Publicitário ofereceu R$ 2 milhões a influenciadores pelo Master
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Publicitário ofereceu R$ 2 milhões a influenciadores pelo Master

Thiago Miranda é mostrado pela PF como principal articulador do monitorado de dados sigilosos de jornalistas para Vorcaro

Investigações da Polícia Federal identificaram que o publicitário Thiago Miranda, ex-sócio do jornalista Léo Dias, chegou a oferecer até R$ 2 milhões a influenciadores para que atuassem em uma campanha a favor do Banco Master. A ideia era chamada de “Projeto DV”, iniciais de Daniel Vorcaro.

A corporação cumpriu nesta 5ª feira (9.jul.2026) mandado de busca e apreensão contra Thiago Miranda. A estrutura do grupo tinha como objetivos proteger o núcleo dirigente, manipular a opinião pública, além de coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao presidente do Banco Central.

A nova frente investigativa mostrou que a estrutura utilizava recursos econômicos provenientes do esquema de fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master. Leia a íntegra (PDF-261kB).

Para executar as abordagens a influenciadores digitais e jornalistas, o grupo oferecia propostas financeiras com valores para a publicação de conteúdos favoráveis ao Banco Master ou para questionar a atuação do BC em razão da liquidação da instituição financeira, anunciada em 2025.

Os contatos comerciais envolviam a agência GroupBR, por meio de Júnior Favoreto, e a Miranda Comunicações (Agência MiThi, controlada por Thiago Miranda Silva), além da contratação da agência Unlimited, pertencente a André Salvador e Anderson Antunes.

De acordo com a decisão, cada proposta exigia a assinatura de um acordo de confidencialidade com previsão de multa contratual de R$ 800 mil em caso de quebra do sigilo. O vereador Rony Gabriel (PL-RS) chegou a ser procurado por um representante da empresa UNLTD com uma minuta desse acordo vinculada ao “Projeto DV”.

As condições previstas determinavam que, depois de assinar o termo, Gabriel deveria gravar vídeos afirmando que o Banco Master teria sido “vítima” do BC no contexto da liquidação da instituição financeira.

MONITORAMENTO DE JORNALISTAS

Entre as ações monitoradas pela PF estava uma estratégia focada em jornalistas que fizeram reportagens sobre o caso Master. Caso os profissionais da imprensa ou influenciadores recusassem as vantagens financeiras oferecidas, o grupo utilizava informações privadas e sigilosas, obtidas de forma ilícita, para constranger, intimidar ou coagir.

O relatório policial detalha que Thiago Miranda e Vorcaro planejavam estratégias que incluíam o levantamento constante de “informações de natureza pessoal, profissional, familiar e patrimonial” da jornalista  Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo

As buscas feitas pelo grupo abrangeram a estimativa de renda da jornalista, operações em cartões de crédito, volume de movimentações bancárias, além da identificação de seus filhos e dados patrimoniais. 

O propósito era reunir material sensível capaz de expor, constranger ou descredibilizar a profissional publicamente. Para obter tais dados sigilosos, o grupo utilizava plataformas clandestinas.

A investigação também registrou tentativas de barrar conteúdos jornalísticos. Thiago Miranda tentou abordar a jornalista Consuelo Dieguez, da piauí, para que ela retirasse de circulação uma reportagem prejudicial a Daniel Vorcaro, mas a profissional recusou o pedido e o orientou a enviar uma carta formal à revista.

Em outro caso, o publicitário abordou Renato Breia, sócio da consultoria Nord Investimentos, que acabou aceitando remover o conteúdo solicitado. Após o sucesso da abordagem, Thiago enviou um print da conversa para Daniel Vorcaro comemorando com a frase: “Mais um arquivado!”.

Entre os alvos do grupo, segundo a PF, também está o CEO do Itaú, Milton Maluhy

Em depoimento para a PF, Miranda afirmou que conheceu Vorcaro quando o ex-banqueiro ofereceu R$ 3,5 milhões para comprar o Portal de Notícias Léo Dias. Vorcaro teria o interesse de montar um grupo de mídia. Logo depois, o publicitário ofereceu serviços para “gerenciamento de imagem”, com a contratação de influenciadores para defender os interesses de Vorcaro. 

Em suas redes sociais, Miranda afirmou, na 3ª feira (7.jul.2026), 2 dias antes da operação, que deixava oficialmente a sociedade do Grupo Léo Dias de Comunicação.

Em nota, a defesa do publicitário nega que tenha agido com “ilegalidade” e que “sempre pautou sua atuação profissional pela legalidade, pela transparência e pelo respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão, não tendo praticado qualquer ato criminoso, tampouco participado de conduta destinada a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros”.

