Entrevista | ‘Moradia popular não precisa ser feia’, diz Roberto Justus, à frente de empresa do setor imobiliário
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Entrevista | ‘Moradia popular não precisa ser feia’, diz Roberto Justus, à frente de empresa do setor imobiliário

O empresário Roberto Justus busca trazer inovação para o mercado com o método construtivo chamado steel frame. A meta é atingir faturamento de R$ 1 bilhão.

Roberto Justus, de 70 anos, passou quase quatro décadas no mercado de publicidade até vender sua empresa, a Newcomm, para o grupo de mídia WPP, em 2015. Há dois anos, resolveu se aventurar no mercado imobiliário, apostando em um segmento ainda em desenvolvimento no País: a construção de casas com estruturas de aço, chamadas de steel frame.

Conhecido pelo programa de negócios “O Aprendiz”, versão brasileira do “The Apprentice”, programa original apresentado por Donald Trump nos Estados Unidos, o empresário diz ter preocupação estética com as casas voltadas ao segmento econômico e, junto à eficiência construtiva, esse é seu principal diferencial.

“A gente tem uma questão muito estética aqui. A casa popular, a casa mais barata, ela não precisa ser feia. Queremos romper esses paradigmas do design”, afirma Justus.

A construção com steel frame tem a proposta de acelerar o período de obras e reduzir a necessidade de mão de obra — a dificuldade de encontrar trabalhadores na construção civil é uma das principais reclamações do setor imobiliário. Com esse método construtivo, uma casa é montada em quatro dias e fica pronta para morar em três meses. Isso ocorre porque 70% ou mais do que seria o tempo da obra é feito dentro da fábrica.

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Neste ano, a empresa esteve envolvida em uma polêmica. A Reag, investigada pela operação Carbono Oculto da Polícia Federal, tinha uma participação de 30% na SteelCorp. Com o início da investigação, Justus recomprou a parcela que estava nas mãos dos gestores do fundo. Agora, a divisão societária conta com Daniel Gispert, presidente da SteelCorp, com 15%; Marcelo Pieruzi, presidente do SteelBank (securitizadora da empresa), com 3%; e Justus, com os 82% restantes.

Leia os principais trechos da entrevista a seguir.

Por acaso, surgiu uma oportunidade nesse ramo que eu já tinha ouvido falar, mas eu nunca tinha me aprofundado. Eu tinha muitos amigos no meio da construção civil sempre se queixando de uma série de aspectos. Quando fui estudar um pouco mais a fundo quais as principais dores desse setor, percebi que era uma área que evoluiu muito pouco. Aí, surgiu uma oportunidade: um casal de irmãos me oferecendo serviços me mostrou a empresa que tinham. Eu resolvi me interessar pelo assunto e entrei no negócio deles, não como sócio ainda no início, mas falei que eles tinham um problema sério de gestão no grupo e eu acabei entrando lá e fazendo um investimento. Eu tive que avalizar um empréstimo para botar na empresa e limpar o passivo.

Os irmãos donos dessa empresa tinham um pensamento em termos de governança, de compliance, totalmente diferente do que eu penso. Não estou aqui julgando, mas eu não tenho mais idade para entrar em negócio de risco, onde, vamos dizer, o comportamento empresarial não bate com como eu gostaria que fosse. Então, comprei a construtora e o banco. Tinha uma securitizadora chamada SteelBank e eu a trouxe de volta. Antes disso acontecer, eu cheguei para os irmãos e falei: “Olha, para esse troço poder continuar antes da decisão de comprar, eu vou botar um cara que eu conheço do mercado, que tem 24 anos de uma construtora que foi durante muito tempo referência de qualidade de construção civil, que era a Lock Engenharia”. O cara é o Daniel Gispert que era um jovem quando entrou na empresa, com 20 anos de idade, hoje já está com 47.

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Não tem muita relação entre o meu estilo de vida, as minhas coisas com o meu negócio. Eu fico muito mais realizado em poder trazer benefícios e trazer moradia num projeto social desse tamanho, que é criar moradia popular barata, de boa qualidade, esteticamente mais legal do que é feita hoje. Tudo isso me deixa muito orgulhoso e muito realizado. Não tem nada a ver com o meu estilo de vida. Eu posso ser um empresário, você vê os grandes empresários de varejo popular tem a vida deles diferente do que (a das pessoas para as quais) eles estão vendendo. Então, uma coisa não tem muita ligação com a outra. Mesmo no meu mundo, onde eu vivo do meu estilo, não significa que eu não tenha sensibilidade para poder lidar com as necessidades do povo, do meu País. Eu não consigo nem olhar mais para a versão 1.0 (das casas da SteelCorp), porque eu sou muito estético. A estética vem da minha sofisticação, do meu jeito, e eu quero trazer isso para essas pessoas.

