Opinião | Consumidor americano paga a conta do tarifaço de Trump
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Opinião | Consumidor americano paga a conta do tarifaço de Trump

Os tarifaços de Donald Trump são um "gol contra" em termos do bem-estar dos consumidores dos Estados Unidos, segundo recém-publicado estudo pelo Instituto Kiel, think tank sediado na cidade alemã de mesmo nome. Os autores são os economistas Julian Hinz, Aaron Lohmann, Hendrik Mahlkow e, A. Vorwig.

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Na média, os importadores e consumidores norte-americanos pagaram por 94% do aumento das tarifas de produtos importados, enquanto os exportadores dessas mercadorias só reduziram em 4% seus preços. Segundo os economistas, se os Estados Unidos impõem uma tarifa de 25% num determinado produto, os exportadores reduzem seu preço pré-tarifa em menos de 1%.

O estudo usou dados de transporte de mercadorias, cobrindo mais de 25 milhões de transações de comércio exterior no valor de US$ 4 trilhões.

Os autores fizeram estudos de evento específicos para os casos do Brasil e da Índia, que foram particularmente atingidos por tarifaços de, respectivamente, 50% e 25-50%. Em ambos os casos, o volume de comércio despencou e os preços foram mantidos.

Os economistas escrevem que os resultados do trabalho têm profundas implicações:

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"Se os exportadores estrangeiros não reduzirem seus preços em resposta às tarifas, então todo o ônus da tarifa recai sobre os compradores americanos. A tarifa não funciona como um imposto sobre produtores estrangeiros, mas como um imposto sobre o consumo sobre os americanos. Cada dólar de receita tarifária representa um dólar extraído de empresas e domicílios americanos".

A metodologia do estudo se valeu de dados no nível de remessa (shipment-level) para construir valores unitários (valor por kg) como medida primária de preços de importação. Ao comparar a variação de preços para um mesmo produto de diferentes países, os autores conseguiram isolar o efeito das tarifas de outros fatores de mercado.

Os economistas formulam algumas hipóteses sobre por que os exportadores de produtos para os Estados Unidos, atingidos pelo tarifaço, praticamente não absorvem o custo.

A primeira dela é a possibilidade de redirecionar as vendas para mercados alternativos na Europa e na Ásia. Também pode explicar a reação dos exportadores o fato de que cortes de preços para compensar uma tarifa de 50% seriam tão grandes que tornariam a operação comercial insustentável e não lucrativa.

Outro fator explicativo é a possível expectativa dos exportadores de que o tarifaço é temporário, e que fazer reajuste de preços, além de ser custoso, poderia sinalizar fraqueza e ser um chamariz para mais tarifas. Finalmente, há a rigidez das cadeias de suprimento, com importadores dos Estados Unidos frequentemente mantendo relações de longo prazo com fornecedores dos quais acabam dependentes - isso, por sua vez, aumenta o poder de barganha dos exportadores.

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Os economistas notam também que, em última instância, são os consumidores americanos que pagam a conta do tarifaço. Isso ocorre porque os importadores e atacadistas tendem a repassar o custo da tarifa para a frente, assim como as indústrias que importam insumos e o comércio varejista.

Assim, para os autores, "o aumento de US$ 200 bilhões em receitas tarifárias [causado pelos tarifaços] representa US$ 200 bilhões extraídos das empresas e das famílias americanas".

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/1/2026, terça-feira.