Eis a nota completa: 

“Acerca dos fatos amplamente divulgados no dia de hoje, a defesa de Thiago Miranda vem a público refutar, de forma categórica, a prática de qualquer ilegalidade por seu constituinte. 

“Thiago Miranda sempre pautou sua atuação profissional pela legalidade, pela transparência e pelo respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão, não tendo praticado qualquer ato criminoso, tampouco participado de conduta destinada a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros.

“A defesa esclarece que a existência de investigação em curso não autoriza qualquer juízo antecipado de culpa, devendo ser rigorosamente preservadas as garantias constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e, sobretudo, da presunção de inocência. Thiago Miranda está inteiramente à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários, colaborar com a apuração dos fatos e demonstrar, no foro próprio, a absoluta regularidade de sua conduta.

“Por fim, informa que a defesa acompanhará atentamente todos os atos do procedimento e adotará as medidas jurídicas cabíveis para assegurar que os fatos sejam apurados com equilíbrio, técnica e respeito às garantias legais, afastando-se conclusões precipitadas ou interpretações incompatíveis com a realidade.”

COMPLIANCE ZERO

As apurações sobre as fraudes no Banco Master estão no escopo da Compliance Zero, autorizada inicialmente pela 10ª Vara Federal de Brasília em novembro de 2025. A 1ª fase prendeu provisoriamente os principais executivos ligados à instituição liquidada pelo BC. Ainda em novembro, o TRF-1 autorizou o uso de tornozeleira eletrônica e o retorno dos investigados para casa.

O caso passou a tramitar no STF a partir de dezembro de 2025, sob o comando do ministro Dias Toffoli. Ele autorizou a 2ª fase em janeiro de 2026, mas deixou a relatoria em 12 de fevereiro. André Mendonça assumiu. Vorcaro voltou a ser preso no início de março. Está detido na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Ele entregou uma proposta de delação premiada, cuja análise por parte do ministro do Supremo deve levar semanas.

Eis as fases da operação:

  • 1ª fase (18.nov.2025) – Daniel Vorcaro foi preso pela 1ª vez em 17 de novembro de 2025, um dia antes de a operação ser deflagrada. Ele tentava deixar o Brasil. A ação cumpriu 7 mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em 4 Estados e no DF. O ex-banqueiro foi solto em 29 de novembro;
  • 2ª fase (14.jan.2026) – a PF realizou buscas em endereços ligados a Vorcaro. Foram apreendidos carros, relógios e dinheiro. Os valores bloqueados ou sequestrados na ação superaram R$ 5,7 bilhões. Tinha o objetivo de apurar o uso de fundos fraudulentos para maquiar os caixas do Master. Leia as íntegras das decisões que autorizaram a operação;
  • 3ª fase (4.mar.2026) – Vorcaro voltou a ser preso. De acordo com a PF, o ex-banqueiro tinha um grupo que intimidava adversários e pagava propina para 2 funcionários do BC. No mesmo dia, um homem que trabalhava para o fundador do Master tentou se matar enquanto estava sob a custódia da PF –ele morreu em 6 de março. Leia a íntegra da decisão que deu aval à ação;
  • 4ª fase (16.abr.2026) – a operação da PF prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. É investigado por suspeita de permitir operações sem lastro com o Master. Segundo a Polícia Federal, Costa recebeu propina de Vorcaro em imóveis de luxo. Leia a íntegra da decisão que autorizou a ação;
  • 5ª fase (7.mai.2026) – o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo. A PF cita o pagamento de propina de Vorcaro para o congressista –que negou. O relator do Master no STF, ministro André Mendonça, disse que a relação entre o político e o ex-banqueiro “extrapola a amizade”. Houve o bloqueio de R$ 18,85 milhões. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
  • 6ª fase (14.mai.2026) – foram cumpridos 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em SP, MG e RJ. O pai de Vorcaro foi preso. Era ele quem articulava o grupo de intimidação e espionagem do ex-banqueiro, de acordo com a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
  • 7ª fase (19.mai.2026) – a PF deflagrou uma operação para apurar o vazamento de informações sigilosas ligadas ao Master. Mendonça mandou afastar um perito da corporação;
  • 8ª fase (26.mai.2026) – o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi alvo de mandados de busca e apreensão. A ação apura a suspeita de crimes envolvendo o Master e o Rioprevidência. O total movimentado é de R$ 3 bilhões, segundo a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação.
  • 9ª fase (18.jun.2026) – o senador Jaques Wagner (PT-BA) foi alvo de medidas cautelares autorizadas por André Mendonça. O ministro proibiu o congressista de atuar com empresas ligadas ao caso Master e de falar com investigados, salvo exceções familiares. Leia a íntegra (PDF — 256 kB).
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