Um dos três pré-candidatos do Partido Social Democrático (PSD) à Presidência da República, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, afirma ter mais condições que os colegas Ratinho Júnior (Paraná) e Ronaldo Caiado (Goiás) de liderar uma candidatura independente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do bolsonarismo.
Conforme mostrou o Estadão, o mais cotado para ser o candidato hoje é Ratinho, cujo nome estaria já “encaminhado” pelo partido. Contudo, um anúncio oficial com a escolha só será feito no final do mês.
“A eleição para presidente da República vai exigir a capacidade, a disposição e até a legitimidade de ser este terceiro polo capaz de fazer, nos debates que virão pela frente, uma discussão com os dois, tanto com Flávio Bolsonaro quanto com Lula. Eu não quero liderar uma candidatura para estar gravitando mais próximo a um em relação ao outro, eu quero poder apresentar um caminho alternativo, e a minha jornada me permite isso.”
O gaúcho sustenta ser o nome mais independente do grupo e cita que, na campanha à reeleição no Rio Grande do Sul, não aderiu à polarização e acabou enfrentando oposição tanto de lulistas quanto de bolsonaristas. Ao falar dos governadores Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado, porém, diz que “a jornada da vida pública exigiu deles outros posicionamentos”.
Publicidade
Embora Kassab tenha afirmado que todos os candidatos do campo da direita e da centro-direita estarão juntos no segundo turno, Leite diz que tem “diferenças muito profundas” com Flávio Bolsonaro e evita assumir um compromisso de aliança com o filho do ex-presidente.
“Eu confio que a gente consegue levar ao segundo turno, sim, uma candidatura alternativa. Mas, na hipótese de não acontecer, vai ter que se observar como é que foram os comportamentos, os discursos, o que defendeu cada candidato. Não dá para antecipar qualquer tipo de aliança que vier a acontecer no segundo turno antes de acontecer o primeiro turno.”
Leia os principais trechos da entrevista:
Pesquisa de intenção de voto, neste momento, não é irrelevante, mas não é o mais relevante. Nas minhas eleições, tanto para a prefeitura quanto para o governo do Estado, nunca saí com mais de 8% a três meses da eleição. As pessoas não estão vivendo e discutindo a eleição como está o colunista político, o mercado. As pessoas estão cuidando das suas vidas. Quando começar a campanha eleitoral é que efetivamente começa esse debate. O que a pesquisa demonstra é que há um governo rejeitado, que o brasileiro está preocupado com temas que não estão sendo endereçados e que esses dois principais nomes são rejeitados por metade da população de um lado ou de outro. Quando houver a campanha eleitoral, que vai intensificar a exposição de candidaturas, de debates, de interações pelas redes sociais de candidaturas postas, aí sim, conhecendo o cardápio das opções, é que as pesquisas de intenção de voto vão revelar efetivamente para onde esse eleitor está indo. Por enquanto, é ainda muito incipiente e eu não tenho dúvida que há esse espaço (para uma candidatura alternativa). Porque, assim como eu, muitos brasileiros não se sentem representados nem por um nem por outro candidato. Pode até estar indicando o voto em um porque rejeita mais o outro. Mas não está plenamente feliz com essa escolha.
Publicidade
Pela primeira vez o PSD vai oferecer ao Brasil um candidato a presidente. Por isso que é tão importante essa escolha. Porque não é apenas sobre quem representa o partido, mas, sim, como o PSD se apresenta e o que ele quer representar para o País.
Do meu lado, se eu tiver essa oportunidade, e confio que terei do meu partido, eu quero liderar um projeto para ser um terceiro polo e mostrar um caminho alternativo, ter a audiência devida, com respeito, com base nos argumentos. A forma de fazer política não é de ataques pessoais, não acredito nesse caminho destrutivo. Acredito no caminho da construção, mas vai exigir uma candidatura posicionada. E eu me sinto em condições de fazer isso como outros não têm condição, porque eu ousei, no momento em que essa polarização se afirmou, em anos anteriores, em não aderir a nenhum destes polos. E paguei o preço por isso, de receber oposição tanto de lulistas quanto de bolsonaristas, porque nunca me vi representado por nenhum deles. Ousei um caminho alternativo, fui reeleito governador no Rio Grande do Sul, recebendo críticas e ataques desses dois campos. Quero agora poder mostrar aos brasileiros que há um caminho alternativo.
Eu respeito muito meus dois colegas, eles têm bons resultados nos seus governos, são gestores já testados e aprovados pelas suas populações. Mas insisto: acho que a questão da eleição para presidente da República vai exigir a capacidade, a disposição e até a legitimidade de ser este terceiro polo capaz de fazer, nos debates que virão pela frente, uma discussão com os dois, tanto com Flávio Bolsonaro quanto com Lula. Eu não quero liderar uma candidatura para estar gravitando mais próximo a um em relação ao outro, eu quero poder apresentar um caminho alternativo, e a minha jornada me permite isso. Ela me dá essa legitimidade, essa independência para oferecer um caminho alternativo. Insisto: eu respeito muito a eles, têm grandes qualidades como homens públicos que são, mas a jornada da vida pública exigiu deles outros posicionamentos. A minha jornada me permite fazer essa ação mais independente, oferecer um caminho diferente para os brasileiros.
