Ao encostar o carro na bomba de combustível, um dos alertas mais visíveis é a proibição do uso de celular durante o abastecimento. A placa, geralmente representada por um círculo vermelho cortando um telefone antigo, está presente na maioria dos postos do país.
O temor embutido nesse aviso é específico: a crença de que as ondas eletromagnéticas emitidas pelo aparelho podem gerar uma faísca invisível capaz de provocar uma explosão.
Essa narrativa, difundida desde os anos 1990, ganhou força com a circulação de vídeos na internet que mostram incêndios repentinos durante o abastecimento. Mas a tecnologia de bolso usada hoje ainda representa esse risco? Ou a regra se apoia em tecnologias obsoletas e em uma lenda urbana que atravessou gerações?
A resposta curta é que o risco de explosão causada diretamente pelo sinal do celular é praticamente nulo. Ainda assim, a proibição continua válida por razões que vão além da radiação eletromagnética.
Neste texto, vamos desmontar o mito à luz da física, explicar qual é o verdadeiro perigo invisível nos postos (que não é o telefone) e entender o que diz a legislação brasileira sobre o uso de celular em áreas de abastecimento.
Origem do mito e a física das ondas
Para compreender a origem do medo, é preciso voltar no tempo. A ideia de que celulares provocam explosões em postos surgiu na época dos primeiros aparelhos móveis, conhecidos como “tijolões”.
Naquele período, as baterias eram maiores, menos estáveis e, em casos raros, podiam se soltar ou gerar faíscas físicas ao cair no chão. As antenas externas também eram mais potentes e visíveis.
Do ponto de vista científico, porém, a radiação emitida por celulares (inclusive os antigos) é do tipo não ionizante. Isso significa que ela não tem energia suficiente para quebrar ligações químicas nem para gerar calor intenso à distância, diferentemente do que ocorre em um forno de micro-ondas.
Diversos estudos, incluindo testes realizados pelo programa MythBusters (Caçadores de Mitos), tentaram provocar a ignição de vapores de gasolina apenas com a atividade de um celular recebendo chamadas. O resultado foi sempre o mesmo: as ondas de rádio do aparelho, por si só, são incapazes de iniciar a combustão.
Para que a gasolina pegue fogo, é necessária uma fonte de ignição muito mais quente e direta do que o sinal 4G ou 5G. A ideia de que o simples recebimento de uma mensagem detonaria um posto é, tecnicamente, ficção científica.
Papel da eletricidade estática
Se o celular não é o causador, de onde vêm os incêndios registrados em vídeos de segurança? A resposta está em um fenômeno físico comum: a eletricidade estática. Ela é o verdadeiro perigo invisível nos postos de combustível, e é frequentemente confundida com o uso do celular no posto.
A eletricidade estática se acumula no corpo humano por meio do atrito. Ao dirigir, o contato da roupa, especialmente tecidos sintéticos ou lã, com o banco do carro carrega o corpo com energia elétrica. Nos registros de acidentes, o padrão costuma se repetir:
Nesse instante, a carga acumulada se descarrega na forma de uma pequena faísca. Como a boca do tanque está cercada de vapores altamente inflamáveis, essa descarga é suficiente para iniciar o incêndio.
O celular acaba levando a culpa porque, com frequência, é o objeto buscado. Mas o gatilho não é o aparelho, e sim a descarga elétrica do corpo. Se fosse um pacote de biscoito, o efeito seria o mesmo.
Por que a proibição continua existindo?
Se a ciência aponta que o sinal do celular é inofensivo, por que a regra segue em vigor? Há três razões principais:
O que diz a lei no Brasil
No Brasil, a proibição não é apenas uma recomendação das empresas; em muitos locais, tem respaldo legal. As regras sobre o uso de celular em postos variam entre estados e municípios, mas a tendência predominante é a restrição.
Na cidade de São Paulo, por exemplo, a Lei Municipal 13.440/2002 proíbe expressamente o uso de aparelhos celulares nos postos de gasolina. No estado de São Paulo, o Decreto Estadual 43.144 reforça a norma e prevê multas tanto para o estabelecimento quanto para o usuário que descumprir a regra. Outros estados, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, adotam legislações similares ou normas do Corpo de Bombeiros que vetam o uso do celular na chamada "área de pista", onde ficam as bombas.
Em geral, a restrição se aplica à área de abastecimento. O uso do aparelho dentro da loja de conveniência, normalmente afastada das bombas, costuma ser permitido. Assim, a discussão jurídica não envolve o risco científico de explosão, mas o cumprimento de normas técnicas de segurança do trabalho e de prevenção de incêndios.
Como abastecer com segurança total
Para evitar transtornos, multas ou o risco (ainda que remoto) de acidentes, a recomendação ao chegar a um posto é seguir um protocolo simples de segurança.
Ao estacionar na bomba, desligue o motor, procedimento obrigatório. Se precisar usar o celular, faça isso de dentro do veículo, com os vidros fechados. O interior do carro funciona como uma barreira física em relação aos vapores de combustível presentes do lado de fora.
Evite entrar e sair do veículo durante o abastecimento para não gerar eletricidade estática. Caso precise sair, toque antes em uma parte metálica do carro (como a porta, longe do tanque) antes de se aproximar da bomba. Esse gesto descarrega a energia acumulada no corpo de forma segura, distante dos vapores inflamáveis.
O mais importante é respeitar a orientação do frentista. Mesmo que o risco associado ao celular seja baixo, o profissional segue normas rígidas de segurança. Discutir física na pista de abastecimento não altera a regra do estabelecimento. Guardar o aparelho por alguns minutos reduz riscos, evita acidentes e permite seguir viagem com tranquilidade. A mensagem pode esperar; a segurança, não.