Entrevista | ‘Mais países estão comendo carne, e nunca tivemos acesso a tantos mercados’, diz CEO da Minerva
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Entrevista | ‘Mais países estão comendo carne, e nunca tivemos acesso a tantos mercados’, diz CEO da Minerva

Victor Campanelli é um dos principais e mais tecnificados pecuaristas do Brasil. Crédito: Júlia Maciel | Estadão

O Ocidente e o Oriente estão se aproximando em termos de hábitos alimentares. Mesmo países do Sudeste Asiático que costumavam consumir pouca carne bovina agora estão virando mercados significativos e de forte crescimento para o setor. A tendência beneficia a América do Sul, e o Brasil, em especial, que são os maiores exportadores pecuários pelo mundo.

Para ajudar ainda mais os produtores da região, há uma crise na criação de gado no Hemisfério Norte, por conta de custos altos e de menor competitividade frente aos países do Sul, defende o diretor presidente da Minerva Foods, Fernando Queiroz, membro da família controladora da terceira maior empresa de proteína animal do País, atrás apenas da JBS e da MBRF, resultante da fusão este ano entre Marfrig e BRF.

Dessa forma, mais países do mundo devem depender ainda mais do Brasil para a sua segurança alimentar. Isso tudo também explica como um movimento como o tarifaço promovido pelo presidente americano, Donald Trump, contra a carne brasileira teve vida curta. “Os Estados Unidos passam por uma substituição da produção local por importações, até para manter a inflação sob controle”, diz Queiroz. “Sem dúvida nenhuma, isso pode ser um fator que contribuiu (para a derrubada do tarifaço pouco depois de entrar em vigor).”

Leia os principais trechos da entrevista.

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A Minerva sempre foi muito fiel ao seu plano de negócio, que é focado em carne bovina e com uma estratégia de diversificação geográfica. Hoje, somos diversificados com produção no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Colômbia e na produção de ovinos no Chile e na Austrália. Com essa plataforma, nós suprimos mais de 100 países ao redor do mundo. Temos estruturas internacionais em 20 regiões que atendem à grande maioria desses países. Estamos na China, em Singapura, Filipinas, Estados Unidos e no Oriente Médio, atendendo de forma centralizada a partir de Dubai, que é o nosso hub principal de vendas. Também somos importantes fornecedores para os mercados internos nos países em que temos produção. Especialmente para os de Brasil, Argentina e Colômbia, que têm mercados bastante pujantes. Em 2025, fizemos a integração dos novos ativos comprados e tivemos um crescimento significativo. Com tudo isso, somado a novos acessos a mercados, terminamos o ano de uma forma positiva.

Existe uma redução muito grande na produção do Hemisfério Norte como um todo. Não só nos Estados Unidos, mas também na Europa. E mesmo na China ela começa a dar sinais de redução.

Por questão de custo de mão de obra, de escassez de água, de custo de energia e de regras de sustentabilidade. Todos esses fatores fazem com que o Hemisfério Sul, e, especialmente, a América do Sul, seja o grande motor de produção do mundo e tenha uma grande competitividade. Por ser a região do planeta com mais disponibilidade de água de superfície, que tem condições climáticas favoráveis, que tem tecnologia e mão de obra, e, principalmente, com um sistema sustentável de produção, estamos bem posicionados. Nós nunca tivemos acesso a tantos mercados.

Baseada nessa análise, a Minerva colocou os esforços de crescimento nessa região, diversificando em estados e países da América do Sul. Isso servia no início como uma proteção, uma mitigação de risco na parte sanitária, climática e cambial. E ela se provou também ser um mitigador de risco na parte de tarifas. Por conta da geopolítica, a diversificação passou a ter, nos últimos meses, uma importância muito grande. Somos o primeiro ou o segundo maior exportador dos países em que estamos. Exportamos 70% do que produzimos. Na América do Sul, como um todo, a gente se consolidou como o maior exportador, e ela é a principal região exportadora do planeta. A América do Sul tem em torno de 40% de participação do mercado mundial e a Minerva, com as últimas aquisições que fizemos, passou a ter entre 25% e 30% da região. Ou seja, temos algo entre 10% e 12% de participação das exportações mundiais, o que nos faz relevantes.

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A produção dos Estados Unidos é muito local, voltada para o próprio mercado americano. O país é pouco exportador, e cada vez menos vende para fora. Por causa dos custos altos e até por uma questão estrutural, os Estados Unidos passaram a ser um importador em termos líquidos. Hoje, os dois maiores destinos da Minerva são o Sudeste Asiático, liderado pela China, e a região do Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), liderada pelos Estados Unidos.