Estou totalmente focado neste plano A, que é poder liderar um projeto nacional. Se acontecer isso, está dado; se não acontecer, depois da decisão é que eu vou definir exatamente o meu rumo. Estou vivamente interessado em poder mostrar para os brasileiros que é possível conciliar uma visão de respeito à diversidade, de preocupação com as causas sociais, de proteção social e inclusão das pessoas mais vulneráveis, ao mesmo tempo em que você tem uma agenda de firmeza contra o crime, de reorganização do Estado brasileiro para ele ser um Estado com menos custo, que consiga dar mais espaço para quem quer empreender, mais liberdade para quem trabalha. Não são visões opostas de um mundo, mas hoje parece que são.
Publicidade
PUBLICIDADE
Não trabalho nessa perspectiva porque acho que temos diferenças muito profundas.
Falar de uma aliança, de uma união com qualquer um deles nessa etapa do campeonato — que nós estamos discutindo justamente a construção de caminhos alternativos — acho que não faz sentido.
Eu confio que a gente consegue levar ao segundo turno uma candidatura alternativa. Mas, na hipótese de não acontecer, vai ter que se observar como é que foram os comportamentos, os discursos, o que defendeu cada candidato. Não dá para antecipar qualquer tipo de aliança que vier a acontecer no segundo turno antes de acontecer o primeiro turno.
O que está se observando até aqui é que esse caso, lamentavelmente, vai alcançar figuras em todos os campos políticos. E mostra, mais uma vez, o quanto a gente precisa, no Brasil, ser duro no combate à corrupção, ter firmeza e dar espaço e estrutura para as instituições que têm essa missão, entre elas a Polícia Federal, para que se dê consequências a quem faz coisas erradas nesse País.
Publicidade
Mas, além de punir severamente, a gente tem que trabalhar para melhorar institucionalmente o País. Como conseguimos criar novas regras de organização das principais instituições, entre elas a do próprio Supremo Tribunal Federal? Afinal, ministros do Supremo Tribunal Federal, neste momento, estão sendo, pelo conjunto probatório que está se trazendo também, trazidos para esse debate. Inquéritos policiais e denúncias poderão vir pela frente em relação a eles. E tem que haver essa investigação profunda sobre quem quer que seja, onde estiver, sejam altas autoridades ou em outras instâncias. Mas, além de garantir a responsabilização deles, a gente precisa entender como é que a gente faz para que a Suprema Corte tenha ministros que estejam mais afastados da possibilidade de interferências dessa natureza.
Defendo que a gente tenha uma idade mínima de 60 anos para ministro da Suprema Corte. Isso daria, automaticamente, um mandato de 15 anos, e não a possibilidade de 35 anos de mandato como ministro do Supremo, como a gente tem hoje.
É uma forma de dar o mandato, que é a prática adotada em vários outros países, como na Alemanha, mas mandato não a partir de um período fixado, mas sim de uma idade mínima a ser estabelecida, uma idade alta, para que seja a coroação de uma carreira jurídica brilhante, e não uma oportunidade para o desenvolvimento de uma carreira que depois vai se associar a escritórios e pareceristas.
Tem que discutir a questão das decisões monocráticas, o próprio Código de Conduta Ética, que o ministro Fachin busca implementar e tem que avançar para estabelecer regras de conduta que protejam a instituição. Não quero que se proteja ministros individualmente. Estes, como seres humanos, agentes públicos, têm que estar, com muita transparência, sendo, sim, acompanhados. Mas a instituição, para estar protegida, precisa ter regras que devem ser observadas pelos seus membros, sob pena de cair em descrédito para a população e a gente gerar um ambiente de desconfiança das instituições e da nossa democracia, que acaba levando a população a, eventualmente, flertar com autoritarismo. A gente não pode cair nessas armadilhas.
Publicidade
É imprevisível ainda. Naturalmente, há, sobre quem está no governo, mais duramente um impacto, porque a sensação que as pessoas têm se dá em relação ao governo de plantão.
Há uma previsão constitucional. A legislação prevê a possibilidade dessa discussão se houver um conjunto de provas, um processo de investigação que comprove que tenha havido essa relação espúria, que há alguns sinais já demonstrados que isso pode ter acontecido — mas, insisto, ninguém pode ser absolvido previamente nem condenado previamente. A gente tem que aguardar o processo de investigação, mas há indícios de uma relação inadequada.
Na última eleição, o PSD optou por não ter candidato a presidente. Consequentemente, houve associação das principais lideranças aos campos que polarizaram a eleição. E isso faz com que muitas das lideranças tenham algum vínculo com essas pessoas, especialmente com o governo que hoje exerce o mandato do presidente Lula. Lamento, naturalmente, mas respeito e entendo que a circunstância política imponha isso.
A necessidade de ter um palanque era ter alguém que lá na ponta levaria a sua campanha até os eleitores. Hoje em dia, você consegue acessar os eleitores diretamente pelas redes sociais. Tenho certeza que, na medida em que a gente vai mostrando esse Brasil que pode ser feito, o engajamento que isso vai gerar no eleitor vai fazer com que as lideranças políticas venham atrás.
Publicidade