O Brasil é um país, no cenário global, em que a economia heterodoxa exerce particular influência na academia e até mesmo na política econômica, em determinados períodos. Um trabalho dos economistas Theodoro Sposito e Felipe Almeida, da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, investiga mais a fundo a importância da economia heterodoxa no Brasil, com abordagem histórica e empírica. Eles procuram avaliar também se o status da visão heterodoxa da economia vai se manter no futuro.
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Em termos históricos, os autores mostram, entre outros fatos, como a Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec) teve uma preocupação pluralista desde a sua fundação em 1973, motivada em parte pelo cuidado da Fundação Ford (importante promotora do desenvolvimento do estudo de Economia no Brasil) com sua imagem em termos ideológicos, num período de ditadura militar no Brasil.
Assim, já em 1973, a heterodoxa (em termos de economia) Universidade de Campinas, influenciada pela estruturalista Cepal, tornou-se membro da Anpec, apesar de ameaça de boicote e desligamento por parte da ortodoxa Fundação Getulio Vargas (FGV).
Mais tarde, o "pluralismo metodológico" no ensino de economia no Brasil se tornou norma oficial. E a heterodoxia da Unicamp se disseminou por outros departamentos de Economia do País, enquanto a UFRJ se tornava também um importante centro dessa abordagem. A Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) e outras entidades, como a Associação Keynesiana Brasileira (AKB), também contribuem para fortalecer o estudo da economia heterodoxa no País.
Sposito e Almeida mostram também que os currículos e o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) incluem temas heterodoxos de economia marxista e pós-keynesiana, e o arcabouço institucional das universidade públicas no Brasil garante forte liberdade de orientação aos professores.
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Na parte quantitativa, os autores analisam mais de duas décadas de trabalhos econômicos que receberam os prêmios mais prestigiosos no Brasil, e 4875 documentos publicados entre 2001 e 2023 nas revistas acadêmicas de Economia brasileiras.
Entre os principais resultados encontrados, a heterodoxia representou apenas 9,5% dos artigos premiados no Prêmio Haralambos Simeonidis, mas 34,5% das teses vencedoras do Prêmio CAPES e 28,9% das teses premiadas pelo BNDES. Além disso, economistas heterodoxos são 20,55% dos bolsistas classificados como de produtividade acadêmica nível 2 e 22,41% dos classificados como nível 1. Entre os bolsistas de nível 1A (de maior produtividade), 50% são heterodoxos.
O sistema Qualis (de classificação de publicações acadêmicas), por sua vez, estabelece classificações elevadas para revistas heterodoxas, como o Cambridge Journal of Economics e o Journal of Post Keynesian Economics, que mantiveram a classificação A1 ao longo dos ciclos de avaliação.
Por outro lado, a descontinuação do sistema Qualis após o ciclo 2020-2024 pode representar um risco significativo para a economia heterodoxa no Brasil, segundo Sposito e Almeida. Sem o Qualis, há o risco de que a avaliação de programas de pós-graduação e a concessão de bolsas por produtividade se tornem menos favoráveis às abordagens heterodoxas, pondo em xeque o "pluralismo" que caracteriza o ensino de Economia no Brasil
A análise de prêmios e publicações realizada pelos autores revelou ainda que a economia pós-keynesiana é a tradição heterodoxa mais prestigiada no Brasil, sendo responsável pela maioria das premiações e publicações em revistas de alto impacto. Já outras tradições heterodoxas ocupam posição mais marginal, semelhante ao que ocorre no cenário internacional.
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Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/1/2026, quarta-feira.