Muito cedo ainda na escola percebi que seria difícil me tornar parte de uma turma. Era meu desejo, claro. A turma, a princípio, parecia um lugar de força, aconchego e segurança. Não estar inserido em uma fazia de você um outsider, um estranho em meio a uma visão aparentemente harmoniosa de iguais que circulavam pelo colégio compartilhando a vida.
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Não me entendam mal: não é que eu não fosse convidada, ou que não me sentisse, muitas vezes, querida para integrar uma turma. É que rapidamente percebi que o preço talvez fosse alto demais para mim. A turma tem regras — e cada um de seus integrantes tende a defender as regras coletivas mais do que as individuais. Se você faz parte de uma turma e não concorda com algumas atitudes, muitas vezes é esperado que se cale em prol do bem-estar coletivo.
Aí é que a coisa toda pegava para mim. Assumir previamente que concordarei com atitudes ou presunções de um grupo antes da minha própria avaliação nunca me pareceu confortável — nem mesmo quando isso significava enfrentar muito cedo o enorme desconforto de não estar inserida em turma nenhuma.
Ao longo da vida percebi que ser uma outsider também tinha suas vantagens, em meio às desvantagens da suposta solidão. Pelo meu trabalho sempre estive presente em eventos, apresentações de moda, arte e, agora, em muitos outros ambientes que o jornalismo diário tem me apresentado. Como alguém fora das turmas, sempre tive, nesses eventos, um efeito colateral curioso: mais tempo sozinha. E esse tempo acabou me transformando em uma observadora atenta do modus operandi local.
Não sou a pessoa de confiança que sabe das fofocas — e isso, curiosamente, me deixa livre para perceber, intuir e analisar os ambientes, as pessoas e suas interações. Essa liberdade passou a me interessar cada dia mais.
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Essa semana, em mais um desses momentos, me vi absolutamente fora da turma. No caso, um grupo de homens intelectuais reunidos para conversar sobre suas visões de mundo. Confesso que fazia tempo que não sentia tanta vontade de me aproximar, de pertencer, de ouvir e também de ser ouvida. Os livros da maior parte deles ocupam espaço na minha biblioteca, e seus pensamentos me interessam a ponto de, por alguns instantes, me fazerem esquecer minha tese de que a turma, acaba diluindo as qualidades individuais.
Confesso que tentei me aproximar. Mas minha posição de outsider apareceu mais rápido do que costuma acontecer. Como jornalista que também cobre moda, fui recebida com desconfiança — uma hesitação de quem não sabe muito bem onde situar o tema naquele universo. “Sabe como é, jornalista cobre de tudo”, comentou alguém. “Vai do sagrado ao profano.”
“Mas qual seria qual?”, brincou um dos integrantes, percebendo a ironia da frase e o meu desconforto.
Voltei rapidamente ao meu lugar de estranha no ninho e pude então ouvir cada palestrante desse lugar de fora da comunidade intelectual. Cada um deles expôs sua tese com argumentos e raciocínios claros, de forma inteligente e articulada, como era de se esperar. Mas, como cada tese trazia uma ideia muitas vezes diametralmente oposta à de outro integrante, a turma que ao chegar parecia coesa foi, aos poucos, se desfazendo — e não é assim mesmo que turmas se desfazem?
O mais difícil parecia ser ouvir o outro. Ao perceber, logo nos primeiros instantes da fala, que a ideia apresentada dificilmente teria aderência ao próprio pensamento, a sala se enchia de um silêncio pesado. Alguns abriram computadores e começaram a escrever mensagens, outros respondiam e-mails, olhavam fotos ou se remexiam com força em seus tronos de certezas.
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A turma que chegou coesa, com a chancela da intelectualidade, parecia descobrir ali que talvez não fosse exatamente uma turma — mesmo estando todos, em tese, colocados na mesma prateleira.
Pensei então em mim mesma e na solidão de estar, mas não pertencer, à prateleira da moda, da arte, do jornalismo. Pensei também na resiliência de seguir sozinha em tantos eventos e na escolha deliberada de tentar ouvir até mesmo o que não me agrada para depois tirar minhas próprias conclusões.