Eu não tenho dúvida de que eu consigo criar um alto-falante. Empresas importantes nacionais e até multinacionais já me agradeceram ter entrado nesse setor. Nós trouxemos uma luz diferente a ele. Essa história que eu criei com televisão, principalmente com com programa de negócios, não tanto os outros que eu fiz, essa visibilidade que eu criei realmente ajuda a trazer uma voz importante para divulgar e para quebrar os paradigmas, as resistências e trazer uma nova proposta do setor de construção industrializada para dentro da construção civil. O resto é um pouco da minha credibilidade que eu construí com as atitudes, com a forma de trabalhar durante a vida toda. São quase quatro décadas como empresário, sem nunca ter tido nenhum problema, pelo contrário, sempre construindo, montando equipes, investindo, fazendo, independentemente de que tipo de governo. Eu sempre falo: ‘vamos construir o Brasil, vamos nos preocupar com fazer, independentemente do cenário ser mais ou menos hostil, porque não é fácil ser empresário no Brasil’. Mas a gente tem condição de fazer se tem vontade. Eu invisto no meu País. Eu podia morar fora do meu País, e não quero. Eu amo esse País. Quero investir aqui, quero continuar aqui e quero fazer aqui.

Estou investindo nos Estados Unidos também porque é um mercado muito interessante. Teve uma oportunidade lá, a gente foi para lá, e era muito cedo ainda. Talvez tivesse sido um pouco mais para frente, mas a gente aproveitou essa janela de oportunidade e investiu na fábrica lá, que é um pouquinho diferente da do Brasil, mas é tocada por brasileiros. A gente tem esse lado (do negócio) que é o Brasil crescendo para fora do Brasil, inspirado em outros grandes empresários. O maior deles, o Grupo JBS, que é o maior grupo econômico desse País, tem 70% da sua receita lá fora. A gente acha que também é interessante essa evolução e trazer o nosso charme, o estilo. A arquitetura respeitada das casas populares americanas que chamam de affordable houses são feias. Eu sou chato com isso, nós estamos levando uma arquitetura toda. Desde Niemeyer para cá, temos muitos nomes importantes de arquitetos de talento nesse País. A nossa engenharia também é muito criativa, é muito boa. Os nossos engenheiros são respeitados, tem muita gente trabalhando fora do País.

A gente fala que escala e qualidade de design caminham juntos. Quando a obra nasce dentro da fábrica, ela tem de ter essa característica. A gente tem uma questão muito estética aqui. A casa popular, a casa mais barata, ela não precisa ser feia. Queremos romper esses paradigmas do design. Seja porque o mercado pratica um design totalmente diferente, ou porque o mercado da indústria até agora veio com módulos. Até dois anos atrás, falava-se de projetos modulares, falava-se de contêiner. Nós não somos contêiner, a gente faz casa com cara de casa.

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Tarifaços não têm nenhum impacto na SteelCorp. Nos Estados Unidos, a gente não importa do Brasil, a gente compra todos os insumos do mercado local. Então, não afeta a nossa fábrica lá. E no Brasil, eventualmente, também não tem grandes problemas em relação aos tarifaços. Nós não somos exportadores também. Enfim, o próprio fato do aço do Brasil não estar indo para os Estados Unidos também dá uma boa estabilidade no preço no mercado local, pela oferta um pouco maior. Mais oferta de aço no mercado sempre é bom para os preços no mercado local. Então não tem nenhum prejuízo. O juro a 15% no Brasil afeta todos os negócios, não só a SteelCorp como todo mundo. Você precisa de crédito para crescer e paga um custo financeiro elevado. Isso realmente impacta, mas a gente tem andado do mesmo jeito e tem feito os financiamentos dentro da necessidade, encarando esse impacto do juro alto no Brasil.

A gente já esteve, por exemplo, na Cury, que é um dos maiores negócios, se não for o maior hoje. O Fábio (Cury, CEO da empresa) é muito meu amigo, ele é o principal acionista. A gente ainda não tem interesse em fazer, por enquanto, o vertical. Nossa fábrica é feita para produzir as casas que têm muita demanda no Brasil. Então, não temos necessidade (de entrar no negócio de prédios). Mas nós estamos tentando trazer ele (Fábio Cury). Estamos estudando para fazer projetos junto com ele. Já estivemos na Plano&Plano, já estivemos com todo mundo. Todos estão atentos. Eu não estou dizendo que dessa água não beberei, porque a gente pode entrar também no vertical lá na frente. Dá para fazer várias coisas. Mas o prédio inteiro em live steelframe não se paga. Tem condição técnica de levantar um prédio híbrido, onde a gente usa um pouco mais de aço pesado e o resto dá para fazer (com steel frame).

No Brasil, serão R$ 800 milhões. Nos Estados Unidos, serão mais R$ 200 milhões. Essa é a nossa meta para o ano que vem.

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