mercado no Brasil ou na Rússia. Hoje, o petróleo é o primeiro item da balança de exportação do Brasil, que também importa, principalmente derivados. É uma noticia nada boa para a transição energética no mundo. Vai retardar o avanço das fontes alternativas, de energias renováveis, que podem se tornar menos competitivas com recuo dos preços do petróleo. Não haverá um poder de força de governos para controlar isso. As forças de mercado é quem vão mandar.