Após as chuvas das últimas 12 horas, que acumularam até 55 milímetros em Curitiba e provocaram 37 pontos de alagamento, o engenheiro florestal e de segurança do trabalho, mestre em governança e sustentabilidade, Rodrigo Meister defendeu, em entrevista ao portal Band Paraná, nesta quarta-feira (4), que os alagamentos recorrentes na Rua Professor Fernando Moreira só terão solução com um conjunto de obras de engenharia voltadas a reorganizar o escoamento do rio canalizado na região.
Segundo Meister, a canalização do curso d'água que passa próximo à via aumentou a velocidade da água e, como consequência, o volume que chega ao trecho crítico durante temporais mais fortes.
Na avaliação dele, uma solução definitiva exigiria a remoção da ocupação urbana em torno do leito, principalmente na montante da área alagável, hipótese que ele considera inviável naquela região.
Diante desse cenário, Meister defende que o poder público opte por intervenções técnicas que redistribuam o fluxo da água e aliviem a pressão sobre o ponto mais baixo da Professor Fernando Moreira.
Divisão de canais e barreiras para reduzir a vazão
Para o engenheiro, a estratégia deve combinar a divisão dos canais de escoamento da água da chuva com a instalação de estruturas que segurem parte do volume antes que ele chegue à área que hoje alaga de forma recorrente.
Ele explica que essas barreiras atuariam como pontos de retenção temporária, desacelerando a água a montante, enquanto a ampliação da vazão em trechos posteriores direcionaria o fluxo para locais com menor risco de inundação.
Na visão do especialista, a combinação de diferentes dispositivos de drenagem pode se mostrar mais eficiente do que soluções isoladas em áreas densamente urbanizadas.
Piscinão não resolve, só minimiza, diz especialista
Meister também comenta propostas frequentemente citadas para áreas sujeitas a enchentes, como a construção de reservatórios conhecidos como piscinões.
Para ele, tratar o problema da Rua Professor Fernando Moreira como impossível desestimula o planejamento de obras mais complexas e de longo prazo, capazes de redistribuir a água da chuva em vez de apenas armazená-la de forma pontual.
O engenheiro avalia que a experiência de outros centros urbanos mostra a necessidade de integrar reservatórios, canais alternativos, áreas de infiltração e dispositivos de retenção, sempre adaptados às características de cada bacia hidrográfica.
Chuva de 55 mm gera 37 pontos de alagamento em Curitiba
De acordo com boletim da Defesa Civil de Curitiba, divulgado às 5h30 desta quarta-feira, choveu até 55 milímetros nas últimas 12 horas na cidade, com o maior volume registrado na região do Córrego Bigorrilho.
Entre os bairros e áreas com maiores índices de precipitação estão Vilinha, no Bairro Alto, com 50,7 milímetros, a região Matriz, com 49,8 milímetros, Boa Vista, com 49,6 milímetros, Pinheirinho, com 47,2 milímetros, Cajuru, com 46,1 milímetros, Boqueirão, com 45,6 milímetros, e Bairro Novo, com 44 milímetros.
O balanço contabilizou 37 pontos de alagamento e 10 quedas de árvores em diferentes regiões. Não houve registro de desabrigados ou desalojados, nem necessidade de entrega de lonas para proteção emergencial de residências. Destelhamentos ocorreram nos bairros Boqueirão e Cidade Industrial de Curitiba.
A prefeitura reforça que a população pode acionar a Defesa Civil pelo telefone 199, a Guarda Municipal pelo 153, a Central 156 para serviços municipais e o Corpo de Bombeiros pelo 193 em situações de emergência.
FAS atende 115 famílias e envia colchões e cobertores
No Pinheirinho, 26 famílias receberam atendimento emergencial, com a entrega de 45 colchões e 40 cobertores. As equipes orientaram os moradores a procurar o Centro de Referência de Assistência Social para continuidade do acompanhamento.
Ponto crítico volta ao debate com novos temporais
Os novos episódios de chuva intensa recolocam em evidência pontos já conhecidos de alagamento em Curitiba, entre eles a Rua Professor Fernando Moreira. Para Rodrigo Meister, a recorrência desses eventos mostra a urgência de projetos estruturais que considerem o comportamento do rio canalizado e redistribuam o fluxo da água em toda a bacia.
Na avaliação do engenheiro, o desafio é conciliar a ocupação consolidada da região com intervenções capazes de reduzir a velocidade da água onde hoje há sobrecarga e aumentar a capacidade de escoamento em trechos menos suscetíveis a enchentes, superando a ideia de que o problema não tem solução.