O professor e especialista em relações internacionais Leonardo Trevisan afirmou, em entrevista ao Canal Livre, que a atual estratégia dos Estados Unidos para a Venezuela representa uma "regressão histórica" preocupante.
Ao comentar a evocação da Doutrina Monroe por membros do governo de Donald Trump, Trevisan alertou que o mundo está resgatando conceitos de dois séculos atrás para lidar com crises contemporâneas.
Para o analista, o ponto mais sensível e alarmante das recentes declarações de autoridades americanas, como o senador Marco Rubio e o próprio presidente Trump, é o princípio da "paz construída pela força". Segundo Trevisan, essa mentalidade traz memórias terríveis de períodos de instabilidade global.
O perigo da doutrina de 'paz pela força'
Trevisan explicou que, embora a Doutrina Monroe pudesse ter alguma justificativa no mundo pós-napoleônico do século XIX, o cenário atual é completamente distinto. Ele argumenta que a aplicação desse conceito hoje não visa a proteção do continente, mas sim uma imposição de vontade que ignora a diplomacia moderna.
"O princípio é o princípio mais preocupante, porque ele traz terríveis memórias", afirmou o professor. Ele destaca que o endosso direto de Trump a essa visão sinaliza um abandono de métodos multilaterais em favor de uma postura de confronto direto.
O especialista ressalta que essa abordagem de "paz pela força" é o elemento que mais deve acender alertas na comunidade internacional, dado o potencial de escalada de conflitos que tal retórica carrega.
Paralelos com o final da década de 1930
Ao aprofundar a análise, Leonardo Trevisan fez uma comparação histórica contundente. Para ele, o momento atual se assemelha mais ao final dos anos 1930 do que ao período original da Doutrina Monroe. Ele citou episódios como a crise dos Sudetos, a invasão da Polônia e o Acordo de Munique como exemplos de quando a "paz pela força" foi tentada.
"A comparação histórica é muito mais grave. Tudo aquilo era paz pela força. Então, quando provocado, é bom a gente ter a certeza de que aquilo provocou 60 milhões de mortos", alertou Trevisan, referindo-se ao custo humano da Segunda Guerra Mundial.
Na visão do historiador, o uso desse tipo de retórica para justificar intervenções ou pressões sobre a Venezuela coloca o mundo em uma trajetória de risco. Ele define o momento como uma regressão que ignora as lições aprendidas após os grandes conflitos do século XX.
A regressão na diplomacia americana
A crítica de Trevisan foca na desconstrução de décadas de avanços diplomáticos. Ele aponta que a fala do Secretário de Estado e o endosso presidencial reforçam uma visão de mundo onde a coerção militar e política se sobrepõe ao diálogo.
De acordo com o analista, o perigo reside no fato de que, ao retornar a conceitos de 200 anos atrás, os Estados Unidos podem estar desestabilizando o equilíbrio global de forma irreversível.