Opinião | A intervenção militar dos EUA ecoará muito além da Venezuela
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Opinião | A intervenção militar dos EUA ecoará muito além da Venezuela

Ataque à Venezuela é mais um sintoma do fim do sistema de regras criado pelos EUA após a 2ª Guerra. Crédito: TV Estadão

As reações públicas de lideranças políticas latino-americanas seguiram, como era de se esperar, linhas ideológicas. O presidente argentino, Javier Milei, celebrou o ataque como um golpe contra o autoritarismo, enquanto o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, o condenou como uma violação da soberania e do direito internacional.

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Os ataques militares americanos em Caracas e em outras regiões do país vêm sendo frequentemente descritos como a primeira intervenção direta dos EUA na América Latina desde o Panamá, em 1989. Esse enquadramento, porém, não captura o essencial. A América Latina não é um espaço estratégico homogêneo, e costuma-se ignorar o quão limitados são, por exemplo, os vínculos entre o Brasil e a América Central.

O ponto central é outro: trata-se da primeira vez que os Estados Unidos lançam ataques militares explícitos contra um governo da América do Sul com o objetivo de derrubá-lo. Para uma região que há décadas se orgulha de estar relativamente livre de guerras interestatais e de figurar entre as áreas de menor risco geopolítico do mundo, isso representa um divisor de águas.

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Do ponto de vista de países como Brasil ou Chile, a invasão do Panamá foi preocupante, mas distante. O Panamá é um pequeno país centro-americano, historicamente ligado a interesses estratégicos dos EUA em torno do canal. A Venezuela é algo completamente diferente.

Trata-se de um grande país sul-americano, geograficamente central, politicamente influente e detentor das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Uma ação militar americana nesse contexto obriga, inevitavelmente, as forças de defesa de toda a América do Sul a reavaliar sua própria vulnerabilidade diante do poder de Washington — algo que poucos haviam considerado seriamente depois do final da Guerra Fria.

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    Durante grande parte do período pós-Guerra Fria, os países sul-americanos operaram sob uma suposição tácita: quaisquer que fossem as divergências com Washington, a era das intervenções militares diretas dos EUA contra governos ao sul do Canal do Panamá havia ficado para trás. Essa suposição moldou decisões de compra de armamentos, estratégias de alianças e avaliações de risco. O ataque à Venezuela destrói essa premissa. Mesmo governos amplamente alinhados aos Estados Unidos agora se veem obrigados a enfrentar questões incômodas sobre dissuasão, autonomia e estratégias de proteção.

    Na Venezuela, três cenários gerais se desenham. O primeiro é uma vitória americana sobretudo simbólica, na qual o chavismo permanece mais ou menos intacto, com Delcy Rodríguez ou outro aliado de Maduro assumindo formalmente o comando. Um segundo cenário envolveria ampla mobilização popular interna combinada com deserções de elites — inclusive dentro das Forças Armadas — levando ao colapso rápido do regime por dentro.

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