Espanha aciona tropas após centenas de imigrantes chegarem a nado
Multidões chegaram a Ceuta vindas do Marrocos a nado. Ao menos 15 morreram tentando alcançar o território espanhol no noroeste da África. "Fronteira colapsou", diz Guarda Civil.O governo da Espanha anunciou nesta quinta-feira (30/07) que enviará militares a Ceuta para restaurar a ordem na fronteira com o Marrocos após centenas de imigrantes chegarem ao exclave espanhol no norte da África, muitos por nado. Ao menos 15 pessoas morreram na travessia, informaram autoridades espanholas.
Vídeos mostravam multidões atravessando a nado a partir do lado marroquino, utilizando boias, tentando contornar os quebra-mares que separam os territórios marroquino e espanhol ou escalar a cerca fronteiriça.
Para chegar a Ceuta, migrantes geralmente saem a nado da cidade marroquina de Fnideq, a 5 quilômetros de distância.
Agências de notícia relataram um fluxo contínuo de gente, a maioria molhada, entrando no pequeno território de 18,5 quilômetros quadrados e cerca de 85 mil habitantes. Embora a maioria fosse de homens jovens, também havia famílias com mulheres e crianças pequenas.
A emissora pública TVE afirma que entre 2 mil e 3 mil pessoas teriam chegado ao exclave. A polícia não citou números, mas fala em um fluxo "massivo" de imigrantes que a guarda na fronteira não foi capaz de deter.
Fronteira "colapsou totalmente"
"A situação é de caos absoluto", disse Rachid Sbihi, chefe da associação que representa os guardas civis da Espanha em Ceuta, à agência de notícias Associated Press (AP). Segundo ele, a fronteira "colapsou totalmente".
Imagens exibidas pela TVE mostravam agentes da Guarda Civil apenas monitorando a entrada de migrantes perto de um posto de fronteira no sul de Ceuta.
"A fronteira Tarajal foi aberta sob circunstâncias incomuns nesta manhã, e as pessoas a cruzaram", afirmou Achraf Maimouni, da Associação Marroquina para Direitos Humanos.
Nos últimos dias, equipes de resgate já haviam observado um aumento no número de pessoas tentando contornar os controles fronteiriços a nado.
"Não podemos enfrentar essa pressão sozinhos; uma pressão que resultou na chegada de entre 1.500 e 2.000 pessoas em apenas 10 dias, o equivalente a 2% da nossa população", afirmou Juan Vivas, prefeito-presidente da cidade autônoma de Ceuta.
Segundo o político, centenas estariam dormindo nas ruas, dada a capacidade limitada de acolher tantas pessoas de uma vez. "Não há mais espaço para ninguém", disse ele à televisão espanhola.
Dados oficiais do governo espanhol apontam que, só neste ano, quase 3 mil imigrantes haviam entrado no território até o dia 15 de julho.
Este é o maior fluxo de entrada em Ceuta desde maio de 2021, quando mais de 10 mil migrantes chegaram vindos do Marrocos em apenas dois dias.
Presidente viajará a Ceuta em meio à crise
Em meio à crise, o presidente espanhol Pedro Sánchez viajará nesta sexta-feira a Ceuta, informou a agência de notícias EFE.
As autoridades marroquinas não comentaram publicamente as travessias, e o Ministério do Interior do país não respondeu aos pedidos de comentário.
O Ministério do Interior da Espanha afirmou que o governo marroquino está "cooperando estreitamente" para lidar com a situação e que a polícia marroquina está impedindo que "numerosas pessoas" tentem atravessar a fronteira.
Os dois países teriam concordado em trabalhar juntos "para o retorno, o mais rapidamente possível, de todas as pessoas que entraram ilegalmente em Ceuta".
Após as imagens dos imigrantes em Ceuta virem a pública, o ministro do Exterior da Itália pediu que a Espanha seja suspensa da zona de livre circulação de Schengen. O governo espanhol reagiu convocando o embaixador italiano em Madri para prestar esclarecimentos.
Por que há tantos imigrantes tentando entrar em Ceuta de uma vez?
Ainda não há uma resposta clara a essa pergunta, embora alguns acontecimentos recentes possam ter contribuído.
No início de julho, o Supremo Tribunal da Espanha decidiu que migrantes que chegam ao território espanhol por via marítima não podem ser devolvidos imediatamente através da fronteira da mesma forma que aqueles interceptados em uma passagem terrestre.
O caso dos exclaves de Ceuta e Melilla, ambos no continente africano e fazendo fronteira com o Marrocos, é excepcional, já que eles podem ser alcançados pelo mar — embora isso signifique, na prática, contornar uma passagem fronteiriça terrestre, e não atravessar o Estreito de Gibraltar ou o Mar Mediterrâneo.
Os dois territórios são as únicas fronteiras terrestres da Europa com a África.
Outro fator que atraiu atenção internacional foi a oferta do governo espanhol de anistia e permissões de residência para migrantes que consigam demonstrar que já estavam no país sem autorização legal.
No entanto, essa medida aplica-se apenas às pessoas que podem provar que já se encontravam na Espanha quando a regra entrou em vigor. Portanto, ela não melhora as chances de permanência para aqueles que entram atualmente por vias irregulares.
ra (AP, AFP, EFE, Reuters)
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