Israel transmite aos EUA ressalvas sobre plano de Trump para Gaza enquanto novos ataques israelenses matam 19 no enclave
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Israel transmite aos EUA ressalvas sobre plano de Trump para Gaza enquanto novos ataques israelenses matam 19 no enclave

Governo Netanyahu afirma que Hamas continua se rearmando e condiciona retirada de tropas israelenses do enclave ao desarmamento completo do grupo

Por O Globo e agências internacionais — Tel Aviv e Gaza

03/08/2026 11h30 Atualizado 03/08/2026 11h40

Dias após o anúncio de um acordo para o desarmamento do Hamas e a retirada gradual das tropas israelenses de Gaza, Israel compartilhou com a Casa Branca “sérias preocupações de segurança” com o plano promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Nesta segunda-feira, o Gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que a versão da proposta tornada pública “não reflete as posições de Israel”, enquanto ataques do Estado judeu contra o enclave palestino nas últimas 24 horas mataram 19 pessoas e feriram outras 35.

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  • À Associated Press, Doron Spielman, porta-voz do Gabinete de Netanyahu, afirmou que a avaliação da inteligência israelense é de que o Hamas continua comprometido em reconstruir sua capacidade militar, em vez de se desmilitarizar de fato. Segundo ele, as Forças Armadas israelenses não se retirarão da Faixa de Gaza, onde controlam mais de 60% do território, antes que o grupo terrorista seja desarmado.

    — Se reposicionarmos nossas forças antes que o Hamas seja realmente desarmado, ele rapidamente ampliará sua presença em toda a Faixa de Gaza, reconstruirá sua infraestrutura terrorista, voltará a ameaçar comunidades israelenses e tentará realizar outro ataque nos moldes do ocorrido em 7 de outubro — disse, em referência ao ataque do Hamas contra Israel em 2023 que desencadeou a guerra.

    As declarações estão entre as primeiras manifestações públicas do governo israelense desde que Trump anunciou o acordo. Na sexta-feira, o Hamas informou que aceitou o plano de 20 pontos para encerrar a guerra, que prevê o desarmamento do grupo, a retirada gradual das forças israelenses de Gaza, a formação de um governo tecnocrático palestino, o envio de uma força internacional de segurança e a reconstrução do território devastado pelo conflito.

    O presidente americano, por sua vez, chamou o avanço de um “marco importante” nos esforços para dar fim ao conflito, acrescentando que Israel estava “muito satisfeito” com a evolução. À AFP, porém, Spielman reforçou que o plano apresentado pelo Conselho de Paz de Trump previa que Gaza se tornasse “uma zona desmilitarizada, desradicalizada, livre do terrorismo e que não representasse nenhuma ameaça para seus vizinhos”, o que, disse, “entra em contradição direta com a realidade atual e com as intenções declaradas do Hamas”.

    — O primeiro passo indispensável para qualquer acordo duradouro é a desmilitarização real, verificável e irreversível do Hamas. Qualquer medida que não conduza a uma desmilitarização completa deixaria o Hamas em condições de voltar a ameaçar Israel.

    Plano prejudicado

    Enquanto isso, o presidente israelense, Isaac Herzog, fez uma avaliação mais otimista, embora também tenha enfatizado que o grupo deve ser “completamente desarmado”. Herzog afirmou ver “muitos aspectos positivos nos esforços do Conselho de Paz, sob os auspícios do presidente Trump e de sua liderança”. Ele também disse que o plano de 20 pontos, adotado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e agora com os “avanços das diretrizes”, representa “um passo muito positivo, com a ressalva clara de que o Hamas deve ser desarmado”.

    — Espero que o Hamas seja completamente desarmado. Essa é claramente a base para avançar para a próxima fase, com a entrada de um governo de tecnocratas — disse. — Os esforços dos americanos, do Conselho de Paz, do presidente Trump e do CEO do Conselho de Paz podem trazer uma visão de esperança para os povos de Gaza e de Israel.

