Chanceler da Argentina admite 'diferenças políticas', mas diz que 'não há nenhuma chance' de rompimento com o Brasil
Pablo Quirno destaca que participação do presidente em um ato partidário do PL representa um sinal evidente de apoio à família Bolsonaro
29/07/2026 18h09 Atualizado 29/07/2026 18h34
O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, afirmou nesta quarta-feira que o governo de Javier Milei não pretende romper relações com o Brasil. A declaração ocorre no contexto de tensão diplomática entre os países, que se agravou nos últimos dias após a participação de Milei na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto.
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Em entrevista à rádio argentina Mitre, Quirno foi questionado sobre a fala do vice-presidente Geraldo Alckmin de que os xingamentos de Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representam um desserviço ao povo argentino. O ministro respondeu que trata-se de "juízos de valor":
— Nós achamos que o que Lula está fazendo no Brasil não é apropriado. Eles acham que é. (O Brasil) é um país soberno. Eles tomam a decisão deles e nós as nossas. Não há nenhuma chance de que, do nosso lado, as relações se rompam (...). Nós não levamos isso para o plano institucional. Mantemos as disputas eleitorais, bem como as diferenças políticas e ideológicas, dentro desse âmbito específico.
Quirno disse que o governo Milei vê o mundo “de maneira diferente” da gestão petista.
— Acredito que precisamos situar este episódio mais recente no contexto de uma série de incidentes ocorridos entre o Brasil e a Argentina, decorrentes das diferenças políticas e ideológicas existentes. Especificamente entre o presidente Milei e o presidente Lula. Enxergamos o mundo de maneiras completamente diferentes.
O Chanceler também destacou que a participação do presidente em um ato partidário do PL representa um sinal evidente de apoio de Milei à família Bolsonaro.
Durante o evento do PL, o presidente argentino fez um longo e duro discurso no qual criticou Lula, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e disse confiar em Flávio para “evitar o socialismo” no Brasil.
Milei chamou Lula de “presidiário”e Moraes, de "lixo careca" por ter negado pedido de visita dele a Jair Bolsonaro. Questionado na entrevista sobre os insultos contra o petista, Quirno desconversou:
— Não acho que vale a pena entrar na discussão do que foi dito ou quem falou primeiro.
Reação de Lula
O governo Lula ainda estuda o melhor momento para a volta do embaixador brasileiro Julio Bitelli a Buenos Aires. O Ministério das Relações Exteriores convocou Bitelli para consultas após as declarações recentes de Milei.
Auxiliares de Lula consideram improvável que a volta do embaixador ocorra ainda nesta semana. Uma das possibilidades é que Bitelli fique em torno de um mês no Brasil.
Na entrevista, Quirno elogiou Bitelli e disse esperar que ele retorne à Argentina "o quanto antes para continuar desenvolvendo a extensa agenda bilateral".
O governo brasileiro monitora novas manifestações do governo argentino e do próprio Milei antes de tomar uma decisão. Também estão sendo acompanhadas pelo Palácio do Planalto as reações da opinião pública argentina às falas do seu presidente. Pela percepção de auxiliares de Lula, houve rejeição na Argentina ao comportamento de Milei.
A convocação do embaixador do Brasil na Argentina foi uma das atitudes tomadas pelo governo brasileiro para demonstrar insatisfação com as declarações de Milei na convenção de Flávio Bolsonaro. A outra foi a convocação pelo ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, do embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para manifestar a repulsa do governo brasileiro com as declarações do presidente argentino.
Já Lula evitou confrontar diretamente Milei e ao ser perguntado sobre o caso, usou a ironia ao afirmar:
— Quem é esse cara?
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, por sua vez, chamou o presidente argentino de “palhaço”. A declaração foi mal vista por setores do governo que consideram que o chefe da equipe econômica acabou fazendo o jogo pretendido por Milei e rebaixou a discussão.