Opinião | Euforia puxada pelo cenário externo
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Opinião | Euforia puxada pelo cenário externo

O desempenho espetacular do mercado de ativos brasileiros neste início de 2026 é visto por boa parte dos analistas como consequência não de fatos domésticos, mas de uma onda internacional que vem favorecendo de forma intensa vários emergentes, com destaque para os produtores de commodities.

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De fato, bolsas em alta e valorização de moedas nacionais ocorrem em várias partes do mundo, incluindo a América Latina, e em alguns países com intensidade até maior do que a verificada até aqui no Brasil.

A interpretação é de que esse rali é o outro lado da moeda de um movimento de diversificação do dólar, de ativos americanos e, em particular, do setor de tecnologia. Esse rebalanceamento se dá após anos de boom nas bolsas americanas e nas grandes empresas de tecnologia - turbinadas pelas promessas da inteligência artificial -, que levaram a valorizações estratosféricas.

No caso da tecnologia e da IA, há razões específicas para questionar se a alta das empresas do setor não foi longe demais. Mas o pano de fundo para a diversificação de portfólios para fora dos Estados Unidos é a política econômica extravagante e errática de Donald Trump, que está por trás da queda internacional do dólar.

O status dos Estados Unidos como porto 100% seguro - com os títulos do Tesouro do país sendo tradicionalmente considerados investimentos sem risco - está em xeque, com prêmio de risco surgindo na curva de juros norte-americana.

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"Depois de chegarmos à maior concentração da história em ativos americanos, o governo de lá resolve começar a chacoalhar a árvore", sintetiza Andrei Spacov, sócio e economista-chefe da gestora da gestora Exploritas Investimentos.

Gestores ouvidos pela coluna foram unânimes em considerar que a novela pré-eleitoral no Brasil - com Flávio Bolsonaro tentando consolidar sua candidatura presidencial pela direita, Tarcísio de Freitas emitindo sinais ambíguos e Lula preservando o favoritismo, embora apertado - não está fazendo preço nos ativos brasileiros no momento. A onda de otimismo vem de fora.

Como disse um gestor, no momento em que o investidor quer rebalancear seu portfólio reduzindo a exposição aos Estados Unidos e à tecnologia, "tudo o que não é tecnologia e não é dólar se beneficia; e o Brasil, que não tem tecnologia, mas tem um monte de commodities, sai ganhando".

Já Spacov nota que há uma incongruência no mercado de ativos brasileiros, que é a valorização forte e contínua da bolsa ao mesmo tempo em que o juro real de médio e longo prazo se mantém em patamar elevadíssimo.

A diferença entre o "earnings yield" - uma espécie de medida de rentabilidade do mercado acionário - e os juros reais de longo prazo está no menor nível desde pelo menos 2011. Essa diferença é, na verdade, uma medida de atratividade do mercado acionário que, por esse parâmetro, está muito baixa.

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Na visão do economista, essa discrepância entre a alta exuberante da bolsa e o juro real muito elevado não deve perdurar indefinidamente. Ou haveria uma correção para baixo da bolsa ou, o que considera mais provável, a onda de otimismo vai acabar chegando também à renda fixa, e o juro real de médio e longo prazo vai cair. O início em breve do ciclo de redução da Selic pelo Banco Central pode contribuir para que essa segunda hipótese se confirme.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/1/2026, segunda-feira.