    Já à rede catari al-Jazeera, um integrante do Hamas afirmou que o plano apoiado pelos EUA será prejudicado caso Israel não interrompa o que parece ser uma intensificação da campanha de ataques aéreos no enclave. Segundo a fonte, o grupo entrou em contato com os mediadores e pediu que eles intervenham diretamente para obrigar Israel a cessar completamente suas operações militares em Gaza. Pelo menos 19 pessoas morreram em ataques israelenses nas últimas 24 horas, um dos maiores números diários registrados nos últimos meses.

    — Deixamos claro aos mediadores que a continuidade dos ataques comprometerá a implementação do acordo e as negociações sobre seu cronograma — disse a fonte do Hamas.

    Também nesta segunda-feira, o Hospital Beneficente Amigos dos Pacientes, na Cidade de Gaza, afirmou que corre o risco de interromper suas atividades “em poucas horas” devido à falta de combustível e de suprimentos operacionais, colocando a vida dos pacientes, incluindo bebês em incubadoras, em “perigo imediato e real”. A unidade disse, ainda, que autoridades israelenses bloqueiam há dois meses o fornecimento de combustível para o gerador local, enquanto o território enfrenta uma grave escassez de medicamentos e insumos médicos.

    Questões em aberto

    Questionada sobre a avaliação israelense de que o Hamas continua empenhado em reconstruir sua força militar, a Casa Branca não fez comentários adicionais. Autoridades americanas, que apresentaram detalhes do acordo à imprensa na semana passada, disseram que Israel foi consultado em todas as etapas das negociações e que não estava sendo solicitado a fazer nada além do que já havia aceitado no acordo de cessar-fogo e de libertação de reféns firmado em outubro passado.

    Não está claro quais preocupações Israel transmitiu a Washington. À AP, duas pessoas com conhecimento do acordo disseram que o Estado judeu apresentou suas objeções ao ex-premier britânico Tony Blair, integrante do Conselho de Paz. Segundo uma delas, um dos pontos defendidos por Israel era manter liberdade para realizar operações militares em Gaza. A outra fonte afirmou que os israelenses solicitaram que Catar e Turquia não participem da verificação de etapas do acordo e que as armas do Hamas sejam destruídas após apreensão.

    O desarmamento do Hamas tem sido um dos principais impasses do acordo e manteve as negociações travadas por meses. Ao anunciar o acordo nas redes sociais na quinta-feira, Trump afirmou que ele seria implementado em “fases cuidadosamente estruturadas”. Uma cópia do texto verificada pela AP afirma que todas as armas em poder da polícia controlada pelo Hamas serão transferidas para a comissão tecnocrática palestina apoiada pelos EUA, conhecida como Comissão Nacional para a Administração de Gaza, assim que o órgão chegar ao enclave.

    O processo de desativação e armazenamento das armas pesadas, bem como o desmonte das instalações de produção militar e da rede de túneis, começará após a chegada da comissão palestina e o envio das forças internacionais, processo que estará vinculado a uma retirada gradual das tropas israelenses. Ainda não está claro quando isso ocorrerá.

    Eleições em Israel

    A maior parte das áreas controladas por Israel em Gaza foram destruídas e despovoadas. A maioria dos 2 milhões de palestinos do território vive na porção restante do enclave, onde centenas de milhares de pessoas estão em acampamentos precários de tendas e bairros devastados.

    Ao mesmo tempo, Israel parece pouco propenso a retirar uma parcela significativa de suas forças ou fazer outras concessões antes das eleições previstas para outubro. Netanyahu enfrenta uma disputa difícil para a reeleição: seus aliados da coalizão de extrema direita defendem a manutenção da pressão militar sobre o Hamas e a permanência das tropas em Gaza, enquanto adversários o acusam de não ter conseguido impedir o ataque de 7 de outubro de 2023.

    Na ocasião, membros do Hamas atacaram comunidades israelenses, matando cerca de 1,2 mil pessoas, a maioria civis, e fazendo outras 251 reféns. Israel respondeu com uma ampla ofensiva que matou mais de 73 mil pessoas e deixou 174 mil feridos.

    (Com AFP)

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