Entenda a relação entre produtora de 'Dark horse' e contrato para programa de wi-fi suspeito de irregularidades em SP
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Longa é produzido pela Go Up Entertainment, de Karina Ferreira da Gama, que também é dona do instituto contratado para implementar o programa de internet gratuita
02/06/2026 03h30 Atualizado 02/06/2026 03h30
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GERADO EM: 01/06/2026 - 22:03
Investigação Apura Desvio de Verbas de Wi-Fi para Filme sobre Bolsonaro em SP
A Polícia Civil investiga se verbas públicas da Prefeitura de SP destinadas a implantar wi-fi gratuito foram desviadas para financiar o filme "Dark Horse" sobre Jair Bolsonaro. A operação apura o possível envolvimento da produtora Go Up Entertainment, de Karina Ferreira da Gama, também responsável pelo instituto contratado para o programa de internet. Foram cumpridos mandados e destacadas suspeitas de superfaturamento e confusão patrimonial.
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A Polícia Civil deflagrou na segunda-feira uma operação para apurar se os recursos públicos repassados pela Prefeitura de São Paulo à ONG Instituto Conhecer Brasil, contratada para instalar 5 mil pontos de wi-fi em vias públicas, foram desviados para custear a produção do filme “Dark horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O longa é produzido pela Go Up Entertainment, de Karina Ferreira da Gama, que também é dona do instituto contratado para implementar o programa de internet gratuita.
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A Operação Wi-Fi cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços residenciais de Karina, nas sedes do instituto e da produtora, e também na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. A dona do instituto é aliada do deputado federal Mário Frias (PL-SP), roteirista do filme sobre o ex-presidente, que chamou a atenção pelas cifras vultuosas reveladas nas conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) cobrava patrocínio de Daniel Vorcaro, do Master.
Subcontratações
No documento em que pede a quebra de sigilo bancário da empresária, ao qual o GLOBO teve acesso, o delegado Antonio Carlos Munuera Silveira, titular da 2ª Delegacia da Divisão de Crimes contra a Administração, afirma que há “suspeitas de confusão patrimonial” e de que recursos públicos do programa “WiFi Live SP” tenham sido desviados para a produção do filme por meio da utilização “das contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”.
Isso porque o ICB foi contratado para instalar os pontos de internet gratuita nas ruas, mas como não é uma empresa de tecnologia, subcontratou serviços de diversas empresas. Ao todo, as subcontratações somam R$ 98 milhões. Neste valor está incluído um pagamento de R$ 36 milhões à empresa Make One, R$ 30 milhões à UltraIP e cerca de R$ 12 milhões às empresas Complexys e Fast Future, que pertenceriam a um mesmo casal “associado à investigada Karina Ferreira da Gama”.
Outro problema, aponta o delegado no documento, é que a entidade cobrou pelo serviço um valor muito superior ao praticado pela própria empresa pública municipal de tecnologia, a Prodam — que pede R$ 230 por implantação por ponto e R$ 306 para manutenção mensal, enquanto o ICB cobrou R$ 1.800 por ponto.
A Civil ainda destacou como suspeito o repasse antecipado da prefeitura de R$ 26 milhões por serviços que não teriam sido prestados, “o que pode evidenciar o desvio de finalidade na aplicação do dinheiro público municipal”.
Segundo processo judicial, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia foi notificada em 31 de março para apresentar documentos referentes ao contrato. O prazo dado foi de 30 dias, mas a gestão municipal nunca respondeu.
Em nota, a prefeitura afirmou que “todo o material requisitado” na segunda-feira já havia sido disponibilizado às autoridades e são de acesso público, por meio da prestação de contas do município.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) negou irregularidades no contrato com o ICB:
— Toda investigação vai ter todo apoio da prefeitura de São Paulo. E, até o momento, nós não identificamos nada de irregularidade.
Nunes afirmou ainda que a prefeitura não pagou por 5 mil pontos, mas por 3.200, diferentemente do que apontou a Polícia Civil. Outra questão refutada por Nunes refere-se às suspeitas de superfaturamento. Segundo o prefeito, a Prodam cobraria mais do que os R$ 230 por ponto apontado na investigação, e não teria como fazer a implementação em zonas mais afastadas.
