Marrocos atribui mortes em travessias de migrantes para Ceuta à ação de traficantes e desinformação on-line
politica

Marrocos atribui mortes em travessias de migrantes para Ceuta à ação de traficantes e desinformação on-line

Segundo o Ministério do Interior do país, 11 pessoas morreram tentando cruzar a fronteira. Dez morreram afogadas, enquanto outra caiu de uma área rochosa. Balanço espanhol confimou pelo menos 72 mortes

Por O GLOBO, com agências internacionais — Madri e Ceuta

02/08/2026 18h03 Atualizado 02/08/2026 18h03

O Ministério do Interior do Marrocos informou neste domingo que 11 pessoas morreram tentando cruzar a fronteira para a cidade autônoma espanhola de Ceuta e atribuiu as travessias à atuação de redes de tráfico de pessoas e à disseminação de informações enganosas nas redes sociais. Dez pessoas morreram afogadas, enquanto outra caiu de uma área rochosa entre a cidade fronteiriça marroquina de Fnideq e Ceuta, informou o ministério em comunicado. A Espanha, por sua vez, registrou pelo menos 72 mortes entre os mais de 60 mil migrantes que cruzaram para o enclave nos últimos dias, quase todos devolvidos ao Marrocos.

  • Calças rasgadas, chinelos trocados e pernas enfaixadas: Marroquinos voltam para casa após sonho europeu terminar em frustração
  • Favorável à imigração: Espanha enfrenta crise política interna e externa após entrada de milhares de marroquinos em Ceuta
  • Segundo o porta-voz da pasta, Rachid El Khalti, as travessias teriam sido resultado de diversos fatores, incluindo "a exploração maliciosa de plataformas digitais, a disseminação de informações enganosas, as atividades de redes de tráfico de seres humanos e a má interpretação de disposições legais e administrativas, o que criou a falsa impressão de que a entrada no espaço europeu poderia ser feita facilmente e sem consequências legais".

    Cerca de 73,5 mil pessoas que entraram ilegalmente em Ceuta já deixaram a cidade desde quinta-feira, segundo estimativa divulgada neste domingo pelas Forças de Segurança do Estado da Espanha à agência EFE. Enquanto o balanço oficial espanhol mantém em 72 o número de migrantes mortos, as autoridades da cidade informaram que 88 corpos já foram retirados do mar e levados ao necrotério, indicando que o total de vítimas pode aumentar à medida que novas identificações forem concluídas.

    As vítimas morreram afogadas ao tentar chegar ao território espanhol, informou o delegado do governo em Ceuta, Miguel Ángel Pérez Triano.

    As autoridades acreditam que, entre os migrantes que deixaram o território espanhol, estão não apenas os que chegaram em massa nos últimos dias, mas também pessoas que já estavam em Ceuta havia mais tempo ou que cruzaram a fronteira diversas vezes ao longo da semana passada. O enclave espanhol no norte da África tem cerca de 83 mil habitantes.

    As primeiras estimativas do governo espanhol indicavam que entre 50 mil e 60 mil pessoas haviam chegado ilegalmente ao enclave entre quinta e sexta-feira. No entanto, mais de 48 mil retornaram espontaneamente ao Marrocos até o fim da sexta, segundo dados oficiais obtidos pela agência Lusa.

    O retorno teria sido impulsionado pela pressão exercida pelos militares enviados pelo governo espanhol ao enclave e pelo anúncio de um acordo de repatriação rápida firmado entre Espanha e Marrocos, que prevê consequências legais e práticas para os migrantes interceptados. A Guarda Civil espanhola também instalou uma barreira pneumática flutuante de 500 metros para reforçar a vigilância na região.

    Ceuta também enfrenta dificuldades para atender ao grande fluxo de imigrantes. Segundo a EFE, nos últimos dois dias não havia comércios nem bares abertos onde os recém-chegados pudessem comprar comida.

    Mais Sobre Espanha

    Por isso, uma pequena parcela dos migrantes que desembarcou nos últimos dias continua acampada nas praias, exausta e com fome, à espera de uma resposta ao pedido de asilo das autoridades espanholas. A maioria dos que permanece não é marroquina, mas oriunda de países da África Subsaariana, regiões marcadas pela pobreza, epidemias e conflitos armados.

    Crise diplomática

    A maior entrada em massa de migrantes da história de Ceuta desencadeou uma crise diplomática para a Espanha. Diversos aliados europeus passaram a criticar o governo do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, pelas políticas favoráveis à regularização de migrantes e cobraram uma resposta mais dura para conter novas travessias.

    A União Europeia convocou uma reunião por videoconferência para terça-feira, após 22 países do bloco divulgarem uma carta aberta pedindo uma resposta rápida e coordenada para evitar novas entradas irregulares.

    A Itália também suspendeu por um mês a aplicação do Acordo de Schengen para chegadas procedentes da Espanha. Na prática, a medida restabelece controles para cidadãos de fora da UE que entram na Itália vindos do território espanhol, sem afetar viajantes espanhóis.

    Em carta enviada aos líderes europeus, Sánchez criticou a reação que classificou como "egoísta" de parte dos parceiros do bloco.

    Enquanto isso, o governo do Marrocos continua sem divulgar um balanço oficial de mortos ou detenções relacionadas à crise e ainda não comentou os acontecimentos.

    A Espanha atribui a travessia em massa à atuação de grupos criminosos que espalharam rumores de que uma recente decisão do Supremo Tribunal espanhol facilitaria a entrada de migrantes. Analistas, por outro lado, avaliam que Rabat pode ter permitido o fluxo para pressionar Madri, que recentemente reaproximou-se da Argélia, rival regional do Marrocos.

    Papa expressa preocupação

    O Papa Leão XIV fez uma breve referência neste domingo à crise em Ceuta, durante a bênção do Angelus.

    — Sigo com preocupação a alarmante situação em Ceuta. Pedindo a Deus, por meio da intercessão de Nosso Senhor da África, que se possam encontrar soluções de paz, de estabilidade e de justiça.

    Já a Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) relatou "quase 130 vítimas" e dezenas de desaparecidos. A organização pediu a abertura de uma investigação independente sobre as causas do fluxo de migrantes entre a cidade marroquina de Castillejos e a espanhola Ceuta.

    A AMDH condenou o "silêncio inquietante das autoridades e das instituições" do país e considerou que a falta de resposta contribuiu para o fluxo.

    Uma fonte próxima da organização declarou à AFP que "a forma como os fatos ocorreram" sugere que as chegadas à fronteira não teriam acontecido "sem o acordo das autoridades" marroquinas.

    (Com AFP)

  • Espanha
  • Itália
  • Marrocos
  • Pedro Sánchez
  • União Europeia
  • ← Volver a noticias