Moreira Franco, cacique do MDB, critica ‘salada’ de alianças do partido
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Moreira Franco, cacique do MDB, critica ‘salada’ de alianças do partido

O ex-ministro e ex-governador do Rio Moreira Franco, um dos caciques do MDB, criticou a “salada” das alianças do partido nos estados. Ele citou como exemplo o caso do Rio, onde o atual prefeito Eduardo Paes (PSD), pré-candidato ao governo do Estado, vai apoiar Lula, mas a vice na chapa, Jane Reis, do MDB, é ligada ao bolsonarismo. Moreira esteve na cerimônia que sacramentou o nome de Jane como vice na chapa de Paes, no mês passado.

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“O partido é uma ferramenta que exige nitidez nas propostas econômicas, nas propostas administrativas, sociais, e com essa salada é impossível ter nitidez”, afirmou, em entrevista à Coluna do Estadão, dizendo que o ambiente atual de construção de alianças é “confuso”.

“Esse não é um ambiente saudável porque é confuso, muito misturado e sem definições claras, e sem isso é impossível se definir políticas claras”, continuou.

Moreira acaba de lançar um livro de memórias de mais de mil páginas chamado “Moreira Franco - Política como destino”, que coincide com o aniversário de 60 anos do MDB, a ser comemorado no próximo dia 24, e com os 10 anos do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

A publicação, que também será lançada em Brasília, traz bastidores do poder e resgata intrigas antigas, especialmente entre o MDB do ex-presidente Michel Temer, um de seus principais aliados, e o PT de Lula e Dilma.

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Ex-ministro chama petista de ‘inábil’

O ex-ministro e ex-governador falou sobre o processo de impeachment de Dilma e negou que Temer tenha trabalhado para tirar a petista do poder. “Michel Temer foi um vice-presidente de fidelidade canina”, escreveu, dizendo ainda não ter tido “nenhuma” participação nas articulações para o impedimento da ex-presidente.

“Ninguém cria condições para ocupar a cadeira de um presidente. É o presidente que cria condições para esvaziar a cadeira”, afirmou à Coluna.

Em vários trechos do livro, Moreira faz críticas a Dilma. Ele escreveu que a ex-presidente tem “temperamento belicoso” e é “inábil”, e que “a culpa do impeachment, a mola propulsora, foi consequência de sua conhecida inabilidade política”.

“Não tinha experiência para lidar com um ambiente de disputa democrática e plural”, diz o emedebista no livro.

Dilma, Paulo Guedes e o ‘traidor’

Moreira relata ter ouvido de Paulo Guedes, ex-ministro de Jair Bolsonaro, que Dilma o convidou para ser seu ministro da Fazenda já durante a tramitação do pedido de impeachment, aberto pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

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Ele conta que Guedes teria recusado o convite, mas que, diante da insistência da petista, teria dito “que aceitaria com uma condição: aplicar as propostas da Ponte para o Futuro”, ao que Dilma teria replicado: “O quê, o documento deste traidor? De jeito nenhum”. Procurada, a ex-presidente não comentou. Mas, no passado, ela negara a informação.

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O Ponte para o Futuro foi um documento elaborado pelo então PMDB, hoje MDB, com propostas do partido para a área econômica. Foi visto na época com desconfiança pelo governo Dilma, pois era tido como um programa de governo para Temer, que de fato usou o teor do documento quando assumiu a cadeira de Dilma Rousseff. Moreira Franco foi o coordenador da proposta no partido.

No livro, o ex-ministro diz lamentar que a petista tenha visto o documento como uma “agressão”.

“É incrível, mas a presidente entendeu ‘Uma Ponte para o Futuro’ como uma agressão ao seu governo e não como uma contribuição importante que poderia dar fim à crise. Foi uma pena”, escreve o emedebista em suas memórias.

Sem vocação para Joana D’Arc

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“Eu não tinha vocação para Joana D’Arc, para ser queimado em praça pública”, disse o ex-ministro sobre aquele momento. “Toquei as obras e solicitei ao Michel que tentasse acalmar a situação com a presidente”, completou.

Escândalos e ‘fim de festa’

Moreira Franco chamou, em entrevista à Coluna, de “fim de festa” o “esgarçamento das instituições”, fenômeno que, segundo ele, se dá por conta da profusão de escândalos políticos que o Brasil enfrenta.

“Não é possível isso, não é saudável. Isso é fim de festa”, disse.

Um dos escândalos que Moreira acompanhou de perto, aliás, foi a gravação feita por Joesley Batista, dono da JBS, ao então presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu, na noite de 7 de março de 2017. Na época, ele era ministro da Secretaria-Geral da Presidência e despachava do Palácio do Planalto.

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Temer teria ouvido o empresário dizer que estava dando ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e ao operador Lúcio Funaro, uma mesada milionária na prisão para ficarem calados.

‘Tem que manter isso, viu?’, teria dito o então presidente, que sempre negou ter solicitado qualquer pagamento para garantir o silêncio de Cunha.

Renúncia de Temer já estava escrita

Moreira conta no livro que, ao chegar a uma reunião de emergência com Temer, já se discutia de forma concreta a renúncia do então presidente. Havia até mesmo um pronunciamento já escrito no qual ele anunciaria a decisão de deixar o cargo. “O pressuposto da proposta era que o presidente não tinha mais condições políticas de governar diante da gravidade da denúncia”, escreveu.

Ele conta que ficou “indignado com a proposta que estava sobre a mesa”: “Pedi a palavra e, de maneira enfática, manifestei minha divergência radical sobre a decisão que estava sendo tomada”.

Michel Temer foi denunciado pelo então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e, em 2019, virou réu, acusado de comandar organização criminosa e tentar obstruir as investigações da Lava-Jato. Moreira foi investigado por suspeitas de desvios na Eletronuclear.

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Os dois foram presos no mesmo dia, no âmbito da Lava-Jato, prisão que Moreira chamou de “sequestro” em seu livro de memórias.

“Tanto Michel quanto eu fomos sequestrados numa quinta-feira”, afirmou o ex-ministro, “e quem tomou a iniciativa de gerar tanto a prisão do Michel quanto a minha, está fora do jogo”, limitou-se a dizer, se referindo ao juiz Marcelo Bretas, que comandava a Lava-Jato, e foi condenado pelo CNJ e aposentado compulsoriamente por abusos na condução dos processos.