— Foi feita toda uma pesquisa de preço e ficava muito mais alto, ficava R$ 2 mil e pouco por ponto. Hoje, estamos pagando R$ 1.280.
Nunes ressaltou que o ICB foi contratado em junho de 2024, enquanto a Go Up só comunicou à SPCine que faria a gravação do filme na cidade em outubro de 2025. E apontou conotação política na investigação:
—Eu acho que isso está mais por conta de que a pessoa que é dessa entidade, ela participa do filme do Bolsonaro. Por que é que só agora veio essa questão?
Relação com Frias
A operação causou bastante incômodo nos aliados do prefeito, que citam “fogo amigo” da Polícia Civil do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O GLOBO apurou que a operação não passou pela cúpula da Secretaria da Segurança Pública.
Procurada, Karina não se manifestou. Ela nunca havia produzido um filme antes de “Dark horse” e sua experiência principal era no terceiro setor. Nos últimos anos passou a firmar contratos de cifras altas com a prefeitura de São Paulo, diversificou os negócios e abriu uma holding em Aracaju. Tudo isso coincide com uma aproximação com o deputado Mario Frias.
Foi o parlamentar quem emplacou a Go Up como a produtora do filme sobre Bolsonaro. Em 2022, Karina prestou serviços de assessoria de imprensa para a campanha de Frias. Na diplomação do deputado, esteve a seu lado e de sua família.
A parceria dos dois, que se conheceram em 2020, quando ele era secretário de Cultura do governo Bolsonaro, se refletiu nas emendas do parlamentar, que enviou R$ 2 milhões para o ICB.
Na segunda-feira, Frias disse que Karina “não ficará sozinha” e saiu em sua defesa, afirmando que a produtora é “humilde, honesta e trabalhadora”. “Confiamos irrestritamente nela. Karina está sendo usada politicamente. Tudo será amplamente explicado”, disse ele, de acordo com a colunista Bela Megale, do GLOBO.
A Polícia Civil apreendeu o celular pessoal e documentos na residência de Karina. Segundo policiais, ela foi questionada pela demora para abrir a porta, já que a ação ocorreu por volta das 5h. Karina respondeu que estava no banho e que acorda diariamente neste horário para sair para o trabalho, conforme o blog de Bela Megale.
A prefeitura ampliou em dezembro de 2025, para R$ 143 milhões, o valor do contrato com a ONG de Karina, conforme documentos consultados pela reportagem em processos administrativos. Os pagamentos seguem neste ano mesmo após a área técnica da prefeitura ter apontado uma “irregularidade grave” na prestação de contas de 2024, que a gestão diz ter corrigido. O contrato é válido até o fim deste ano.
Antes do aditivo, a prefeitura havia pago R$ 93,5 milhões ao ICB. Em dezembro, a gestão Nunes se comprometeu a destinar mais R$ 49,2 milhões ao longo de 2026 —um acréscimo, portanto, de 50% em relação ao valor pago até então. Neste ano, a prefeitura vem pagando R$ 4,1 milhões por mês à ONG.
A área técnica da Secretaria de Inovação cobrou a devolução de R$ 925 mil destinados de forma incorreta. A maior parte deste valor correspondia a um pagamento duplicado feito pela ONG a um fornecedor, que foi “glosado” pela prefeitura — isto é, não teve sua execução autorizada.
Em nota, a prefeitura disse que esses valores foram integralmente devolvidos pela ONG em 2025, e negou que o município tenha direcionado recursos para o filme em homenagem a Bolsonaro.
‘Fins eleitoreiros’
O valor gasto com “Dark horse” chamou a atenção pelas cifras, já que custou mais do que produções nacionais recentes indicadas ao Oscar, como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”. Vorcaro teria repassado R$ 61 milhões.
Na segunda-feira, Flávio disse esperar que “parte” da Polícia Civil de São Paulo não esteja “sendo usada para fins eleitoreiros”. A declaração sobre a corporação do governo Tarcísio de Freitas ocorreu durante compromisso em Minas Gerais.
— Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima, mais uma vez, de uma pescaria probatória, de uma perseguição, porque, se vão fazer uma operação para investigar irregularidades em um determinado contrato, que é de um ano e meio, dois anos para trás, tudo bem, as pessoas vão ter que explicar, o que não tem absolutamente nada a ver com o filme — afirmou Flávio.
(Colaborou Luis Felipe Azevedo)