Ajudar é uma palavra forte, mas a diversificação deu para a gente uma mitigação de riscos. Termos operações em diferentes países com diferentes regimes tarifários para vender para os Estados Unidos permitiu que continuássemos exportando para lá.

O que foi fraco para o Brasil, não necessariamente foi fraco para o Uruguai, para a Argentina, para o Paraguai, que são países também que exportam para lá também. Então, essa é a beleza da diversificação geográfica e dessa mitigação de risco. E a flexibilidade e agilidade de você direcionar as vendas de um mercado a outro é uma das chaves para o desempenho do setor de carnes. O mundo está cada vez mais volátil.

A fábrica de carne é a fêmea, a vaca. Um dos indicadores que nós monitoramos são os ciclos de quando se tem muito abate de fêmea, e não a retenção delas. E já há alguns anos, está se abatendo muitas fêmeas nos EUA. Isso prejudica. E a gente vê isso como algo estrutural. É um sinal de que o ciclo se estende. O interessante de ver nos Estados Unidos e na Europa é que, mesmo com a subida de preço da matéria-prima, do bezerro, o criador não está retendo fêmeas, o que significa que esse ciclo está se alongando ou é estrutural. Outro ponto relativo aos Estados Unidos e à Europa é a sucessão. Os produtores, especialmente, os pequenos e médios, têm filhos que não querem ficar e passar a vida no campo. Então, muitos deles acabam vendendo as propriedades para uma indústria mais mecanizada, normalmente, no setor de grãos. E esses grãos não são só utilizados na ração animal, mas também cada vez mais para produzir biocombustível. Existe uma produção crescente de etanol feito de milho. Aqui no Brasil, inclusive, também isso acontece com a soja como base para o biodiesel. Mas é diferente na América do Sul. Os subprodutos originados ou produzidos pela indústria de biocombustível voltam para o setor de carne, como parte de ração animal. O farelo de soja volta para complemento da alimentação do ovino. O subproduto da indústria de etanol, de milho, também é muito eficiente como base de ração animal. Então, temos uma dinâmica aqui na América do Sul muito forte e muito positiva, em que os resíduos de outras agroindústrias são usados na alimentação da pecuária.

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    Houve em 2024 e a gente acredita que 2025 feche superando o ano passado. Mas, no Brasil, você vê um ciclo normal e positivo de aumento de produtividade, tanto na questão de produzir mais e em menos tempo, como de abate de animais mais jovens. Existe aqui algum ciclo natural de abate de fêmeas, mas que faz parte da melhoria de produtividade, natural da indústria. Não é uma coisa estrutural, como acontece no Norte.

    Sim, pode ocorrer. Nós percebemos que, mesmo em momentos de economia não tão forte, existe uma demanda inelástica do consumo de carne bovina. Mesmo subindo os preços há uma manutenção da demanda.

    O que acontece, por exemplo, é as pessoas comprarem menos cortes para churrasco, e mais carne moída. Existem algumas mudanças assim, mas permanecem comprando carne bovina, o que mostra uma estabilidade do consumo. Especialmente nesses momentos de promotores de emagrecimento em que as refeições passam a ter mais proteínas e menos carboidratos.

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    Existe uma demanda crescente. Obviamente, esses fatores operam aqui para o Ocidente. Mas, a Ásia como um todo está consumindo mais carne de boi. Especialmente no Sudeste Asiático. Existe uma universalização de hábitos alimentares, com cada vez mais consumo de proteínas e de carne bovina.

    O Sudeste Asiático. Existe ainda uma diferença a ser tirada em relação a países com um consumo importante.

    Filipinas, Malásia e Singapura também. E tem o exemplo dos Estados Unidos, que passa por uma substituição da produção local por importações, até para manter a inflação sob controle.

    Não temos dados ou informações sobre isso, mas, sem dúvida nenhuma, pode ser um fator que contribuiu.

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    Não acredito nisso, porque a carne é um produto tipicamente do mercado local. E quanto mais e quanto melhor você vende por exportações, mais competitivo você também fica no mercado local. Então, eu não acredito que vire tema de eleição e de preocupação.

    Uma economia com juros mais baixos tende a ser mais saudável. A gente não espera uma grande surpresa, algo muito radical, mas uma gradualidade saudável. Não deve haver um crescimento explosivo, nem movimentos radicais.