Ataque à Venezuela é mais um sintoma do fim do sistema de regras criado pelos EUA após a 2ª Guerra. Crédito: TV Estadão
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O segundo eixo é o instrumento: uma operação relâmpago, conduzida por forças especiais dos EUA, que combina ataques de precisão a alvos militares com a captura do chefe de Estado e sua remoção forçada do território venezuelano. A retórica de Trump insiste na ideia de um golpe cirúrgico, “poderoso, rápido e competente”, algo que, em teoria, minimizaria danos colaterais e demonstraria superioridade tecnológica e de inteligência. Mas, como qualquer analista militar sabe, operações desse tipo carregam zonas cinzentas: danos em infraestrutura civil, riscos de erro de alvo, estresse sobre sistemas elétricos e de comunicação e, sobretudo, repercussões psicológicas e políticas difíceis de controlar em grandes centros urbanos como Caracas.
É no terceiro eixo, o enredo, que o discurso de Trump se torna mais sensível, tanto do ponto de vista histórico quanto do comportamental. Ao afirmar que os EUA vão “governar” a Venezuela até que seja possível uma transição “segura, adequada e judiciosa”, o presidente constrói uma narrativa em que um Estado acusado de fraude e repressão perde não só o líder, mas também o monopólio sobre a gestão da própria saída de crise. Em termos de história das intervenções, isso ecoa parcialmente experiências de ocupação ou tutela, mas com uma roupagem adaptada: Trump evita a palavra ocupação e apresenta a iniciativa como uma combinação de libertação, administração temporária e engenharia de transição, tudo ancorado no argumento de que as urnas já haviam falado em 2024 e foram traídas.
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Esse ponto é especialmente fértil para uma leitura de psicologia comportamental aplicada à política. Em vez de vender a ação como uma guerra clássica entre Estados, o discurso explora arquétipos morais: de um lado, um “criminoso” associado a narcotráfico, terrorismo e fraude; do outro, um eleitorado enganado, cuja vontade teria sido usurpada, e um ator externo que se coloca como guardião dessa vontade. Na linguagem da psicologia moral, isso ativa esquemas de justiça retributiva e proteção do grupo, reduzindo a dissonância cognitiva que, em condições normais, surgiria diante de uma violação tão clara da norma de não intervenção. Ao enquadrar Maduro como figura principalmente criminal, e não política, o discurso tenta deslocar a discussão do terreno das relações interestatais para o da aplicação extraterritorial da lei e da punição exemplar.
Para os militares de alta patente, o discurso tem um efeito ambivalente. Por um lado, a demonstração de capacidade de projeção de força, ataques coordenados, captura de Maduro, controle do espaço aéreo, sinaliza que a velha aposta em dissuasão simbólica e apoio de parceiros externos pode não ser suficiente para garantir a sobrevivência pessoal das cúpulas. Por outro, a promessa de uma transição “controlada” pode ser lida como espaço para negociar garantias, anistias e manutenção de algum grau de autonomia institucional, desde que aceitem uma reconfiguração do comando político em Caracas. Em termos comportamentais, o sistema entra numa fase de escolhas sob risco extremo, em que vieses como o otimismo irrealista e o “sunk cost” podem levar alguns a resistir além do razoável, enquanto outros se movem rapidamente para se alinhar ao novo equilíbrio de poder percebido.
Do lado internacional, o discurso e a operação testam fronteiras jurídico‑políticas que vinham sendo tensionadas desde o pós‑Guerra Fria, mas raramente cruzadas de forma tão explícita na América Latina. A narrativa de Trump tenta combinar três camadas: a de proteção de direitos humanos (dada a repressão e a erosão de liberdades na Venezuela), a de correção de uma fraude eleitoral massiva e a de combate a ameaças criminais transnacionais ligadas a drogas e grupos rotulados como terroristas. Essa arquitetura discursiva é importante porque gera reações diferenciadas: enquanto alguns governos e atores sociais veem a derrubada de Maduro como desfecho quase inevitável diante da fraude de 2024, outros se concentram no precedente de um país poderoso removendo um chefe de Estado por meio de uma operação militar e anunciando que irá “administrar” o país.
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Há, ainda, um efeito histórico mais sutil. Ao amarrar a ação militar ao argumento de que a eleição de 2024 foi roubada, o episódio reforça a transformação das disputas eleitorais em gatilhos potenciais de rearranjos geopolíticos de alta intensidade. Isso vale tanto para regimes autoritários quanto para democracias formais: a mensagem indireta é que fraudes massivas, quando comprovadas e conectadas a violações persistentes de direitos, podem atrair não só sanções e isolamento, mas, em circunstâncias específicas, ações cinéticas justificadas em nome da vontade popular contrariada. Ao mesmo tempo, a fronteira entre “corrigir uma fraude” e “usar a fraude como pretexto” é fina o bastante para alimentar narrativas de abuso, sobretudo em países historicamente sensíveis à intervenção externa, como é o caso da América Latina.
Por fim, é relevante lembrar que o próprio discurso de Trump, ao prometer que os EUA vão “tocar o país” até uma transição segura, carrega um paradoxo difícil de administrar em termos de psicologia de massas. Para parte da sociedade venezuelana, exausta de hiperinflação, repressão e fraude eleitoral, a ideia de uma tutela temporária pode ser percebida como alívio e oportunidade de reconstrução. Para outra parte, inclusive segmentos que rejeitam Maduro, a imagem de um país administrado a partir de Washington reativa memórias de dependência e humilhação nacional, com potencial de alimentar ressentimentos que, no médio prazo, podem redefinir tanto a política interna quanto o sentimento antiamericano.
* É CEO da Arko Internacional em Washington, Pesquisador Senior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington (CSIS)